
Um novo relatório das Nações Unidas alerta que conflitos, deslocações forçadas e fenómenos climáticos extremos estão a afastar milhões de crianças da escola. Para muitas delas, o problema já não é apenas aprender menos, mas perder completamente o acesso ao futuro.
Quando se fala sobre alterações climáticas, a conversa costuma centrar-se em incêndios, secas, ondas de calor ou energia. Mas há outro impacto, potencialmente mais profundo, que começa a surgir de forma cada vez mais clara: o efeito do clima na educação.
Segundo um novo relatório das Nações Unidas, cerca de 258 milhões de crianças e adolescentes em idade escolar vivem atualmente com a educação interrompida por conflitos armados, deslocações forçadas, crises económicas ou fenómenos climáticos extremos. Entre essas crianças, 93 milhões estão completamente fora da escola. As restantes continuam inscritas, mas muitas estudam em condições tão frágeis que a permanência no sistema educativo se torna cada vez mais difícil.
O relatório do fundo Education Cannot Wait descreve uma realidade em que estar fisicamente numa sala de aula já não garante necessariamente acesso efetivo à aprendizagem.
Em alguns contextos de crise, menos de 10% das crianças conseguem atingir níveis básicos de leitura nos primeiros anos escolares.
As alterações climáticas aparecem cada vez mais associadas a este cenário. Inundações, secas severas, tempestades e ondas de calor não afetam apenas infraestruturas ou agricultura. Também encerram escolas, forçam deslocações populacionais e agravam situações de pobreza que acabam por afastar crianças do ensino.
A ONU alerta que o impacto climático na educação deverá aumentar nas próximas décadas, sobretudo em países já fragilizados por conflitos ou instabilidade económica.
O problema concentra-se especialmente em nove países: Afeganistão, Bangladesh, República Democrática do Congo, Etiópia, Myanmar, Nigéria, Paquistão, Sudão e Iémen.
Mas o relatório sublinha que esta é uma tendência global e crescente.
As crianças refugiadas, deslocadas internamente, meninas e crianças com deficiência continuam entre os grupos mais vulneráveis.
Ainda assim, o estudo deixa uma conclusão relevante: a maioria das famílias continua a valorizar fortemente a educação. Quase 80% dos casos de abandono escolar analisados estão ligados a dificuldades financeiras ou encerramento de escolas devido às crises, e não à falta de interesse das famílias no ensino.
A diretora do fundo Education Cannot Wait, Maysa Jalbout, defende que investir em educação em contextos de crise deve ser visto como uma prioridade global.
Porque quando uma criança perde anos de escola, não perde apenas aprendizagem. Perde oportunidades económicas, estabilidade futura e, muitas vezes, a possibilidade de escapar ao ciclo de vulnerabilidade em que nasceu.
