
Assumido pela marca como o primeiro supercarro português, o Adamastor Furia foi desenvolvido por uma estrutura sediada no Porto e com produção prevista para Perafita, em Matosinhos, o projeto nasceu de um investimento de 17 milhões de euros e conseguiu, desde a apresentação, furar a bolha nacional, chegando até à imprensa internacional especializada.
Convém dizer desde já que o Furia não vive apenas de patriotismo. A base técnica é séria: monocoque integral em fibra de carbono, motor V6 3.5 biturbo montado em posição central longitudinal, tração traseira, caixa Hewland LWS-200 acionada por patilhas e um peso anunciado em torno dos 1.100 kg em seco. A marca aponta para 650 cv às 5.500 rpm e 571 Nm disponíveis logo às 2.500 rpm, números suficientes para colocar o Furia na órbita dos grandes nomes do género, com os 0-100 km/h em cerca de 3,5 segundos e uma velocidade máxima acima dos 300 km/h.

Ainda mais interessante do que a potência é a filosofia. Num mundo em que tantos supercarros se tornaram exercícios de excesso visual, o Adamastor preferiu apostar na eficiência aerodinâmica. O fundo trabalhado com dois túneis Venturi é parte central da identidade do carro e a marca chegou a anunciar até 1.900 kg de carga aerodinâmica a 250 km/h, dispensando asas exuberantes para procurar desempenho através da gestão do ar. É uma abordagem menos teatral, mas mais elegante e, acima de tudo, mais adulta.
É precisamente por isso que a fase atual do projeto tem tanto peso. Depois dos testes em pista no Autódromo Internacional do Algarve, o Development Prototype #1 entrou agora numa etapa decisiva: os testes em estrada aberta. O protótipo já circula com a matrícula de ensaio “400001” e fez a estreia na via pública nas imediações do Porto, começando a validar comportamento, refrigeração e utilização em cenários reais, do trânsito urbano às estradas de montanha. A passagem da pista para o quotidiano é particularmente importante porque revela uma ambição rara neste segmento: o Furia não quer ser apenas um brinquedo para track days, quer também ser um automóvel utilizável.

Essa talvez seja a promessa mais sedutora do Adamastor Furia. Não a de ser o mais rápido, o mais extremo ou o mais caro, até porque o preço base anunciado, de 1,6 milhões de euros mais impostos, coloca-o já num território muito restrito e a produção continuará limitada a 60 unidades, com capacidade instalada para 25 carros por ano. O que o distingue é outra coisa: a tentativa de construir um supercarro português sem complexos, tecnicamente credível, visualmente marcante e suficientemente versátil para não viver condenado a um atrelado e a uma garagem climatizada.
No fim, é isso que torna o Furia relevante para lá da bandeira. Mais do que um objeto de luxo, é um teste à maturidade da engenharia portuguesa aplicada ao automóvel emocional. E talvez seja essa a melhor definição do Adamastor neste momento: não um sonho ingénuo sobre rodas, mas uma ideia séria que começa, finalmente, a enfrentar o mundo real.
Artigo por Rui Reis
