
Portugal poderá falhar as metas climáticas de 2030 e um dos principais motivos continua a estar na forma como as pessoas se deslocam diariamente. Os transportes já representam mais de um terço das emissões nacionais e o consumo de combustíveis voltou a aumentar em 2025.
Portugal continua a reduzir emissões de gases com efeito de estufa, mas a um ritmo insuficiente para cumprir os objetivos climáticos definidos para o final da década. O alerta é da associação ambientalista Zero, que aponta os transportes como o principal obstáculo à transição energética do país.
Os dados oficiais da Agência para o Clima mostram que Portugal emitiu 51,5 milhões de toneladas de dióxido de carbono equivalente em 2024, menos 3% do que no ano anterior. Embora exista uma redução acumulada significativa desde 2005, a Zero considera que a descida continua demasiado dependente de circunstâncias temporárias, como a maior produção de eletricidade renovável devido à chuva.
O setor dos transportes concentra atualmente 35,2% das emissões nacionais, tornando-se o maior responsável pela pegada carbónica do país.
Na prática, isso significa que a forma como as pessoas se deslocam diariamente continua a ter um peso decisivo nas metas climáticas portuguesas. O crescimento do parque automóvel, a dependência do carro particular e a falta de alternativas robustas de transporte coletivo continuam a pressionar as emissões.
Segundo a Zero, os sinais mais recentes mostram até uma inversão da tendência. Em 2025, o consumo de combustíveis rodoviários voltou a subir cerca de 0,9%, enquanto o primeiro trimestre do ano registou um aumento de 2,5% face ao período homólogo.
A associação considera que a ausência de mudanças estruturais na mobilidade está a atrasar a descarbonização do país e a aumentar vulnerabilidades económicas e ambientais.
Para cumprir as metas do Plano Nacional de Energia e Clima, Portugal terá de reduzir as emissões em cerca de 25% até 2030 face aos níveis atuais. Isso obriga a cortes anuais muito superiores aos registados na última década.
A eletrificação automóvel surge como uma das soluções centrais, mas os especialistas alertam que a mudança não depende apenas da substituição de motores a combustão por baterias. O reforço do transporte público, a aposta na ferrovia e a criação de novas soluções de mobilidade urbana serão igualmente decisivos.
A Zero chama a atenção também para os impactos diretos na saúde pública associados ao atual modelo de mobilidade, nomeadamente através da poluição atmosférica causada pelos transportes rodoviários.
Ao mesmo tempo, o relatório mostra que outros setores, como a indústria, têm vindo a reduzir gradualmente o peso das emissões, enquanto áreas como os resíduos ou os gases fluorados continuam a apresentar dificuldades na transição.
Para a associação ambientalista, os próximos anos serão determinantes para perceber se Portugal consegue transformar estruturalmente os setores mais poluentes ou se continuará dependente de reduções pontuais associadas a fatores externos.
