
Contas de energia mais baixas, milhões de empregos e menos mortes prematuras estão entre os benefícios que podem resultar da poupança energética. Um novo estudo estima ganhos anuais de 826 mil milhões de euros na Europa até 2030 e mostra o que está em jogo para Portugal.
A transição energética é habitualmente discutida a partir da dimensão do investimento necessário, dos custos para as empresas e das dificuldades de substituir os combustíveis fósseis por alternativas mais limpas. Mas esta perspetiva deixa de fora uma parte importante da equação: o dinheiro que pode ser poupado, os empregos que podem ser criados e os custos de saúde que podem ser evitados.
Um novo estudo da coligação ambiental Plan4Climate e da Rede de Ação Climática Europa (CAN Europe) procura precisamente quantificar estes benefícios. As conclusões apontam para 826 mil milhões de euros em ganhos económicos adicionais por ano na Europa até 2030, um valor que poderá aproximar-se dos dois biliões de euros anuais em 2050.
O relatório “Europe’s climate dividend: Jobs, health, savings and lower energy costs” defende que a ação climática deve ser avaliada não apenas pelo seu custo inicial, mas também pelos efeitos que produz no quotidiano das famílias, na atividade económica e na saúde pública.
O que está incluído nestes benefícios?
Os valores apresentados resultam de diferentes efeitos associados às medidas de poupança de energia. Um dos mais relevantes é a redução das despesas energéticas, tanto para as famílias como para a economia. Outro é a criação de emprego, em particular nas atividades de construção e renovação de edifícios, que deverão representar cerca de 6,5 milhões dos mais de 8,5 milhões de empregos equivalentes a tempo inteiro que poderão ser sustentados na Europa até 2030, segundo estas contas.
Há também um benefício menos imediato, mas com consequências económicas importantes: a melhoria da qualidade do ar. O estudo estima que a redução da poluição atmosférica poderá evitar quase 34 mil mortes prematuras e cerca de 8.000 internamentos hospitalares por ano, além de reduzir em 3,3 milhões os dias de baixa por doença.
Menos doença significa também menos dias de trabalho perdidos e menos custos associados aos cuidados de saúde. São impactos que nem sempre aparecem nas contas mais visíveis da transição energética, mas que ajudam a explicar a dimensão dos ganhos estimados.
De acordo com o relatório, os benefícios acumulados entre 2030 e 2050 poderão atingir quase 32 biliões de euros. Os autores ressalvam, contudo, que as estimativas são conservadoras: a análise não contempla todos os benefícios possíveis da ação climática nem a totalidade das perdas económicas que poderão ser evitadas através da limitação das alterações climáticas.
Portugal: a poupança energética pode aliviar o orçamento das famílias
Os resultados para Portugal mostram como a transição energética pode ter consequências diretas no custo de vida. Até 2030, os benefícios económicos adicionais poderão atingir 8,5 mil milhões de euros anuais, o equivalente a 2,45% do Produto Interno Bruto de 2025. Em 2050, poderão chegar aos 28,6 mil milhões de euros por ano, ou 8,25% do PIB de 2025, segundo os dados divulgados pela associação ambientalista Zero, que integra as entidades responsáveis pelo relatório.
A redução das despesas com energia é apontada como um dos principais argumentos para acelerar a transição no país. As poupanças poderão atingir 280 euros por pessoa em 2030 e 1.069 euros em 2050.
A estes valores juntam-se os benefícios económicos associados aos danos climáticos globais evitados, estimados em 279 euros por pessoa em 2030 e 1.282 euros em 2050.
A dimensão da saúde pública também é relevante. Em Portugal, as medidas de poupança de energia poderão evitar 678 mortes prematuras por ano até 2030 e reduzir em cerca de 66 mil os dias de trabalho perdidos devido a doença.
O impacto efetivo destes ganhos dependerá, naturalmente, da concretização das medidas e da capacidade de tornar as alternativas mais eficientes e limpas acessíveis às famílias e às empresas. A renovação dos edifícios, por exemplo, pode reduzir as necessidades de aquecimento e arrefecimento, enquanto a transformação dos transportes e da indústria pode diminuir a dependência de combustíveis importados.
O preço da dependência dos combustíveis fósseis
Nesta equação, é também necessário considerar o custo de manter o atual modelo energético.
Em 2025, a União Europeia gastou cerca de 340 mil milhões de euros em importações de combustíveis fósseis. No mesmo período, o défice de investimento climático foi estimado em 344 mil milhões de euros. Os números ilustram a dimensão dos recursos financeiros associados à dependência energética externa e o desafio de mobilizar investimento suficiente para transformar o sistema energético.
Em Portugal, a associação Zero defende que o Orçamento do Estado para 2027 deverá ser reforçado com medidas financiadas e objetivos quantificados para acelerar uma transição energética justa nos transportes pesados de mercadorias e passageiros, na indústria e nos edifícios.
Em síntese, a principal conclusão do estudo é que a transição energética não deve ser vista apenas como uma despesa ambiental ou uma obrigação regulatória. Pode também constituir um investimento com retorno económico e social, desde que as políticas adotadas consigam transformar as metas climáticas em poupanças reais, melhores condições de vida e maior competitividade.
