
Temperaturas acima dos 40 °C, noites tropicais e alertas vermelhos em vários países confirmam: a vaga de calor que atingiu a Europa é um sinal claro da crise climática. Mesmo que agora esteja mais fresco.
As temperaturas da atmosfera diminuíram bastante agora e, nalgumas zonas do país, até chove. Este facto pode fazer-nos esquecer do insuportável calor que nos atingiu bem recentemente e, nessa medida, levar-nos a desvalorizar um pouco as mudanças climáticas que estão a ocorrer e que levam a que estes picos de calor sejam mais frequentes.
A vaga de calor que se tem feito sentir no sul da Europa foi, por isso, apenas mais um alerta — entre muitos — de que o clima está a mudar mais depressa do que as sociedades conseguem adaptar-se. O que há poucos anos era considerado excecional tornou-se agora um padrão preocupante.
Apesar dos termómetros terem agora baixado, Portugal, Espanha, Itália, Grécia, França e vários países dos Balcãs têm enfrentado dias e noites abrasadores, com temperaturas a ultrapassarem os 40 °C e, em muitos casos, a não baixarem dos 30 °C durante a noite. Em Portugal, Mora (Évora) registou 46,6 °C, um valor próximo do recorde absoluto nacional. Espanha pode ter batido o seu próprio recorde com 46 °C na Andaluzia. Em Milão, o calor extremo prolongou-se por cinco dias consecutivos, algo sem precedentes. A situação levou ao encerramento de escolas, emissão de alertas de saúde pública e reforço dos meios de emergência.
Mais do que uma sequência de números extremos, este cenário é a expressão física da crise climática. A presença de um anticiclone vindo do norte de África, carregando uma massa de ar quente e seco de origem sahariana, reforçou a persistência das temperaturas elevadas. Segundo a AEMET, a agência meteorológica espanhola, estes valores são “anormalmente elevados” e representam um risco real para a saúde humana.
O Boletim Climatológico do mês de junho de 2025 para Portugal Continental publicado pelo IPMA revela que o mês de junho de 2025 classificou-se como muito quente e muito seco em Portugal Continental.
Em termos de temperatura do ar em Portugal Continental, junho foi o 3º junho mais quente desde 1931, com uma média de temperatura média do ar, + 2.14 °C acima do valor normal (1991-2020);
O valor médio de temperatura máxima e mínima do ar também foram superiores à normal, +2.87 °C e +1.40 °C respetivamente;
Verificou-se um novo extremo absoluto da temperatura máxima no mês de junho para Portugal Continental: 46.6 °C em Mora no dia 29;
34% das estações ultrapassaram ou igualaram os anteriores extremos da temperatura máxima do ar para junho;
Ocorreram duas ondas de calor, a primeira a meio do mês e a segunda no final do mês.
No tocante à precipitação, junho foi o 4º junho mais seco desde 1931 com um total de precipitação muito inferior à normal 1991-2020, cerca de 20 % do valor médio; houve ainda seca meteorológica fraca na região noroeste do território e no sotavento Algarvio.
As consequências acumulam-se: aumento de casos de insolação nos hospitais italianos, populações vulneráveis em maior risco, infraestruturas sob pressão, praias interditadas por gases tóxicos libertados por algas em decomposição. Os incêndios florestais, alimentados pelas temperaturas extremas e pela seca, regressaram com força — como já se viu na Grécia.
O mar também aquece. No Mediterrâneo, as temperaturas da água ultrapassaram os 26 °C nas Ilhas Baleares — valores normalmente registados apenas em meados de agosto. Este aquecimento afeta a biodiversidade marinha e acelera fenómenos como a acidificação dos oceanos, que põem em causa todo o ecossistema.
Para a ciência, não há dúvidas: estas vagas de calor são cada vez mais frequentes, intensas e duradouras devido ao aquecimento global provocado pela atividade humana. O IPCC, painel intergovernamental da ONU para as alterações climáticas, considera “quase certo” que esta tendência vai agravar-se nas próximas décadas, a menos que haja uma redução drástica das emissões de gases com efeito de estufa.
O verão de 2025 reforça assim a evidência de que o tempo mudou — e com ele, a nossa forma de viver terá de mudar também. Adaptar edifícios, redes de saúde, padrões agrícolas e sistemas energéticos às novas condições climáticas deixou de ser opção: é urgência.
Perante esta nova normalidade, manter o status quo é o verdadeiro risco. Porque, como mostram os termómetros por toda a Europa, o calor extremo já não é apenas um fenómeno meteorológico. É um aviso político. E está a bater à porta.
