
O novo Torcal é o primeiro Bentley totalmente elétrico, inaugura uma quarta linha de modelos na marca britânica e surge menos como uma rutura do que como uma tentativa de transportar para outro tipo de mecânica os códigos de luxo, desempenho e requinte que Crewe foi aperfeiçoando desde 1919.
É também um Bentley particularmente importante. Desenvolvido, projetado e produzido em Crewe, o Torcal antecipa soluções de design, materiais e tecnologia que deverão aparecer nos próximos modelos da marca, independentemente da motorização. E chega logo em duas versões: Torcal e Torcal S, esta última com 888 cv e nada menos do que 1350 Nm de binário.
A estreia do primeiro elétrico acontece, curiosamente, numa altura em que a Bentley tornou a sua estratégia de eletrificação mais flexível. A intenção anteriormente anunciada de avançar rapidamente para uma gama exclusivamente elétrica deixou de obedecer a uma data rígida e a marca pretende continuar a oferecer, durante os próximos anos, modelos elétricos, híbridos plug-in e propostas com motor de combustão. O Torcal vem acrescentar escolha, não substituir de imediato tudo aquilo que já existe.

Cinco metros, mas com outras proporções
Com 5,008 metros de comprimento e 3,023 metros entre eixos, o Torcal assume a forma de um SUV baixo e esguio, apoiado numa distância entre eixos longa e com balanços curtos. É o Bentley de quatro portas mais curto da gama atual, embora isso não impeça a marca de prometer bastante espaço interior. A bagageira traseira oferece 460 litros, aos quais se juntam mais 90 litros sob o capô dianteiro.
O desenho marca também o início de uma nova linguagem estética. A dianteira mantém a imponência habitual da Bentley, agora reinterpretada através da iluminação e de uma grelha com padrão diamante iluminado, enquanto a traseira recupera algumas das ideias apresentadas no concept EXP 15. As linhas são relativamente limpas e grande parte da presença visual nasce dos volumes da carroçaria, sobretudo das cavas posteriores pronunciadas e da forma como a cabine se estreita em direção à traseira.
É ainda o primeiro modelo de produção a utilizar a nova versão do emblema Bentley.

888 cv sem necessidade de exagerar
Num momento em que alguns elétricos parecem disputar números cada vez mais extremos de aceleração, a Bentley tomou uma decisão pouco habitual: não quis ir mais longe apenas porque podia. Segundo a marca, níveis de aceleração ainda superiores começariam a comprometer o tipo de experiência que pretende proporcionar aos seus clientes.
Mesmo assim, dificilmente alguém poderá acusar o Torcal de falta de velocidade. A versão S desenvolve 888 cv e 1350 Nm, permitindo cumprir os 0 aos 100 km/h em 2,9 segundos e atingir 260 km/h. O Torcal convencional fica pelos 821 cv e 1194 Nm, chega aos 100 km/h em 3,4 segundos e atinge 250 km/h.
É, simultaneamente, o Bentley de produção mais potente alguma vez construído e aquele que oferece o maior valor de binário da história da marca.
A motorização utiliza dois motores elétricos síncronos de ímanes permanentes, um por eixo, e uma arquitetura elétrica de 800 volts. A bateria possui 113 kWh de capacidade útil e é composta por 192 células. A autonomia máxima anunciada chega aos 600 quilómetros WLTP e o carregamento rápido pode atingir 400 kW, permitindo recuperar dos 10 aos 80% em cerca de 16 minutos ou acrescentar aproximadamente 160 quilómetros de autonomia em sete minutos.
Um Bentley elétrico não podia limitar-se a andar depressa
Mais importante do que os números da ficha técnica será perceber a forma como o Torcal os coloca no chão. A Bentley estreou aqui a sua primeira suspensão totalmente ativa, combinada com amortecedores adaptativos de duas válvulas capazes de atuar individualmente sobre cada roda. O sistema dispensa as tradicionais barras estabilizadoras e permite controlar continuamente os movimentos da carroçaria.
O eixo traseiro direcional é de série e pode virar as rodas até cinco graus, ajudando a reduzir o diâmetro de viragem para apenas 11,1 metros, um valor particularmente interessante num automóvel com cinco metros de comprimento. Atrás existe ainda um diferencial autoblocante eletronicamente controlado.
A travagem pode recorrer a discos de ferro de 420 mm à frente e 370 mm atrás ou, em opção, a um conjunto carbocerâmico com discos dianteiros de 440 mm e traseiros de 410 mm.
A Bentley resume a ambição do chassis de forma simples: proporcionar o conforto de um Flying Spur e o dinamismo de um Continental GT Speed. Só a condução permitirá perceber até que ponto conseguiu conciliar estes dois mundos.

