
A desertificação já afeta vastas áreas de Portugal e tende a agravar-se com as alterações climáticas. Apesar de ser frequentemente associada ao avanço do deserto, trata-se de um fenómeno mais complexo, ligado à degradação dos solos, à escassez de água e à perda de biodiversidade, com impactos diretos na economia e na qualidade de vida.
A desertificação é um dos maiores desafios ambientais que Portugal enfrenta, mas continua longe de ocupar o centro do debate público. Ao contrário do que o termo pode sugerir, não significa que o país esteja a transformar-se num deserto semelhante ao Saara. O fenómeno refere-se à degradação progressiva dos solos em regiões secas ou vulneráveis, reduzindo a sua capacidade de sustentar atividades agrícolas, armazenar água e manter ecossistemas saudáveis.
As consequências fazem-se sentir sobretudo nas regiões do interior e do sul do país, onde as secas prolongadas, as ondas de calor e a erosão do solo se tornaram mais frequentes. A degradação da terra reduz a produtividade agrícola, aumenta o risco de incêndios e dificulta a retenção de água no território, criando um ciclo que se alimenta a si próprio.
Segundo a associação ambiental ZERO, o combate à desertificação deve ser encarado como uma prioridade nacional e estar diretamente ligado às políticas climáticas e de ordenamento do território. A organização defende que a proteção dos solos, da água e da biodiversidade precisa de assumir um papel central nas decisões públicas.
Um dos aspetos menos conhecidos desta realidade está relacionado com as pastagens. Embora raramente sejam associadas ao combate às alterações climáticas, desempenham um papel importante na conservação dos solos, na regulação dos ciclos da água e no armazenamento de carbono. De acordo com a ZERO, quase um quinto do território continental português é ocupado por pastagens, enquanto estas representam mais de metade da superfície agrícola utilizada.
A forma como estas áreas são geridas pode fazer uma diferença significativa. O sobrepastoreio, provocado por uma carga excessiva de animais, contribui para a compactação dos solos e para a destruição da cobertura vegetal, aumentando a erosão. Em sentido contrário, uma gestão sustentável das pastagens pode ajudar a restaurar a fertilidade do solo, melhorar a infiltração de água e reforçar a capacidade de captura de dióxido de carbono.
A associação alerta também para a conversão de algumas destas áreas para outros usos do solo, incluindo projetos de infraestruturas. Segundo dados citados pela ZERO, as zonas artificializadas destinadas à produção de energia solar cresceram cerca de três mil hectares entre 2018 e 2023.
O problema da desertificação está intimamente ligado às alterações climáticas. As secas mais frequentes, as temperaturas elevadas e os fenómenos meteorológicos extremos aceleram a degradação das terras. Ao mesmo tempo, solos degradados armazenam menos água e menos carbono, reduzindo a sua capacidade de mitigar os efeitos do aquecimento global.
Este ciclo cria desafios que vão além das questões ambientais. A perda de produtividade agrícola afeta economias locais, aumenta a pressão sobre recursos hídricos já escassos e contribui para o abandono de territórios rurais. Em algumas regiões, a desertificação surge associada a problemas demográficos, como o envelhecimento da população e a redução da atividade económica.
Para a ZERO, Portugal precisa de reforçar a articulação entre as políticas agrícolas, climáticas e de ordenamento do território, aproveitando a revisão do Programa de Ação Nacional de Combate à Desertificação para definir medidas concretas de proteção e recuperação dos solos.
Embora os efeitos sejam mais visíveis em determinadas regiões, a desertificação não é um problema distante nem exclusivo do interior do país. Trata-se de uma questão que influencia a disponibilidade de água, a produção alimentar, a conservação da natureza e a capacidade de adaptação às alterações climáticas, tornando-se um dos temas ambientais mais relevantes para o futuro de Portugal.
