
Carregadores, cabos, auriculares e luzes LED fazem parte de uma categoria de tecnologia barata e de curta duração que está a alimentar o problema do lixo eletrónico. Um estudo revela que 17,8% dos consumidores portugueses inquiridos já deitaram estes equipamentos no lixo comum, enquanto a ZERO denuncia falhas estruturais na reciclagem em Portugal.
Compramos um carregador porque precisamos dele naquele momento e depois acaba por ficar numa gaveta, guardamos uns auriculares que deixaram de funcionar ou substituímos um pequeno aparelho por outro mais recente. São decisões aparentemente insignificantes, mas, quando multiplicadas por milhões de consumidores, ajudam a explicar um dos problemas ambientais da era digital: o crescimento dos resíduos elétricos e eletrónicos.
Em Portugal, o problema começa logo no destino dado aos equipamentos em fim de vida. Segundo os últimos dados oficiais da Agência Portuguesa do Ambiente (APA), o país recolheu e tratou apenas 32% dos resíduos de equipamentos elétricos e eletrónicos (REEE) em 2024, muito abaixo da meta europeia de 65%.
Os números foram destacados pela associação ambientalista ZERO no Dia Internacional dos Resíduos Elétricos, assinalado a 14 de outubro. A organização acusa as entidades públicas responsáveis pela gestão deste fluxo de resíduos de falharem há duas décadas e alerta para os riscos ambientais, para a saúde pública e para as contas do Estado.
A tecnologia barata também deixa uma pegada ambiental
Os pequenos equipamentos elétricos fazem parte do quotidiano e são frequentemente comprados para resolver uma necessidade imediata ou para ficarem guardados como reserva. Carregadores, cabos, auriculares, luzes LED e outros acessórios são exemplos de produtos que podem acabar esquecidos numa gaveta ou ser descartados de forma incorreta.
Um estudo divulgado pela Electrão, desenvolvido no âmbito de uma iniciativa internacional do WEEE Forum, analisou os comportamentos dos consumidores em 12 países e identificou hábitos preocupantes em Portugal.
Oito em cada dez inquiridos portugueses compraram tecnologia de consumo rápido, ou fast tech, no último ano. Um terço afirmou ter equipamentos fora de uso guardados em casa.
Além disso, 17,8% dos consumidores inquiridos admitiram já ter colocado estes pequenos equipamentos no lixo comum. Outros destinos inadequados também foram identificados: 29,8% referiram as papeleiras de rua e o ecoponto amarelo como locais onde já descartaram este tipo de resíduos. Em contrapartida, 41,9% disseram ter recorrido a um ponto de recolha ou a uma instalação municipal, como um ecocentro.
O problema não é exclusivamente português. No conjunto dos 12 países abrangidos pelo estudo, 38,6% dos compradores disseram ter descartado pelo menos um destes equipamentos sem nunca o utilizar, depois de uma única utilização ou antes de completar um mês de uso.
Porque não deve deitar carregadores e auriculares no lixo comum
Mesmo quando são pequenos, os equipamentos elétricos não devem ser tratados como lixo indiferenciado. Podem conter materiais recuperáveis e componentes com substâncias perigosas que exigem tratamento adequado.
O encaminhamento para reciclagem permite recuperar matérias-primas e reduzir a necessidade de extrair novos recursos naturais. Ao mesmo tempo, o tratamento correto ajuda a evitar a libertação de substâncias nocivas para o ambiente e protege a saúde humana.
Há também riscos mais imediatos. As baterias presentes em determinados equipamentos podem provocar incêndios quando são esmagadas durante a recolha ou o processamento de resíduos.
Ricardo Furtado, diretor-geral de Elétricos e Pilhas da Electrão, sublinha que os aparelhos de baixo custo e curta duração continuam a ser equipamentos elétricos. A recomendação passa por prolongar a sua utilização sempre que possível, privilegiando a reutilização e, quando deixam de servir, encaminhá-los para reciclagem.
Na prática, antes de deitar fora um equipamento, vale a pena perceber se ainda pode ser utilizado, reparado ou doado. Quando chega efetivamente ao fim de vida, deve ser entregue num ponto de recolha de resíduos elétricos ou num ecocentro, em vez de ser colocado no lixo comum ou no ecoponto amarelo.
Portugal está longe das metas europeias
A responsabilidade não recai apenas sobre os consumidores. A ZERO considera que o sistema português de gestão de resíduos elétricos e eletrónicos está marcado por falhas estruturais, que ajudam a explicar a distância em relação aos objetivos europeus.
A associação aponta problemas na fiscalização, no financiamento da recolha e do tratamento e na aplicação das penalizações por incumprimento. Segundo a ZERO, os orçamentos aprovados para as entidades gestoras totalizaram 20 milhões de euros em 2024, quando seriam necessários 40 milhões para assegurar os meios adequados ao cumprimento das metas.
A organização denuncia ainda que, durante vários anos, foram contabilizados resíduos triturados em unidades de fragmentação de sucata sem evidências suficientes de que tivessem sido devidamente descontaminados. Critica também o adiamento para 2030 do cumprimento da meta comunitária de recolha de 65%.
As consequências podem ultrapassar o impacto ambiental. A ZERO alerta que Portugal poderá ter de suportar, a partir de 2027, uma fatura de várias centenas de milhões de euros associada aos resíduos elétricos e eletrónicos que não forem devidamente geridos.
O lixo eletrónico continua a crescer no mundo
A dimensão global do problema é ilustrada pelo Global E-waste Monitor, o principal relatório internacional sobre a produção, recolha e reciclagem de lixo eletrónico. Em 2022, foram geradas 62 milhões de toneladas de resíduos elétricos e eletrónicos em todo o mundo, mas apenas 22,3% tiveram recolha e reciclagem formalmente documentadas.
Num mercado em que os acessórios tecnológicos são cada vez mais acessíveis e fáceis de substituir, prolongar a vida útil dos equipamentos e garantir o seu encaminhamento correto tornou-se essencial. A reciclagem começa na escolha do destino de um simples carregador, mas depende também de um sistema capaz de recolher, tratar e recuperar os materiais de forma eficaz.