Quando um elétrico precisa de encontrar a sua voz
Há, contudo, um problema particularmente delicado quando se eletrifica uma marca como a Bentley. Ao longo de décadas, o som dos grandes motores fez parte da experiência, desde os primeiros blocos da marca aos V8 e W12 mais recentes. Em vez de criar simplesmente uma imitação eletrónica de um motor térmico, a Bentley procurou outro caminho.
Nasceu assim a Bentley Dynamic Symphony, uma paisagem sonora construída a partir de instrumentos reais, entre os quais bateria, viola e baixo, inspirada no ritmo do conhecido V8 Bentley de 6,75 litros. O resultado varia com a velocidade e com o pedido de binário, torna-se mais presente em Sport e pode ser completamente desligado.
Até os pequenos sons do habitáculo receberam atenção pouco habitual. O clique dos indicadores de direção nasceu da gravação de um martelo a bater numa superfície de couro nas oficinas da Bentley, enquanto alguns sons do sistema multimédia partiram do toque num copo de cristal.

Luxo ainda feito de matéria
Se a tecnologia mudou, o interior continua deliberadamente analógico em muitos dos pontos onde a marca considera que o toque faz diferença. Permanecem comandos físicos no volante e na consola central, os tradicionais difusores de ventilação foram reinterpretados e o padrão diamante aparece repetidamente nos revestimentos.
Os bancos dianteiros têm 16 regulações elétricas, aquecimento, ventilação, apoios laterais ajustáveis e massagem, podendo receber os sistemas Postural Adjust e Smart Seat Climate. No banco traseiro surge, pela primeira vez num Bentley, um sistema elétrico de rebatimento.
A tecnologia também está bem presente. Há ecrãs OLED curvos, reconhecimento facial para identificar o condutor e carregar automaticamente as suas preferências, utilização do smartphone como chave e um head-up display com realidade aumentada. Em determinadas situações, os próprios sistemas de assistência conseguem memorizar manobras de estacionamento ou fazer o automóvel recuar automaticamente numa estrada estreita até um local onde possa dar passagem a outro veículo.
Mas talvez sejam os materiais que melhor mostram como a Bentley pretende abordar a eletrificação. Pela primeira vez surge um tecido automóvel produzido integralmente em lã Merino, desenvolvido com a histórica Fox Brothers e certificado segundo o Responsible Wool Standard. A Mulliner acrescenta o Ombré Walnut, criado a partir de até mil camadas de desperdícios de nogueira e papel reciclado, além de um novo acabamento Sunburst Aluminium inspirado nos painéis de alumínio trabalhado dos Bentley clássicos.

Elétrico, mas não sozinho
O Torcal também ajuda a perceber para onde vai a Bentley nos próximos anos. A eletrificação já não significa abandonar rapidamente tudo o resto. A marca reviu a estratégia que apontava inicialmente para uma gama exclusivamente elétrica e deverá continuar a combinar várias tecnologias de propulsão, adaptando a oferta à procura.
No Reino Unido, o Torcal deverá custar a partir de 173.300 libras, o equivalente a cerca de 202 mil euros ao câmbio atual, enquanto o Torcal S começa nas 199.300 libras, aproximadamente 232 mil euros. Na Alemanha, o valor de entrada anunciado ronda os 205 mil euros. Para Portugal ainda não existe um preço oficial, embora algumas informações apontem para um posicionamento abaixo dos 300 mil euros. As primeiras entregas europeias estão previstas para 2027.
Curiosamente, no mercado britânico o Torcal poderá mesmo assumir o papel de Bentley mais acessível à entrada da gama. Um estatuto invulgar para um modelo que, ao mesmo tempo, oferece mais potência e mais binário do que qualquer outro Bentley de produção.
O primeiro Bentley elétrico não tenta, portanto, convencer-nos de que 107 anos de motores desapareceram de um momento para o outro. Tenta antes demonstrar que aquilo que faz um Bentley pode existir sem eles. É provavelmente aí, muito mais do que nos 888 cv ou nos 2,9 segundos dos 0 aos 100 km/h, que começa o verdadeiro desafio do Torcal.
Artigo por Rui Reis


