
Todos os dias, milhões de europeus — incluindo mais de um terço da população portuguesa — vivem expostos a níveis de ruído com impactos na saúde física e mental. Sono, coração, cérebro e até o rendimento escolar das crianças estão sob ataque constante do barulho.
Pelo menos uma em cada cinco pessoas na Europa está cronicamente exposta a níveis de ruído prejudiciais à saúde. Estima-se que o ruído afete gravemente o sono de 5 milhões de pessoas e seja responsável por 11 mil mortes prematuras e 40 mil novos casos de doença cardíaca isquémica todos os anos na UE, uma das principais causas de morte em Portugal e no mundo.
Cerca de 95 milhões de europeus estão expostos a ruído rodoviário perigoso e, em algumas cidades, até metade da população urbana vive com níveis sonoros considerados nocivos. Além disso, o ruído aéreo poderá comprometer a aprendizagem de cerca de 12.500 crianças em idade escolar.
A exposição prolongada ao ruído provoca alterações hormonais e genéticas, problemas cardíacos, aumenta a inflamação e o stress oxidativo, e contribui para lesões em diversos órgãos, incluindo o cérebro, coração e sistema vascular, fígado, rins, intestinos e pâncreas. Está também associada a um aumento da prevalência de doenças mentais e da incidência de suicídio. A exposição ao ruído do tráfego rodoviário — uma das principais fontes de ruído ambiente — está relacionada com uma taxa de depressão 4% mais elevada e um aumento de 12% nos casos de ansiedade. Adicionalmente, por cada aumento de 10 dB nos níveis de ruído, verifica-se um acréscimo de 12% no risco de desenvolver depressão.
O ruído ambiente também tem efeitos significativos na saúde animal. Nos pássaros, em particular, o ruído afeta o comportamento, a condição física, a reprodução e o crescimento, além de induzir estados de stress crónico.
Relativamente ao caso português, a recente Estratégia Nacional para o Ruído Ambiente 2025-2030 apenas apresenta números de 2012 e 2017 – desatualizados em 7 anos, como aponta a associação ambientalista Zero e o Conselho Português para Saúde e Ambiente – que revelam que, em 2017, cerca de 1.8 milhões de portugueses estiveram expostos ao valor máximo previsto para zonas sensíveis Lden 55 dB(A), um número que tem vindo a aumentar comparando com 2012. De facto, de acordo com uma publicação recente da Agência Europeia do Ambiente, em 2022, mais de 30% da população Portuguesa estaria exposta a níveis de ruído prejudiciais para a saúde (>Lden 55 dB(A)).
Ou seja, o ruído não é apenas um incómodo urbano, mas um problema de saúde pública que muitas pessoas descuram. A urgência de medidas eficazes, sustentadas por dados atualizados e ambição política, é incontornável. Ignorar o som é, paradoxalmente, deixar que ele nos silencie — pouco a pouco, e com consequências irreversíveis.
