
O futuro do clima joga-se agora na concretização de promessas. O financiamento anunciado na última COP ambiental será o verdadeiro teste à credibilidade internacional — e à justiça para os países que mais sofrem os efeitos da crise climática.
A luta contra as alterações climáticas é, há muito, um imperativo científico e ambiental. Mas cada vez mais se impõe como uma questão de justiça social e geopolítica. Os países menos responsáveis pelas emissões históricas de gases com efeito de estufa são, paradoxalmente, os que mais sofrem os seus impactos: secas extremas, cheias destruidoras, insegurança alimentar e crises de saúde pública. Neste contexto, a promessa de financiamento climático aos países em desenvolvimento tornou-se mais do que uma meta — é um teste crucial à credibilidade da solidariedade internacional.
Durante a recente reunião de líderes sobre o Clima e a Transição Justa, o Presidente angolano, João Lourenço, foi direto: “A operacionalização do novo objetivo de financiamento, na ordem de 1,3 biliões de dólares por ano até 2035, será um verdadeiro teste à credibilidade do sistema internacional”. O chefe de Estado não se referia apenas à questão financeira, mas ao próprio sentido de justiça global.
A declaração de João Lourenço surge num momento decisivo. A poucos meses da COP30, no Brasil, a urgência de garantir que o financiamento climático chegue efetivamente às populações mais expostas tornou-se incontornável. “A transição só será justa se esse compromisso for honrado e acessível a todos os países em desenvolvimento”, frisou.
As promessas de financiamento e a realidade
Desde o Acordo de Paris, em 2015, que os países desenvolvidos se comprometeram a mobilizar 100 mil milhões de dólares anuais para apoiar os países em desenvolvimento na adaptação e mitigação dos efeitos das alterações climáticas. No entanto, essa meta tem sido sistematicamente falhada ou diluída por obstáculos burocráticos e falta de clareza nos critérios de acesso.
Agora, com um novo objetivo mais ambicioso — 1,3 biliões de dólares por ano até 2035 — as dúvidas persistem: será diferente desta vez? O financiamento chegará realmente a quem mais precisa? Ou continuará a perder-se em promessas adiadas e mecanismos complexos de difícil acesso?
Sem financiamento, não há transição energética justa. Sem apoio real, os planos de adaptação ficam no papel. Sem recursos, os países mais pobres são deixados à mercê das consequências de um problema que não criaram, mas que enfrentam na linha da frente.
Só assim os países em desenvolvimento passarão a ter maior resiliência diante dos fenómenos climáticos”, defendeu João Lourenço, lembrando que a justiça climática só será alcançada com o cumprimento dos compromissos de financiamento, a transferência de tecnologias e o estabelecimento de parcerias estratégicas.
Uma questão de equidade e sobrevivência
Ao contrário do que muitos pensam, esta não é apenas uma discussão de políticas internacionais — é uma questão de sobrevivência para milhões. O financiamento climático não é caridade: é compensação. É investimento num futuro comum, onde todos os países tenham condições para responder à crise climática com justiça e eficácia.
Para João Lourenço, a COP30 deverá ser mais do que um palco de intenções: “Deve reafirmar o multilateralismo como instrumento de confiança, equidade e ação concreta”. A credibilidade do sistema internacional será posta à prova não pelos discursos, mas pelos resultados. Porque, como se tornou evidente nas últimas décadas, o planeta não pode esperar — e os mais vulneráveis muito menos.