
A Organização Meteorológica Mundial alerta que o planeta está energeticamente desequilibrado e explica por que razão este conceito é hoje central para perceber o aquecimento global e os seus impactos no dia a dia.
A Organização Meteorológica Mundial (OMM) afirma que o clima da Terra está mais desequilibrado do que nunca, um alerta que pode soar abstrato, mas que traduz uma mudança concreta na forma como o planeta funciona.
No centro desta ideia está o chamado balanço energético da Terra. Em termos simples, trata-se do equilíbrio entre a energia que o planeta recebe do Sol e aquela que devolve ao espaço. Durante milhares de anos, este sistema manteve-se relativamente estável, permitindo condições climáticas previsíveis.
O problema começa quando esse equilíbrio é quebrado. A concentração crescente de gases com efeito de estufa, como o dióxido de carbono (CO2), atua como uma espécie de “cobertor” que retém parte do calor. O resultado é que entra mais energia do que aquela que sai. Esse excesso acumula-se.
E onde vai parar essa energia extra? A resposta ajuda a perceber por que razão o aquecimento global não se resume ao aumento da temperatura do ar. Mais de 91% desse calor é absorvido pelos oceanos. Isto explica fenómenos como ondas de calor marinhas, tempestades mais intensas e alterações nos ecossistemas.
Outra parte, ainda que menor, contribui para o degelo de glaciares e calotes polares. Esse processo não só altera paisagens como contribui diretamente para a subida do nível do mar, que já aumentou cerca de 11 centímetros desde 1993. Pode parecer pouco, mas é suficiente para agravar inundações costeiras e acelerar a erosão.
Há ainda um efeito menos visível, mas igualmente crítico: a acidificação dos oceanos. Quando o mar absorve CO2, a sua química altera-se, reduzindo o pH. Isto afeta organismos como corais e moluscos, com impacto direto nas cadeias alimentares e na pesca.
O relatório da OMM confirma que entre 2015 e 2025 se registaram os anos mais quentes de sempre e que 2025 atingiu cerca de 1,43°C acima dos níveis pré-industriais. Mais do que um número, este valor indica que o sistema climático já se afastou significativamente do equilíbrio que sustentou a civilização moderna.
Além do ambiente, o impacto estende-se à saúde e à economia. Ondas de calor mais frequentes aumentam o risco de mortalidade e afetam a produtividade, enquanto mudanças nos padrões de chuva favorecem a propagação de doenças transmitidas por água e por vetores, como mosquitos.
Citado no relatório, António Guterres, secretário-geral das Nações Unidas, resume o cenário: “Quando a história se repete onze vezes, deixa de ser coincidência. É um apelo à ação”.
Perceber o conceito de desequilíbrio energético ajuda a ligar os pontos. Não se trata apenas de dias mais quentes, mas de um sistema global a acumular energia de forma contínua, com efeitos que se prolongam durante décadas ou séculos.
