
A ZERO, a Oikos e a Fundação Fé e Cooperação estiveram na COP30 e afirmam que a cimeira terminou sem o avanço essencial, deixando o planeta numa rota de 2,5 graus e revelando falhas profundas na forma como o mundo encara a crise climática.
A conferência do clima de Belém (Brasil) terminou com um acordo final, mas a leitura de três organizações portuguesas presentes na COP30 é clara: desilusão.
Para Francisco Ferreira, presidente da ZERO, a reconfirmação da transição justa como um princípio central e baseado em direitos marca um progresso real, talvez o mais forte alguma vez inscrito num texto destas negociações. No entanto, esse avanço convive com aquilo que descreve como um enorme vazio político. A falta de compromisso com a adaptação, a perda de metas de financiamento e o silêncio sobre combustíveis fósseis anulam o potencial transformador do documento. O resultado é uma trajetória de 2,5 graus, algo que deixa de ser uma projeção abstrata para se tornar um cenário concreto com impactos reais nas próximas décadas: “A transição justa representa uma vitória histórica, com a linguagem baseada em direitos mais ambiciosa alguma vez alcançada num texto da COP. No entanto, este avanço convive com uma ambição enfraquecida em matéria de adaptação, a perda de compromissos financeiros e um preocupante silêncio sobre os combustíveis fósseis. Estas lacunas deixam-nos numa trajetória de 2,5°C, sublinhando o quanto precisamos de lutar para defender progressos reais contra aqueles determinados a atrasá-los”.
Por seu lado, José Luís Monteiro, da Oikos, acrescenta que esta era a reunião que prometia ser a conferência da verdade e da implementação, a que colocaria a ação acima da retórica. Em vez disso, afirma que a COP30 acabou por repetir o padrão de anos anteriores, mais marcada por impasses e justificações do que por decisões operacionais: “Esta COP prometia muito. Era para ser a ‘COP da implementação’, a ‘COP da Verdade’, mas, infelizmente, acaba por ser só mais uma COP. Com mais impasses que progressos e com mais desculpas do que verdades. No fundo é só mais uma oportunidade desperdiçada.”
Para os ecologistas, quando uma COP falha no essencial, desperdiça tempo e possibilidades reais de travar emissões, proteger comunidades vulneráveis e reduzir riscos que já se sentem em várias regiões do mundo.
Catarina António, da Fundação Fé e Cooperação, tem a mesma ideia: a conferência era vista como uma oportunidade para escolher em conjunto o tipo de futuro que se pretende construir, mas o acordo final mostra que essa escolha foi novamente adiada: “Apesar de toda a esperança depositada nesta COP, que se acreditava ser uma oportunidade para escolhermos coletivamente o futuro em que queremos viver, o acordo final mostra que se desperdiçou mais um momento fulcral para transformar os objetivos globais em resultados tangíveis”
Esta leitura traduz a sensação com que muitas outras pessoas ficaram desta COP30: de que negociar objetivos sem concretizar medidas deixa milhares de pessoas sem respostas adequadas para enfrentar fenómenos que já são visíveis. E perante a crise climática crescente, o mundo continua a debater-se com a distância entre o que precisa de fazer e o que efetivamente decide.
