
Perante uma Europa assolada por ondas de calor extremas, o secretário-geral da ONU, António Guterres, apresentou um plano de sete medidas para reduzir a dependência dos combustíveis fósseis, acelerar a transição energética e reforçar a resposta global às alterações climáticas.
Enquanto uma intensa onda de calor continua a afetar grande parte da Europa, o secretário-geral das Nações Unidas, António Guterres, lançou um apelo à comunidade internacional para acelerar a ação climática e reduzir a dependência global dos combustíveis fósseis. Num discurso proferido durante a London Climate Action Week, Guterres apresentou um plano assente em sete medidas fundamentais para enfrentar simultaneamente a crise climática, a insegurança energética e os desafios do desenvolvimento sustentável.
Segundo o líder da ONU, os fenómenos extremos, os conflitos geopolíticos ligados à energia e a crescente pressão sobre os recursos naturais têm uma origem comum: a dependência mundial do petróleo, do gás e do carvão. A resposta, defende, passa por uma transição rápida, justa e global para energias limpas.
1. Reduzir drasticamente as emissões até atingir a neutralidade carbónica
O primeiro passo consiste em fazer com que as emissões globais atinjam o seu pico imediatamente e entrem numa trajetória de queda acentuada ao longo desta década, alcançando a neutralidade carbónica até 2050.
Guterres destacou o papel determinante das economias do G20, responsáveis por cerca de 80% das emissões globais. Entre as prioridades está a redução das emissões de metano, um gás com um potencial de aquecimento muito superior ao dióxido de carbono. Para a ONU, combater a poluição por metano pode produzir resultados rápidos e significativos na limitação do aquecimento global.
2. Acelerar o investimento em energias renováveis
A segunda medida passa por reforçar a aposta em projetos de energia limpa e eliminar os subsídios públicos destinados a novos projetos de combustíveis fósseis.
O secretário-geral argumenta que os lucros extraordinários registados pelas grandes empresas petrolíferas devem ser parcialmente tributados para financiar a transição energética e apoiar as comunidades mais vulneráveis. O objetivo é canalizar recursos para tecnologias renováveis, cuja competitividade económica tem aumentado significativamente na última década.
3. Tornar a inteligência artificial mais sustentável
Uma das novidades do plano apresentado pela ONU é o foco na pegada ambiental da inteligência artificial. Guterres defende que todas as grandes empresas do setor devem medir e divulgar publicamente o impacto ambiental dos seus centros de dados, incluindo emissões de carbono, consumo de água e utilização do solo.
Além da transparência, a ONU propõe que todos os centros de dados associados à inteligência artificial sejam alimentados exclusivamente por energia renovável até 2030. A preocupação prende-se com o rápido crescimento do consumo energético destas infraestruturas, cuja procura poderá aumentar significativamente nos próximos anos.
4. Garantir uma transição energética justa
A transição para uma economia de baixo carbono não deve beneficiar apenas os países mais desenvolvidos. Para a ONU, é essencial assegurar que trabalhadores, comunidades e países em desenvolvimento participem dos benefícios económicos gerados pela transformação energética.
Guterres alertou que a mudança para energias limpas é inevitável, mas o modo como será conduzida permanece uma escolha política. Uma transição mal gerida poderá aprofundar desigualdades e criar novas tensões sociais; uma transição justa poderá gerar emprego, crescimento económico e maior estabilidade.
5. Reforçar a adaptação e a resiliência climática
Mesmo com uma redução rápida das emissões, muitos impactos das alterações climáticas já são inevitáveis. Por isso, o quinto eixo do plano da ONU centra-se na adaptação.
O reforço dos sistemas de alerta precoce, a proteção das infraestruturas críticas e o investimento em medidas de prevenção podem reduzir significativamente os danos causados por fenómenos extremos. A ONU apela ainda aos países desenvolvidos para que aumentem substancialmente o financiamento destinado à adaptação climática nos países mais vulneráveis.
6. Garantir financiamento justo para os países em desenvolvimento
Um dos maiores obstáculos à transição energética global é o acesso desigual ao financiamento. Muitos países em desenvolvimento enfrentam custos de financiamento muito superiores aos das economias avançadas, o que dificulta investimentos em energias renováveis e infraestruturas resilientes.
A ONU defende uma mobilização mais ambiciosa dos bancos multilaterais de desenvolvimento, incluindo o Banco Mundial, bem como o cumprimento dos compromissos financeiros já assumidos pelos países desenvolvidos. O objetivo é criar condições para que todas as regiões possam participar na revolução energética em curso.
7. Defender a ciência e combater a desinformação climática
O último ponto do plano destaca a importância da ciência como base para a tomada de decisões. Guterres alertou para a crescente disseminação de desinformação climática, frequentemente utilizada para atrasar medidas de mitigação e proteger interesses económicos instalados.
A ONU considera essencial fortalecer a confiança nas instituições científicas, proteger jornalistas e defensores ambientais e promover informação baseada em evidências. A qualidade do debate público será determinante para acelerar as mudanças necessárias nos próximos anos.
Um apelo à ação global
A mensagem central do secretário-geral das Nações Unidas é clara: a crise climática, a insegurança energética e as desigualdades no desenvolvimento estão profundamente interligadas. Embora os riscos sejam cada vez mais evidentes, também existem soluções tecnológicas e financeiras capazes de acelerar a transição para um modelo energético mais limpo e sustentável.
Os sete passos apresentados pela ONU constituem um roteiro para reduzir a dependência dos combustíveis fósseis, reforçar a resiliência das sociedades e garantir que a transição energética beneficia todas as regiões do mundo.
