
O vinho não é só o sumo de uva fermentado, sim, mas também um conjunto de factores humanos e naturais, como seja o clima , as características do solo, a configuração do terreno onde estão plantadas as videiras, a sua altitude em relação ao nível do mar, do seu tratamento, do modo como é feita a colheita e do tratamento na adega, como é óbvio.
Esta introdução vem a propósito da recente actualização dos “terroirs” na Região Tejo, que passou dos três anteriores, Bairro, Campo e Charneca para quatro com o acrescento de Serras, a mais pequena das regiões, neste caso desmembrada, na sua grande maioria, da maior região, o Bairro.
De um total de 12.479 hectares, apenas 375 hectares formam a nova Serra, dispersa nos concelhos de Ferreira do Zêzere, Tomar, Vila Nova da Barquinha, Constância, Abrantes, Sardoal e Mação. No que toca a castas, predominam as Vinhas Velhas, cujo conceito está intimamente relacionado com a plantação de uvas com recurso a mistura de castas ou field blend (20,1%) – havendo mesmo brancas e tintas no mesmo talhão. Nas brancas, forte predominância de Fernão Pires, com 19,3%, seguida de Arinto, apenas com 2,5%. Nas tintas, é também a casta rainha do Tejo que se destaca, com 13,5% de Castelão, mais perto da percentagem da Touriga Nacional (10,1%), como segunda variedade. A Trincadeira (Preta) ocupa a terceira posição, com 3,7%.
Com impacto determinante nos vinhos, o “terroir” Serras aporta elegância e mineralidade; boa estrutura e acidez natural; e, por conseguinte, boa capacidade de envelhecimento.
A Região Vitivinícola do Tejo está localizada no Centro de Portugal, a uma curta distância de Lisboa, a capital. A região é cortada a meio pelo rio que lhe dá nome. Largo e imponente, o Tejo é um dos maiores rios de Portugal. Este território vitivinícola tem uma área global de cerca de 7.000 km2, e abrange 21 municípios, um no distrito de Lisboa e os restantes de Santarém. O rio Tejo é o elemento central e dita que a amplitude térmica seja elevada, com dias bastante quentes e noites frescas e húmidas, diminuindo desta forma o stress hídrico das plantas (videiras) e assegurando uma correta maturação das uvas. Um famoso crítico inglês resumiu numa só frase o impacto destas características edafoclimáticas nos Vinhos do Tejo: «hot days, cold nights, cool wines».
O rio Tejo é o elemento central e imprime uma profunda influência na caracterização da região, providenciando-lhe distintos terroirs. Um estudo de solos da região, terminado em 2025, levou à necessidade de identificação deste novo terroir que aqui apresentamos – o mais antigo em termos de vinhas, mas o mais atual em termos de delimitação e nomenclatura – a somar ao trio já existente. O Bairro (5.076 hectares; 93 de altitude média; 1984 como ano médio de plantação das vinhas) situa-se entre o Vale do Tejo e os contrafortes dos maciços de Porto de Mós, Candeeiros e Montejunto, com solos argilo-calcários e alguns xistosos. O Campo (3.113 hectares; 9 de altitude média; 2004 como ano médio de plantação das vinhas), situado nas extensas planícies adjacentes ao rio Tejo, sujeitas a inundações periódicas (zonas de aluvião), responsáveis pelo elevado índice de fertilidade dos solos e torna esta uma zona de excelência para a produção de vinhos brancos. A fertilidade natural deste terroir obriga a uma viticultura de maior precisão. E o terroir Charneca (3.915 hectares; 53 de altitude média; 1984 como ano médio de plantação das vinhas), localizado a sul do campo, na margem esquerda do rio Tejo, com solos arenosos e medianamente férteis ou mais pobres e com potencialidades tanto para a produção de vinhos tintos, como brancos.
A Comissão Vitivinícola Regional do Tejo baptizou este novo terroir como Serras, precisamente por ser feito de zonas serranas – mas com presença de vinha em encostas e planaltos –, com maior altitude (232 metros de cota média), o que influencia de forma direta o clima, caraterizado por amplitudes térmicas diárias e temperaturas mais moderadas. Um clima mais fresco e húmido, cuja precipitação anual é acima dos 800mm e pode chegar aos 2000mm – sendo a média da região na ordem dos 750mm –, tem impacto na maturação das uvas, mais lenta, e, por conseguinte, na preservação da acidez nas mesmas.
Os solos são predominantemente pedregosos, com presença de xisto e granito, bem drenados e pobres. Com condições naturais mais exigentes, as videiras tornam-se mais resilientes, com raízes mais profundas, crescimento mais equilibrado e menor fertilidade – produções moderadas ou baixas, tendo em conta a média da região.
Destaque ainda para serem zonas de existência de vinhas mais antigas, sendo 1978 o ano médio de plantação das mesmas, o que aponta para vinhas com quase 50 anos – 40 é o valor mínimo para serem consideraras Vinhas Velhas na região do Douro, a única que tem legislada esta idade e menção.
