
Esta frase, escrita num das muitas dezenas de drones ucranianos que atacaram Moscovo e arredores nas primeiras horas da manhã de Domingo, está a fazer com que os civis russos tenham de confrontar-se com o medo e horror a que estão sujeitos os habitantes da Ucrânia durante quase cinco anos.
O Kremlin tenta desdramatizar a situação e tenta proibir a publicação de vídeos que revelam as reacções dos habitantes da capital russa e arredores, mas estão bem presentes nas fotos e vídeos que chegam até nós através da Internet. Eles pronunciam frases que retratam o que vai nas suas cabeças: “Ninguém se preocupa connosco!”. Na maioria dos casos, os comentários resumem-se a calão do mais pesado, impossível de se reproduzir aqui.
Os drones ucranianos provocam também o caos nos transportes aéreas. Apenas num dia, as autoridades russas viram-se na necessidade de suspender mais de 200 voos em apenas um aeroporto da capital: Sheremetevo. Outros aeroportos de regiões da parte ocidental da Rússia sentiram o mesmo problema.
Se, antes, a guerra estava longe de Moscovo e dos grandes centros habitacionais russos, hoje, os drones ucranianos atingem e provocam graves estragos a mais de mil e quinhentos quilómetros da fronteira da Ucrânia. Os habitantes da Rússia começaram a sentir-se cada vez menos defendidos e protegidos, o que pode fazer aumentar o descontentamento e os protestos entre eles face à política imperialista de Putin e do seu gangue.
Porém, é de salientar que estas medidas ousadas da Ucrânia provocam reacções diferentes e até contrárias na sociedade russa. Blogueres e sectores sociais nacionalistas exigem que o ditador Putin recorra aos meios militares mais drásticos, incluindo o emprego de armas nucleares, para pôr fim à resistência dos ucranianos.
Nesta situação política e social cada vez mais complexa, Putin tenta manobrar entre as várias tendências, o que leva alguns analistas a concluir que a ditadura revela sinais de fraqueza.
Próxima vítima do imperialismo russo
Porém, face à fraqueza dos países europeus e à política traiçoeira e vil de Donald Trump, Putin tenta fugir para a frente na sua política externa ao ameaçar países vizinhos. Desta vez, estamos a falar da Moldávia (Moldova).
Na sexta-feira passada, o ditador assinou um decreto que facilita aos habitantes da Transdnístria, região separatista da Moldávia, a obtenção de nacionalidade da Federação Rússia.
Maya Sandu, Presidente moldava, considera que, desse modo, Putin tenta obter mais “carne para canhão”: “Provavelmente, ele precisa de mais pessoas para mandar para a guerra contra a Ucrânia”.
Mas essa decisão tem outros objectivos mais globais, assemelhando-se à política do ditador em relação à Ucrânia. Putin andou a distribuir passaportes russos nas regiões separatistas ucranianas para depois, a pretexto de defender os direitos dos russos “violados pelo regime nazi de Kiev”, invadir o país vizinho. Este cenário pode ser repetido não só na Moldávia, como também noutros países estrangeiros.
A Transdenístria poderá também ser “moeda de troca” no caso da Moldávia insistir aderir à União Europeia ou juntar-se à Roménia.
Se dúvidas havia sobre as intenções de Putin no plano externo, elas ficam esclarecidas com a lei por ele promulgada que lhe permite recorrer às forças armadas russas na “defesa de cidadãos russos” no estrangeiro.
A propaganda do Kremlin motiva o aparecimento dessa lei com duas razões. A primeira prende-se com a detenção de Alexander Butyaguin, arqueólogo do Museu Hermitage, na Polónia a pedido da Ucrânia. Kiev alegava que ele tinha realizado escavações ilegais na Crimeia, território ucraniano ocupado pela Rússia, que resultaram em danos ao património cultural. O cientista passou quatro meses na prisão aguardando extradição, mas, em Abril, as autoridades polacas trocaram-no por cidadãos seus, detidos na Bielorrússia sob a acusação de espionagem, e por moldavos, presos na Rússia pelos mesmos motivos.
A segunda razão é que a França, a Suécia, a Finlândia e Estónia começaram a deter navios da “frota fantasma russa”, que Moscovo diz tratar-se de pirataria pura e simples. Por isso, o Kremlin considera-se agora no direito de “libertá-los” em qualquer lugar do mundo.
Segundo a Ria-Novosti, agência de notícias controlada pelo Kremlin, tratou-se de um sinal claro para os políticos europeus que não poderão mais deter cidadãos e navios russos impunemente.
“É claro que a Rússia não bombardeará Varsóvia ou Helsínquia imediatamente por causa da detenção de um turista, mas a mera possibilidade de tal cenário fará com que os países ocidentais pensem duas vezes antes de deter os nossos cidadãos. Assim como as armas nucleares dissuadem uma invasão declarada, as leis podem ser uma arma, e a Rússia já começou a usá-la”, lê-se na Ria-Novosti.
José Milhazes, historiador e jornalista
