
Um relatório científico encomendado pela Greenpeace International defende que a transição energética pode avançar sem abrir uma nova era de mineração intensiva, desde que governos apostem em reciclagem, inovação tecnológica e sistemas de mobilidade mais eficientes.
A transição energética está frequentemente associada a uma nova corrida global por minerais críticos, essenciais para tecnologias como baterias, painéis solares ou turbinas eólicas. Mas um novo relatório científico sugere que essa dependência pode ser menor do que se imagina.
O estudo Beyond Extraction: Pathways for a 1.5ºC-aligned Energy Transition with Less Minerals, encomendado pela Greenpeace International e elaborado por investigadores do Institute for Sustainable Futures da University of Technology Sydney (UTS), analisa diferentes cenários energéticos compatíveis com o objetivo de limitar o aquecimento global a 1,5 ºC.
A conclusão central é que a transição para energias limpas pode acontecer com uma procura mais moderada de minerais, desde que os governos adotem políticas públicas orientadas para a eficiência no uso de recursos.
Entre as soluções apontadas estão o reforço do transporte público, a melhoria dos sistemas de reciclagem e o desenvolvimento de tecnologias de baterias mais avançadas. Em conjunto, estas medidas podem reduzir significativamente a quantidade de matérias-primas necessárias para sustentar a transformação energética.
Elsa Lee, copresidente da área de Biodiversidade da Greenpeace International, alerta que a expansão da mineração pode trazer consequências sociais e ambientais significativas: “A mineração traz frequentemente destruição ambiental e danos sociais. Está alegadamente ligada ao trabalho infantil, à violação de direitos laborais, à apropriação de terras de povos indígenas, à degradação dos ecossistemas e a ameaças para as comunidades.”
Segundo a responsável, a atual corrida aos minerais críticos repete padrões históricos de exploração de recursos naturais e pode colocar em risco uma transição energética verdadeiramente justa.
A investigação também analisa a possibilidade de exploração mineira em áreas ambientalmente sensíveis. Ao comparar regiões com potencial mineral com zonas de elevada importância ecológica ou social, os autores concluem que não é necessário recorrer a essas áreas para garantir uma transição energética ambiciosa.
O tema da mineração em mar profundo surge como um dos pontos mais controversos. Ana Farias Fonseca, coordenadora de Campanhas e Mobilização da Greenpeace Portugal, afirma que o relatório reforça argumentos já defendidos pela organização: “Este novo relatório evidencia cientificamente o que sempre defendemos: que a mineração em mar profundo ser um ‘mal necessário’ para a transição energética é uma falácia perigosa.”
Portugal aprovou legislação que proíbe a mineração submarina até 2050, uma decisão que, segundo a responsável, poderá servir de exemplo internacional.
Ruth Ramos, responsável da campanha da Greenpeace International contra a mineração em mar profundo, defende uma abordagem preventiva: “Hoje sabemos que a mineração em mar profundo não só vai contra a ciência, a ética, as pessoas e o planeta, como nem sequer é necessária para uma transição renovável.”
Para o autor do estudo, o professor Sven Teske, o desafio agora é sobretudo político: “Esta investigação mostra como políticas sólidas e tecnologias inovadoras podem limitar a procura de minerais numa transição energética alinhada com 1,5 ºC. Concretizar esse potencial exige, no entanto, liderança política responsável e ação decisiva já hoje.”
