O início de produção de um novo modelo raramente é apenas um momento industrial. No caso do EX60, é também um sinal claro de alinhamento entre estratégia, execução e confiança institucional. Em Gotemburgo, a Volvo Cars deu início à produção do seu novo SUV 100% elétrico, um marco que rapidamente ganhou dimensão política, económica e tecnológica. A NEW MEN veio à Suécia assistir a este momento único.
A forte procura inicial, que levou a marca a aumentar os volumes de produção previstos para 2026, reforça a relevância deste arranque, com níveis de encomendas acima das previsões nos principais mercados europeus, incluindo milhares de unidades reservadas logo nas primeiras semanas.
Mas há aqui mais do que números e cadências produtivas. Este arranque simboliza um ponto de convergência raro entre indústria, poder político e visão estratégica. No palco de Torslanda, Håkan Samuelsson, President and CEO da Volvo Cars, foi direto, “o EX60 representa um novo começo para a marca, um modelo desenvolvido de raiz como elétrico e pensado para eliminar compromissos, seja na autonomia, nos tempos de carregamento ou no posicionamento de preço”. 
Uma leitura política
A leitura política reforçou essa ambição. Ebba Busch, ministra sueca da Energia, Negócios e Indústria e vice-primeira-ministra, enquadrou o momento como um sinal claro de que a Suécia pretende liderar a transformação industrial em curso. E não por acaso: Torslanda foi alvo de um investimento de cerca de 10 mil milhões de coroas suecas, com novas capacidades de mega casting, uma unidade dedicada à montagem de baterias e uma profunda renovação das áreas de pintura e montagem final. Mais do que modernização, trata-se de uma redefinição da própria lógica industrial.
Já Magdalena Andersson, líder do Partido Social-Democrata, deputada ao Riksdag e antiga primeira-ministra da Suécia, ampliou essa perspetiva para o plano europeu, apontando o EX60 como resposta concreta aos desafios contemporâneos, da crise climática à necessidade de reforçar a autonomia industrial do continente. A mensagem é clara: a eletrificação não é apenas uma transição tecnológica, é também uma questão estratégica.

Argumentos técnicos de “peso”
Por trás deste momento está um ciclo de desenvolvimento de três anos e meio. Para Akhil Krishnan, responsável pela linha de produtos 60 da Volvo Cars, que inclui os XC60, V60 e agora o EX60, “no centro do projeto está a nova plataforma SPA3, uma arquitetura exclusivamente elétrica, sem compromissos herdados da combustão, pensada para reduzir peso, otimizar custos e maximizar eficiência“.
É também aqui que surgem algumas das soluções mais relevantes do modelo. A utilização de mega casting permite substituir centenas de componentes por estruturas únicas em alumínio, enquanto a tecnologia cell-to-body integra a bateria diretamente na estrutura do veículo, transformando-a no próprio piso do automóvel. Uma abordagem que melhora a rigidez estrutural e a eficiência, mas que exigiu um trabalho intensivo ao nível da segurança, com centenas de testes de colisão e validação em condições reais.
A produção reflete essa ambição. A fábrica de Torslanda, com capacidade para cerca de 300 mil automóveis por ano, continua a produzir modelos como o XC90 e o XC60 na mesma linha, mas integra agora componentes provenientes de novas unidades dedicadas, como a fábrica de baterias e a unidade de mega casting. Os motores elétricos, por sua vez, são produzidos internamente na Suécia, reforçando o controlo sobre toda a cadeia de valor.

O próprio EX60 traduz esta evolução em números concretos: até 810 km de autonomia, carregamento dos 10% aos 80% em cerca de 16 minutos, um valor otimizado através de software, e um posicionamento de preço alinhado com o atual Volvo XC60 híbrido plug-in. A lógica é simples: eliminar as barreiras que ainda travam a adoção do elétrico.
Outro dos pilares está no software. Desenvolvido maioritariamente in-house e partilhado com modelos como o EX90, permite reutilizar hardware para múltiplas funções e evoluir as funções ao longo do tempo (OTA). A integração com o ecossistema Google abre ainda portas a novas funcionalidades baseadas em inteligência artificial, aproximando o automóvel de um verdadeiro assistente digital.
Artigo por Rui Reis
