
A Agência Internacional de Energia (AIE) alerta que a transição energética em Portugal só será bem-sucedida se incluir as famílias com menos rendimentos, os trabalhadores dos setores fósseis e as regiões mais vulneráveis. O relatório defende apoios mais acessíveis, requalificação profissional e instituições públicas mais preparadas para gerir a mudança.
A transição energética costuma ser apresentada como algo tecnológico, feita de painéis solares, carros elétricos e redes inteligentes. Mas a Agência Internacional de Energia (AIE) deixa um aviso a Portugal: sem uma transição socialmente justa, o processo pode aprofundar desigualdades já existentes.
Na nova Revisão da Política Energética de Portugal 2026, apresentada pela AIE em Lisboa, a organização defende que o país precisa de “capacitar os grupos mais afetados e mais importantes para concretizar a transição”. A mensagem vai além da eletrificação ou da redução de emissões. Fala de pessoas.
Portugal continua a registar níveis elevados de pobreza energética, realidade que afeta famílias incapazes de aquecer a casa no inverno, suportar faturas elevadas ou investir em soluções mais eficientes. Segundo a AIE, estas famílias estão no centro da transição, porque muitas das mudanças dependem precisamente das decisões tomadas dentro de casa: renovar edifícios, substituir sistemas de aquecimento, instalar painéis solares ou trocar de automóvel.
O problema é que essas escolhas exigem investimento inicial, algo inacessível para uma parte significativa da população.
A organização recomenda, por isso, que os apoios públicos sejam desenhados para garantir acesso mais justo a renovação de edifícios, aquecimento limpo, eletrodomésticos eficientes, produção doméstica de energia solar, baterias, veículos elétricos e soluções de carregamento.
A acessibilidade surge como uma palavra-chave. A AIE alerta que uma transição mal distribuída pode criar resistência social e aumentar a perceção de desigualdade entre quem consegue acompanhar a mudança e quem fica para trás.
O relatório refere também que a transformação energética terá impacto direto no mercado de trabalho. Setores ligados aos combustíveis fósseis, como o gás e o petróleo, deverão enfrentar uma redução gradual da procura nos próximos anos.
A AIE considera, no entanto, que muitos destes trabalhadores possuem competências técnicas relevantes para áreas ligadas à eletrificação, renovação de edifícios ou novas indústrias de energia limpa. O desafio passa por criar programas de requalificação e percursos claros de reconversão profissional.
A organização aponta como exemplo experiências recentes em Portugal, incluindo o encerramento da refinaria de Matosinhos e o fim das centrais a carvão. Segundo a agência, esses processos mostraram a importância de planear cedo, coordenar apoios regionais e garantir alternativas concretas para os trabalhadores afetados.
Além das famílias e do emprego, a AIE identifica outro obstáculo menos visível: a capacidade do próprio Estado para gerir a transição energética.
Municípios, agências regionais, reguladores e entidades públicas enfrentam cargas de trabalho crescentes relacionadas com licenças, programas de renovação, planeamento da rede elétrica e distribuição de apoios financeiros. Muitas destas entidades, refere o relatório, continuam limitadas por falta de recursos humanos e competências técnicas especializadas.
A agência considera que reforçar equipas, melhorar competências e acelerar a capacidade administrativa será essencial para que os programas cheguem às famílias e empresas “à escala e velocidade necessárias”.
