
O Observatório Europeu dos Meios de Comunicação Digitais (EDMO) registou em agosto um aumento de narrativas falsas ligadas às alterações climáticas. De teorias da conspiração sobre incêndios a acusações sem fundamento contra a Ucrânia, a desinformação climática deixou de ser apenas um ruído digital — passou a ser um campo de batalha geopolítico.
Num verão marcado por incêndios devastadores no Mediterrâneo, o calor não ficou apenas na floresta: espalhou-se também pelo espaço digital. De acordo com o relatório mais recente do Observatório Europeu dos Meios de Comunicação Digitais (EDMO), 9% de todos os conteúdos de desinformação verificados pelas 33 organizações da sua rede durante o mês de agosto tiveram como alvo as alterações climáticas – o valor mais alto do ano.
A narrativa segue um padrão preocupante. A cada vaga de calor ou incêndio florestal, proliferam explicações alternativas, muitas vezes em forma de teorias da conspiração, como alegações de que os fogos foram provocados deliberadamente para requalificar terrenos ou até por “raios laser vindos do espaço”. Mas este verão trouxe uma nova camada de desinformação: a instrumentalização política das catástrofes.
Um dos casos mais notórios foi o de Portugal e da Grécia, onde circularam histórias falsas que pintavam a Rússia como uma potência generosa, supostamente disposta a enviar aviões anfíbios para combater os incêndios. Esta narrativa, já desmentida pela “Lusa Verifica”, surge num momento em que as sanções europeias à Rússia continuam em vigor e em que Moscovo procura melhorar a sua imagem junto da opinião pública ocidental.
O relatório também sublinha como a desinformação climática se cruza com outras agendas. Na Lituânia, por exemplo, as chuvas extremas foram atribuídas falsamente à Ucrânia — uma forma de desgastar o apoio europeu a Kiev. Em Espanha, circularam boatos de que estrangeiros estavam a atear incêndios de propósito, o que alimenta sentimentos xenófobos. E no Reino Unido e na Bélgica, espalharam-se rumores de que governos planeiam “passaportes de CO2” ou “confinamentos climáticos” para restringir a liberdade de circulação dos cidadãos.
Este tipo de narrativas falsas não é inocente. A desinformação sobre o clima mina a confiança pública em políticas de mitigação, desvia o debate das soluções reais e pode até provocar reações violentas, como se viu na Grécia em 2023, quando acusações falsas levaram a ataques contra migrantes.
Num momento em que os efeitos da crise climática são cada vez mais visíveis, a guerra de informação torna-se tão crucial como a luta contra o fogo. Se os governos e as instituições falham em comunicar de forma clara e transparente, deixam espaço aberto para que estas narrativas se espalhem e criem desconfiança.
