
Há um risco grave de saúde pública após a tempestade Kristin, devido à quebra e dispersão de placas de fibrocimento com amianto, sobretudo na zona Oeste.
Depois de uma tempestade, a prioridade é óbvia: segurança, abrigo e reparar danos. Mas há um perigo que pode ficar no chão, silencioso, e durar muito mais do que o vento: o amianto.
A ZERO e a AEPRA alertam para a presença de placas de fibrocimento com amianto, vulgarmente conhecidas como placas de Lusalite, o nome da empresa que o fabricava, que terão sido projetadas, partidas e abandonadas na via pública e em terrenos, na sequência da tempestade Kristin. Segundo as associações, a situação é particularmente preocupante na zona Oeste do país.
O que está em causa: o problema não é a placa inteira, é a placa partida
O amianto é perigoso quando liberta fibras para o ar. E isso acontece, sobretudo, quando o material se parte, se degrada, é cortado, é esmagado ou é manuseado.
Íria Roriz Madeira, arquiteta e membro da ZERO, descreve o risco nestes termos: “Sempre que materiais contendo amianto se partem ou se degradam, libertam fibras extremamente perigosas. A sua inalação pode causar asbestose, cancro do pulmão e mesotelioma, um cancro raro, mas muito agressivo.”
O problema agrava-se quando as placas ficam em bermas de estrada, em passeios, junto a casas ou em terrenos descampados. Em alguns casos, segundo a ZERO, continuam a ser fragmentadas pela passagem de veículos ou pelo manuseamento indevido por particulares, aumentando a libertação de fibras.
A chuva pode “ajudar” no imediato, mas o risco volta quando seca
A ZERO sublinha que a chuva pode reduzir temporariamente a dispersão aérea, porque mantém o pó húmido. Mas quando o tempo melhora e os resíduos ficam secos e expostos, o risco volta a subir.
E se as placas estiverem em estradas, o tráfego pode transformar um material perigoso num problema ainda maior, ao triturá-lo continuamente.
O erro mais perigoso: reutilizar amianto “por solidariedade”
Um dos pontos mais graves do alerta surge de algo que, à primeira vista, parece um gesto solidário.
A AEPRA diz ter encontrado publicações em redes sociais onde cidadãos oferecem placas de fibrocimento para reparar coberturas danificadas.
Marina Côrte-Real, representante da AEPRA, é clara: “Consideramos particularmente grave que estas situações sejam apresentadas sob a forma de gestos solidários ou de ajuda, quando, na realidade, transferem para terceiros um problema ambiental e de saúde pública.”
As associações reforçam que a reutilização, reciclagem ou valorização de materiais com amianto é proibida pela lei portuguesa, nomeadamente pela Portaria n.º 40/2014.
“A chuva dentro de casa é pior do que o amianto” é um mito perigoso
A AEPRA alerta para a desinformação, que pode levar a decisões arriscadas: “Temos conhecimento de pessoas que afirmam que a chuva dentro de casa é pior do que o amianto. Esta perceção demonstra um profundo desconhecimento do perigo real e duradouro que este material representa para a saúde”, afirma Marina Côrte-Real.
O amianto pode não provocar efeitos imediatos, mas a exposição está associada a doenças graves e potencialmente fatais.
O que deve fazer se vir placas suspeitas na rua
As recomendações das associações são simples e práticas:
– Não tocar nem mexer nas placas
– Não as partir, cortar ou arrastar
– Evitar circular junto dos resíduos
– Sinalizar o local, se possível, sem contacto direto
– Denunciar ao SEPNA (Serviço de Proteção da Natureza e do Ambiente) da GNR
– Comunicar também à ZERO, se entender necessário
A remoção deve ser feita apenas por equipas com formação e equipamentos de proteção individual adequados, e os resíduos têm de seguir para aterros licenciados.
E se estiver na sua propriedade?
As associações reforçam que as coberturas nunca devem ser repostas com materiais contendo amianto. Em caso de emergência, devem ser usadas soluções provisórias seguras até ser possível uma intervenção definitiva.
O amianto está proibido em Portugal desde 2005, mas continua presente em muitas construções antigas. A tempestade Kristin veio apenas expor, de forma abrupta, um problema que já existia.
