As ameaças nucleares vindas da Rússia sobem de tom em direcção aos países europeus num momento em que se agravam as relações entre estes e os Estados Unidos. Os insultos também baixam de nível.
Esta semana ficou marcada pelo endurecimento do discurso de propagandistas e dirigentes russos, incluindo ameaças do emprego de armas nucleares. Qualquer medida preventiva europeia para responder a essas ameaças é recebida, segundo a narrativa propagandística, como uma preparação para “invadir a Rússia”.
O governo finlandês apresentou ao parlamento um projecto-lei que permitirá o fornecimento e a importação de armas nucleares para o país, bem como o seu armazenamento no seu território. As autoridades finlandesas acreditam que tal é necessário no contexto da defesa nacional e da defesa colectiva da NATO.
Moscovo já declarou repetidamente que a instalação de armas nucleares no território de um Estado vizinho seria considerada uma ameaça directa. O Kremlin não tenciona reconhecer que a decisão de Helsínquia se deveu à invasão da Ucrânia pelas tropas russas. Os finlandeses proclamaram a sua neutralidade em 1987, mas decidiu aderir à NATO em 2022.
O politólogo russo Sergei Karaganov, próximo do Kremlin, afirmou que a Rússia deve estar preparada para utilizar armas nucleares contra a Europa.
Numa entrevista à televisão estatal russa, declarou que “a Europa desencadeou uma guerra contra a Rússia” ao apoiar a Ucrânia na produção de armas e noutras áreas.
“Os Estados Unidos iniciaram esta guerra, arrastando a Europa para ela. E agora os americanos, percebendo que não serão capazes de nos derrubar e também percebendo que uma escalada para o nível nuclear, mesmo em solo americano, é provável e possível, começaram a recuar. Os europeus estão a fomentar uma histeria militar para desviar a atenção dos seus próprios problemas, mas, na realidade, estão a preparar-se para a guerra. E isto deve ser levado a sério”, declarou Karaganov.
Este politólogo afirma que a Rússia precisa de mudar a sua doutrina militar relativamente à possibilidade de um ataque nuclear contra um adversário mais poderoso.
“O que deve ser feito na Europa? Os Estados Unidos precisam de ser contidos e afastados desta situação. A Europa precisa finalmente de compreender que será destruída se a agressão continuar. E quanto mais cedo compreender, menos pessoas morrerão. Portanto, o presidente precisa de nomear um comandante-chefe para o teatro de operações militares com autoridade para usar qualquer tipo de arma, e até mesmo a obrigação de usá-la, e incluir na doutrina militar uma disposição que declare que, se uma guerra for desencadeada contra nós, e ela já foi, por um adversário superior a nós em indicadores demográficos e económicos, somos obrigados a utilizar armas nucleares”, acrescentou Karaganov.
Ele propõe atacar primeiro “alvos simbólicos ou centros de comunicação” com munições convencionais. “Se não pararem, teremos de passar para um nível superior. Em breve, poderemos apresentar-lhes (aos europeus – J.M.) um ultimato se continuarem a comportar-se desta forma”, declarou Karaganov.
Estas ameaças à Europa visam, ao mesmo tempo, convencer os europeus de que o facto da NATO ter forte vantagem no campo das armas convencionais podem ser derrotados se a Rússia recorrer a armas nucleares. Tanto mais se os Estados Unidos não vierem em ajuda dos habitantes do Velho Continente.
E o Washington vai dando sinais de querer ver o regresso de Putin ao palco internacional, fazendo, ao mesmo tempo, sérias ameaças aos restantes aliados da Aliança Atlântica. Na quinta-feira, Trump convidou o seu homólogo russo para a Cimeira da G-20, que será realizada em Miami no próximo mês de Dezembro.
Declarações rascas
No seu programa “Full Contact”, o jornalista e apresentador de TV russo Vladimir Solovyov falou em italiano e usou declarações ofensivas, em particular, ele, num tom histérico, gritou em italiano e russo insultos na direcção de Giorgia Meloni, primeira-ministra de Itália: “Idiota assumida, uma mulherzinha perversa, uma vergonha para a raça humana, Giorgia “prostituta” Meloni […]”
O apresentador de TV também acusou Meloni de “traição”, dizendo que ela supostamente abandonou as suas posições políticas anteriores e “traiu” o presidente americano Donald Trump, a quem, segundo ele, ela já havia mostrado apoio.
“Pela sua natureza, o esforçado propagandista do regime não pode dar lições de coerência, nem de liberdade. Estas caricaturas, claro está, não mudam os nossos métodos. Nós, ao contrário de outros, não temos quaisquer condições, donos e não recebemos ordens”.
O Ministério dos Negócios Estrangeiros da Itália chamou o embaixador russo para pedir explicações, tendo este último defendido o propagandista: “mais uma vez, os diplomatas “atiraram a bola à trave” ao chamarem-me ao MNE de Itália para avançarem com pretensões devido aos alegados ataques de Moscovo a Giorgia Meloni”.
Brandos costumes
Portugal, ao contrário de Itália, decidiu não responder às graves ameaças feitas por Moscovo. A embaixada putinista em Lisboa publicou o seguinte comunicado: “ A 19 de abril, no decorrer da visita a França, o Ministro da Defesa Nacional de Portugal, Nuno Melo, deixou bem claro que o aviso de Moscovo sobre uma eventual escalada devido ao fornecimento de drones europeus à Ucrânia alegadamente não se aplica ao seu país. Garantimos que não é assim.
Lisboa assume toda a responsabilidade pela política antirussa da UE. As empresas portuguesas “Tekever” e “Beyond Vision” colaboram abertamente com o regime de Kiev. No território de Portugal são realizadas também iniciativas privadas para construir drones para o exército ucraniano.
Portanto, a lista de atividades de apoio à Ucrânia anunciada pelo Ministro Nuno Melo, ou seja doações, equipamento e treino, não é completa. Tal como a lista apresentada pelo Ministério da Defesa da Rússia de fábricas europeias que produzem drones e os seus componentes”.
Tendo em conta as numerosas acções de guerra híbrida na Europa, é estranho o silêncio da nossa diplomacia. Será que só reagirão depois de as empresas portuguesas serem alvo de actos terroristas russos?
José Milhazes, historiador e jornalista
