
A falta de combustíveis alastra a todo o território da Rússia, o que provoca “ideias inovadoras” nos políticos e nos “reis” do mercado negro. Quanto às causas desse problema, a culpa só pode ser dos outros e nunca dos russos. A tradição soviética continua bem viva.
Os ataques de drones ucranianos a refinarias russas estão a provocar sérios prejuízos económicos, políticos e sociais nas terras do ditador Putin.
A crise começou com a tentativa das tropas ucranianas de isolar a Crimeia, território da Ucrânia ilicitamente ocupado pelas hordas putinistas em 2014. Com o emprego de drones, os ucranianos destruíram não só alvos energéticos, mas criaram também sérias dificuldades à logística russa de abastecimento de combustíveis.
Além disso, os militares ucranianos lançaram ataques bem sucedidos com drones a refinarias russas estratégicas situadas a muitos centenas de quilómetros da fronteira russo-ucraniana, fazendo alargar a crise praticamente a todo o país. Inicialmente, as autoridades racionaram as vendas (20 litros por automóvel), mas isso não resolveu à crise. Pelo contrário, a procura de combustível começou a provocar longas filas junto às bombas de abastecimento e, em muitos lugares, à falta de combustível.
Os trabalhadores do mercado negro puseram “as mãos à obra”. Em Krasnodar, comprar um lugar na fila para abastecimento custa entre 3 e 5 mil rublos (30 a 50 euros) e, nas redes sociais, apareceram links para venda de gasolina a 200 e 300 rublos (2 a 3 euros) por litro. Isto é bem mais para quem pagava 25 cêntimos por litro antes da crise.
A falta de gasolina não só afecta a vida dos automobilistas, mas também os agricultores e produtores de leite, que estão com dificuldades para fazer as colheitas e fornecer produtos alimentares aos consumidores.
A culpa não é de Putin!
Não obstante as evidências, as autoridades russas recusam-se a aceitar que se trata de uma crise e atiraram as culpas para a “agiotagem” da população.
Dmitri Peskov, Secretário de Imprensa do Presidente da Federação Russa (em resposta a uma pergunta sobre a forma como as autoridades estão a combater a escassez de gasolina), declarou: “Alexander Novak [vice-primeiro ministro que responde pelos fornecimentos de combustíveis], na verdade, está a lidar pessoalmente com estas questões praticamente todos os dias. Um conjunto de medidas para estabilizar o mercado dos combustíveis é discutido tanto nas reuniões presidenciais como nas reuniões diárias de Novak”.
Mas Novak não reconhece sequer a existência da crise: “Atualmente, estamos a enfrentar escassez e interrupções isoladas em postos de abastecimento de combustível específicos no mercado interno […]. Estes problemas são resolvidos rapidamente. No geral, o nosso mercado interno está bem abastecido tanto com gasolina como com gasóleo”.
Neste situação, os russos poderiam pensar nas verdadeiras causas da crise energética. Para a maioria, trata-se da guerra contra a Ucrânia, mas recusa-se a reconhecer que o conflito foi desencadeado pelo ditador que governa a Rússia e nega-se a aceitar que o conflito com o “povo irmão” irá ter consequências pesadas para os dois países.
Por isso, alguns influenciadores vêm para as redes sociais afirmar que, tal como o Kremlin faz, a culpa é do chamado Ocidente, é de todos menos de Putin e deles. Até surgem suposições de que tudo não passa de “intrigas e de tentativas dos marcianos” a fim de desestabilizar a Rússia.
E também alguns políticos russos apresentam causas estapafúrdias. No mesa redonda realizada na Duma Estatal, câmara baixa do parlamento, sobre o tema dos combustíveis, Leonid Slutzky, dirigente do Partido Liberal Democrático (pró-Kremlin), afirmou que a culpa da crise se deve às mulheres: “É preciso proibir a venda de gasolina às mulheres, porque, devido à ausência natural de hábitos de condução, consomem duas vezes mais gasolina do que os homens”. Por isso, ele propõe que “as mulheres que receberam carta de condução nos últimos 25 anos sejam obrigadas a fazer um novo exame de condução”.
Mas, a bem da verdade, deve reconhecer-se que surgem algumas vozes sensatas na situação trágico-cómica em que a Rússia vive.
Nina Ostanina, responsável pelo Comité de Protecção da Família da Duma Estatal, acusou o governo de não revelar toda a verdade aos cidadãos sobre a situação na indústria de refinação de petróleo. Segundo os seus dados, aproximadamente 30% da capacidade de refinação está fora de serviço.
“Porque é que o vice-primeiro-ministro responsável não admite honestamente que quase um terço das refinarias está fora de serviço, e porque é que ele, nem outros vice-primeiros-ministros e ministros relevantes, estão a planear a implementação de medidas de emergência a este respeito?”, questionou.
A deputada observou que esta ocultação de problemas e a relutância em resolvê-los são perigosas, sobretudo nas vésperas da colheita. “Afinal, o país pode ficar sem cereais, o que, considerando as sanções internacionais, equivale à morte”, frisou Ostanina.
Mensagens destas não conseguem penetrar na bolha em que vive o ditador Putin.
E os combates intensificam-se
Entretanto, a Rússia voltou a lançar fortes ataques, com drones, bombas e mísseis, contra Kyiv e outras cidades ucranianas a fim de quebrar a resistência ucraniana, mas Volodomyr Zelensky não só promete, mas também realiza operações de resposta, atingindo alvos estratégicos importantes na Rússia. Os ataques a Moscovo e arredores visam despertar os moscovitas para a necessidade de se pôr fim a esta monstruosa carnificina, que já provocou mais de dois milhões de soldados mortos e feridos.
José Milhazes, historiador e jornalista
