
Numa altura em que os SUV parecem ter conquistado definitivamente as estradas e as tabelas de vendas, a Hyundai decidiu seguir outro caminho. O novo IONIQ 3 dispensa a altura ao solo, as carroçarias volumosas e a aparência musculada que se tornaram quase obrigatórias na indústria automóvel. Em troca, recupera uma silhueta baixa, de inspiração coupé, e uma personalidade que não procura agradar a toda a gente. E ainda bem.
O resultado é um compacto elétrico de cinco portas que parece querer provar que a racionalidade não tem de ser inimiga da criatividade. A Hyundai batizou esta interpretação de Aero Hatch, uma designação que traduz a combinação entre aerodinâmica e versatilidade. Mas, olhando para o IONIQ 3, é sobretudo o desenho que prende a atenção. O tejadilho mergulha em direção à traseira, as superfícies são marcadas por vincos bem definidos e a assinatura luminosa pixelizada estabelece a ligação à restante família IONIQ.

É uma proposta diferente, com uma identidade visual que ganha ainda mais expressão na versão N Line, graças aos para-choques específicos, às jantes de 18 polegadas e aos detalhes de inspiração desportiva. Não pretende ser um desportivo, mas também não se conforma com a imagem anónima que caracteriza tantos automóveis destinados à utilização quotidiana.
Curiosamente, é precisamente por detrás desta aparência mais irreverente que encontramos algumas das suas qualidades mais sensatas. Com 4,16 metros de comprimento, o IONIQ 3 adapta-se à vida urbana sem exigir grandes compromissos quando chega a altura de viajar. A distância entre eixos de 2,68 metros permite criar um habitáculo generoso, enquanto a bagageira oferece até 441 litros, incluindo um compartimento de 119 litros escondido sob o piso. Ideal para guardar os cabos de carregamento, o equipamento desportivo ou aqueles objetos que preferimos manter longe dos olhares mais curiosos.

O interior prolonga esta abordagem, mas com uma inspiração inesperada. Em vez de procurar referências exclusivamente no universo automóvel, a Hyundai foi buscar ideias ao mobiliário contemporâneo. O conceito chama-se Furnished Spacee traduz-se numa organização simples, superfícies depuradas e materiais reciclados, procurando transformar o habitáculo num espaço agradável, mais próximo do conforto doméstico do que de um ambiente excessivamente tecnológico.
A tecnologia, naturalmente, continua presente. E em quantidade apreciável. O novo sistema Pleos Connect, baseado no Android Automotive OS, introduz uma experiência digital personalizável, com um ecrã central que pode chegar às 14,6 polegadas e acesso a diferentes aplicações. O assistente de inteligência artificial Gleo AI permite interagir com diversas funções através de comandos de voz em linguagem natural, enquanto a conectividade sem fios com smartphones e as atualizações remotas ajudam a manter o automóvel atualizado.

Mas há um pormenor que merece ser valorizado: a Hyundai manteve comandos físicos para algumas das funções mais utilizadas.
A mesma preocupação com a facilidade de utilização estende-se à componente elétrica. O IONIQ 3 está disponível com duas baterias, de 42,2 e 61 kWh, associadas a motores de 147 e 135 cv, respetivamente. A versão de maior autonomia anuncia cerca de 497 quilómetros em ciclo combinado WLTP, distância suficiente para encarar uma escapadinha de fim de semana sem que a localização dos postos de carregamento tenha de dominar todos os planos.
Em cidade, a Hyundai anuncia mesmo até 687 quilómetros de autonomia para esta variante, segundo o ciclo urbano WLTP. E, quando chega a altura de recuperar energia, bastam cerca de 30 minutos para passar dos 10 aos 80% da capacidade da bateria, em condições ideais de carregamento rápido. O sistema de navegação pode ainda planear as paragens necessárias ao longo de uma viagem, enquanto a tecnologia Plug & Charge simplifica a utilização dos postos compatíveis.

Desenvolvido para o mercado europeu e produzido na Turquia, o novo IONIQ 3 já está disponível em Portugal, com preços a começar nos 33 500 euros. A versão com bateria de 61 kWh está disponível a partir de 36 350 euros, enquanto a N Line, com a sua imagem mais desportiva, custa 41 900 euros. A garantia de sete anos sem limite de quilómetros é outro argumento a considerar.
O mais interessante neste Hyundai talvez nem seja a autonomia, a tecnologia ou o aproveitamento do espaço. É a forma como consegue reunir todos esses atributos sem aceitar que um automóvel familiar tenha obrigatoriamente de parecer um SUV.
Artigo por Rui Reis
