
A Ferrari já levantou a ponta do véu sobre o Luce, o seu primeiro modelo 100% elétrico. A marca revelou o nome e um primeiro olhar ao habitáculo, mantendo o exterior em segredo até à apresentação prevista para maio de 2026. A estratégia é clara: controlar o “primeiro impacto” e, sobretudo, enquadrar o Luce como um Ferrari completo, não como um elétrico com logótipo de Maranello.
Um GT elétrico com ambição de superdesportivo
O Luce não está a ser desenhado como um brinquedo leve e radical, mas como um gran turismo de alta performance: quatro portas, quatro lugares e um pacote técnico pensado para desempenho repetível e para uso real. Isso ajuda a explicar um dado inevitável nos elétricos deste segmento: o peso, que deverá rondar as 2,3 toneladas. A questão é o que a Ferrari faz com isso, e tudo indica que a resposta está na gestão fina de chassis e de binário, mais do que em “números de catálogo”.

Quatro motores, 800 V e 122 kWh: a base técnica
A arquitetura anunciada aponta para quatro motores elétricos, potência combinada acima dos 1000 cv e uma bateria de 122 kWh (capacidade bruta), suportada por sistema de 800 V. Em carregamento rápido, o Luce foi desenvolvido para potências até 350 kW, com a marca a indicar ganhos de energia muito significativos em paragens curtas, o tipo de detalhe que separa um elétrico impressionante no papel de um elétrico confortável na vida real.
Nos números que mais contam num Ferrari, a promessa também é forte: 0–100 km/h na ordem dos 2,5 segundos, velocidade máxima perto dos 310 km/h e autonomia acima dos 530 km (referência WLTP).
Chassis e controlo: onde se decide se é um verdadeiro “Ferrari”
Com peso elevado e binário instantâneo, o segredo está no controlo. O Luce deverá recorrer a soluções avançadas de suspensão ativa e direção às quatro rodas, além de vetorização de binário, para “encolher” o carro em estrada e manter o comportamento previsível quando o ritmo sobe. Há ainda um ponto curioso (e muito pragmático) no trabalho de refinamento: num elétrico, não há motor a mascarar vibrações, por isso a Ferrari trabalhou soluções específicas de isolamento e estrutura para reduzir ruídos e reverberações que, num V12, passariam despercebidos.

O som, uma identidade vincada
A Ferrari sabe que, num carro destes, a emoção não pode ficar refém do silêncio. A solução apresentada é inteligente e, sobretudo, coerente com a obsessão da marca pela autenticidade: em vez de simular “barulho de motor”, o sistema sonoro amplifica vibrações reais do conjunto motriz, criando uma assinatura própria que acompanha carga e intensidade. É um caminho que tenta evitar o efeito “videogame” e, ao mesmo tempo, devolver informação sensorial ao condutor.
O interior com assinatura LoveFrom
A colaboração com a LoveFrom (o estúdio criativo de Jony Ive e Marc Newson) é a grande declaração de estilo do Luce nesta fase inicial. O habitáculo aposta numa ideia quase esquecida em muitos elétricos de luxo: tecnologia pode ser avançada sem ser fria. Há múltiplos ecrãs, mas também uma presença assumida de comandos físicos. O ecrã central surge com montagem articulada, pensado para favorecer condutor ou passageiro, e existe até uma chave com e-ink para reduzir consumo quando não há alterações de informação.
O volante é outro símbolo importante: três raios, inspiração retro e proporções cuidadosamente trabalhadas — mas com exigências modernas (airbag, ergonomia, controlos integrados). É o tipo de detalhe que fala diretamente ao público da marca: herança, sim, mas sem cair no museu.
Artigo por Rui Reis


