
As últimas declarações de Vladimir Putin mostram que o ditador russo não desiste da obsessão de obrigar a Ucrânia a render-se, objectivo aceite claramente pelos enviados especiais de Trump. As últimas propostas feitas pelo dirigente norte-americano ao presidente Zelensky têm cedências ao Kremlin maiores do que em propostas anteriores.
Na nova proposta, tal como em anteriores, apenas Kyiv cede: a Ucrânia deve abandonar o Donbas e retirar as suas tropas desse território parcialmente ocupado pelas tropas russas, a Ucrânia compromete-se a não aderir à NATO e a confirmar o seu estatuto de país não alinhado, a limitar o número de efectivos das forças armadas.
Porém, ao contrário de propostas anteriores, a nova proposta prevê a realização de eleições e de um referendo, bem como revisão da Constituição ucraniana antes de ser assinado o acordo de paz entre a Ucrânia e a Rússia.
Deste modo, norte-americanos e russos podem sonhar com a substituição à frente da Ucrânia de Zelensky por alguém mais “maleável”. No caso da realização de um referendo sobre a atitude do povo ucraniano em relação à guerra, o ditador Putin espera que os ucranianos, cansados da guerra, votem a favor do fim do conflito nas condições do Kremlin.
“Este “plano de paz” é uma tentativa clássica de vender à Ucrânia um bilhete para o Titanic, embrulhado para presente em forças de paz da ONU”, constatou-se em Kyiv. Inicialmente, Trump propôs a transformação da zona-tampão no Donbass numa zona neutra controlada por tropas estrangeiras, mas como a Rússia não aceita isso, ele admite a presença de capacetes azuis das Nações Unidas para separar as partes do conflito.
Se Kyiv aceitar as alterações constitucionais impostas à Ucrânia, esta sofrerá uma perda directa de soberania, disfarçada de referendos democráticos.
Este plano para a capitulação da Ucrânia é o presente perfeito para Putin: permite à Rússia não só salvar as aparências, mas também obter o estatuto legalmente consagrado de “supervisora” dos destroços do que foi em tempos um país independente. Os emissários de Trump sugeriram que Kyiv assinasse o seu próprio epitáfio, considerando-o um “acordo do século”.
Kremlin lava mais branco
Poder-se-ia pensar que, no país mais “anti-nazi” do mundo, pelo menos a julgar pelos discursos dos dirigentes russos, os resultados das eleições regionais na Alemanha deveriam provocar grandes preocupações, mas a reacção foi exactamente a contrária.
Para resolver este aparente paradoxo, o Kremlin decidiu branquear o AFD alemão fazendo deste partido de extrema direita um partido de direita normal. Em Moscovo reconhece-se que alguns dos seus membros já tiveram visões de extrema-direita, mas que há muito que mudaram de opinião e, agora, o AfD é um partido de direita normal, enquanto a antiga CDU, de direita normal, se transformou numa entidade centrista e pró-oligárquica, deixando um nicho aberto ao partido de direita. Este nicho foi ocupado pelo AfD.
Moscovo tenta também mostrar que o AfD não é um partido pró-Rússia, mas uma força que luta pela paz e cooperação com a Rússia. Segundo a propaganda russa, isso não é ser pró-Rússia, mas sim rejeitar a russofobia. Além do mais, tenta vender a ideia de que partidos pró-nazis na Alemanha não são o AfD, mas sim os opositores do AfD, “aqueles que apoiam o único regime neonazi, abertamente russofóbico e abertamente terrorista na Europa — a junta ucraniana de Zelensky”.
Entretanto, Putin prepara uma grande vitória do seu partido “Rússia Unida” nas eleições parlamentares que se aproximam. Impede a entrada na Duma Estatal (câmara baixa do parlamento russo) de pessoas que defendem o fim da guerra, conversações de paz e democratização da vida política russa.
Caso o seu partido vença nas eleições, Putin verá nelas uma confirmação do “apoio popular” à sua política de guerra.
José Milhazes, historiador e jornalista