De referir que o Ribatejo está memorialmente ligado à produção de vinhos. Na Região Vitivinícola do Tejo (outrora Ribatejo), a arte de produzir vinho remonta a 2000 a.C., quando os Tartessos iniciaram a plantação da vinha junto às margens do rio Tejo. Reza a história que já Afonso Henriques fez referência aos vinhos da região no Foral de Santarém, datado de 1170, e que o Cartaxo terá exportado 500 navios com tonéis de vinho que, em apenas um ano, terão atingido o valor de 12.000 reis. As estórias continuam pela cronologia fora, com o ano de 1765 a destacar-se pelo desaparecimento da vinha nos campos do Tejo, como consequência de uma ordem imposta por Marquês de Pombal. A região dos Vinhos do Tejo possui excelentes condições naturais para o cultivo da vinha e para a produção de vinhos, onde a frescura dada pela natureza é evidente. Esta frescura, associada a uma graduação alcoólica moderada, dá origem a vinhos equilibrados e frescos, com aromas frutados, que podem ser apreciados em todas as ocasiões. Uma jovem geração de viticultores e enólogos, que sabe aliar os conhecimentos adquiridos nas universidades à tradição das gerações que os precederam, cria vinhos consistentes e de grande qualidade, com estilos empolgantes e diferenciados. Nos brancos, o perfil traduz-se em vinhos muito aromáticos, com a presença de fruta tropical e citrina, também frescos e elegantes. Os vinhos tintos são equilibrados e frescos; no nariz, a fruta é uma presença garantida. Nos tintos de guarda, nota-se alguma presença de madeira. A região produz também vinhos rosés, espumantes, frisantes, vinhos licorosos e colheitas tardias, num espectro que permite degustar Vinhos do Tejo nos mais variados momentos. Com selo de garantia de qualidade atribuído pela Comissão Vitivinícola Regional do Tejo, como DOC do Tejo ou IG Tejo, esta região tem alguns dos mais vibrantes e acessíveis vinhos a emergir em Portugal, oferecendo uma gama diversificada de estilos que apelam a uma variedade de gostos e orçamentos. Constituída por um património muito rico, a região dos Vinhos do Tejo reúne um conjunto de tesouros históricos que vale a pena visitar e que retratam tempos idos, desde as ruínas romanas aos castelos góticos e dos mosteiros manuelinos aos vilarejos medievais. Para os portugueses, esta região é conhecida como terra de vinhas, de olivais, de sobreiros e dos famosos cavalos lusitanos, mas também pela sua rica e saborosa gastronomia e pelas belas paisagens feitas de verde e de água.
Na apresentação oficial deste novo território foram dados a provar cinco vinhos Serra de vários concelhos. Aqui fica o registo das notas de prova.
Vila Jardim Reserva 2022 (Quinta do Vale do Arno), concelho do Sardoal
Aroma delicado com notas tropicais,cravo e sugestões de fumo. Cremoso, redondo, com um final fresco, suave embora não muito longo. Perfeito com pratos de peixe, frutos do mar e carne branca.
13% de teor alcoólico, PvP 17€.
Encosta do Sobral Grande Reserva Vinhas Velhas Fernão Pires 2023 (zona de Tomar, nas proximidades da Barragem do Castelo do Bode)
Boa acidez natural que permite antever uma boa longevidade. Na boca é um vinho amplo, untuoso e com final longo e persistente. Acompanha bem pratos de peixe assado no forno e queijos curados. Servir à temperatura de 12-14ºC.
13,5% de teor alcoólico, PvP 34€.
Pedro Sereno Vinhas Velhas Branco 2021 (Serra de Tomar)
Castas Fernão Pires, Bical e Malvasia Fina plantadas em vinhas entre os 63 e os 92 anos, em solo de xisto. Aroma com notas florais. Na boca mostra boa acidez.
13% de teor alcoólico, PvP 25€.
Herdade dos Templários Rosé 2025 (Valdonas, Tomar)
Uvas da Casta Merlot. Cor muito aberta, como se veem nos Rosé Cote du Rhone. Aroma com notas de frutos silvestres e sugestões de rosas. Na boca é elegante e tem bom volume, apresenta muita frescura. Bom final persistente e harmonioso. Acompanha bem saladas, cozinha oriental ou massas.
13% de teor alcoólico, PvP 9€.
Casal das Freiras Castelão Tinto 2022 (Arredores de Tomar)
Aroma com notas de fruta vermelha, como morangos e framboesas, e sugestões de especiarias associadas ao estágio em madeira. É um vinho leve, fresco, elegante, de cor bastante aberta, com bom equilíbrio de acidez e taninos suaves. Final requintado e prolongado.
11,5% de teor alcoólico, PvP 18€.
Dona Florinda Reserva Especial Tinto 2018 (Região do Sardoal)
Um blend das castas Syrah, Petit Verdot, Touriga Nacional, Alicante Bouschet, estagiado 14 meses em barricas de carvalho francês e americano.
Cor granada intensa, com aromas frutos vermelhos e chocolate negro. Acompanha bem assados de carne e pratos de caça.
14% de teor alcoólico, PvP 22€.
