É muito difícil avaliar os resultados das conversações directas entre a Rússia e a Ucrânia em Istambul, na Turquia. Do lado positivo da balança estão o facto de russos e ucranianos se terem sentado à mesma mesa das conversações, a troca de mil por mil prisioneiros de guerra russos e ucranianos e a promessa de continuação do diálogo com vista a conseguir a paz na Ucrânia.
No entanto, ficou claro que o primeiro encontro foi utilizado por ambas as partes para apresentar as exigências máximas e que o processo de conversações irá ser muito sinuposo, difícil e moroso.
A delegação russa entrou de chancas, tentando encostar a delegação ucraniana “às cordas”. Como resposta ao pedido de cessar-fogo pelos ucranianos, o Kremlin apresentou exigências que ,como diz o ditador Putin, visam resolver “a causa primeira” da invasão do país vizinho. Segundo o Kremlin,a Ucrânia deve aceitar o estatuto de país neutro; a proibição total do aquartelamento de tropas e armas estrangeiras de destruição massiva no seu território; a renúncia à exigência de pagamento de reparações militares à Rússia; a retirada das tropas ucranianas dos territórios de quatro regiões suas; o reconhecimento pelos ucranianos e pela comunidade internacional da Crimeia e das quatro regiões parte da Rússia.
A apresentação deste programa máximo foi acompanhada por ameaças de Vladimir Medinsky, chefe da delegação russa a Istambul: se os ucranianos não aceitarem as exigências russas, a Rússia, da próxima vez, exigirá também as regiões ucranianas de Kharkyv e Sumy. Só depois Vladimir Putin aceitará o cessar-fogo nas frentes de combate.
Aliás, o ditador russo fez tudo para rebaixar os dirigentes ucranianos. Desprezou o presidente da Ucrânia, Volodomyr Zelensky. Putin decidira desafiar os ucranianos para o início de conversações sem exigências prévias. Zelensky respondeu com o desafio a Putin para se reunirem em Istambul, mas o dirigente russo enviou uma equipa de funcionários públicos secundários.
Resumindo, o ditador russo tentou mostrar ao mundo que ele faz o que quer e melhor lhe apetece. Além disso, ele mostrou que pretende continuar a guerra até à exaustão e à derrota da Ucrânia.
Numa situação como estas, o Ocidente deveria repudiar unanimamente o comportamento de Putin, mas tal não aconteceu. Se a Europa prometeu responder com sanções ainda mais duras do que as actualmente em vigor, o presidente norte-americano Donald Trump voltou a elogiar Putin, frisando que este quer acabar com a guerra, e voltou a acusar Zelensky de não ter “trunfos”. Ele ora considera que, em 2022, “os tanques de Putin chegariam a Kyiv em 5 horas, se não se tivessem enterrado na lama”, ora afirma que Putin quer a paz porque está cansado da guerra. Se a afirmação sobre os tanques russos é falsa e ridícula, o ataque das tropas russas contra território ucraniano com um número recorde de drones num dia: 273 na noite de sábado para domingo, mostra o “desejo de paz” do ditador do Kremlin.
Estas indecisões e contradições do dirigente norte-americano estão entre as causas da política de prolongamento da guerra por Vladimir Putin. Neste contexto, as declarações de Bridget Brink, antiga embaixadora norte-americana em Kyiv, não deixam dúvidas:”Infelizmente, a política seguida desde o início da administração Trump tem sido a de pressionar a vítima: a Ucrânia, em vez de pressionar o agressor, a Rússia”.
A humilhação da Ucrânia continua.
