
Era difícil, se não impossível, imaginar a Europa em geral e a Ucrânia em particular mergulhadas em crise tão perigosas como a actual. Tudo parece concorrer para o sucesso da política externa agressiva do Kremlin.
Putin esfrega as mãos de contente
Entre as principais causas desta crise está a invasão da Ucrânia pelas tropas russas a 22 de Fevereiro de 2022. Esta acção de Moscovo veio abalar, ou até mesmo destruir, o sistema mundial de relações internacionais criado após a Segunda Guerra Mundial.
Inicialmente, a onda de resistência do povo ucraniano e o isolamento internacional de Vladimir Putin permitiam considerar que a ditadura putinista não levaria a bom termo as suas intenções tenebrosas de conquista da Ucrânia e de impor o seu modelo de relações internacionais no Velho Continente. Porém, a salvação veio de onde menos se esperava: dos Estados Unidos, seu tradicional rival.
A chegada de Donald Trump à Casa Branca foi recebida no Kremlin com optimismo, mas os líderes russos não esperavam que ao poder tivesse chegado um político norte-americano disposto a contribuir para que Putin conseguisse alcançar os seus objectivos.
Trump estendeu a passadeira da vermelha ao seu homólogo russo e, hoje, Putin volta a reunir-se e a negociar com outros chefes de Estado, pode regressar à vanguarda da diplomacia internacional através de possíveis cimeiras: recebeu uma chamada telefónica dos líderes da Finlândia e da Noruega; encontrou-se com o Emir do Qatar e o Presidente do Irão no Fórum dos Países Exportadores de Gás; conduziu chefes de Estado africanos por uma exposição em Moscovo, aconselhando-os a controlar as redes sociais dos seus países ou a correr o risco de enfrentar protestos em massa semelhantes aos que tomaram conta da França. Nessa exposição, promoveu uma versão russa do Starlink e afirmou que a Rússia está em contacto próximo com Elon Musk, a quem chamou “homem brilhante”.
Vladimir Putin lançou uma série de actividades diplomáticas na capital russa na semana passada, sublinhando como, quase cinco anos após o início da guerra contra a Ucrânia, está a frustrar as tentativas ocidentais de o isolar e pretende forçar o seu regresso à vanguarda da política mundial. Putin está a receber elogios, convites para reuniões de alto nível e concessões dos Estados Unidos, apesar da escalada da guerra e da falta clara de intenção de chegar a um acordo. É caso para dizer que o Kremlin está em festa. Independentemente do que façam ou deixem de fazer, estão a conseguir algo que nem sequer esperavam. A suspensão por Trump das sanções contra a venda do petróleo russo é um dos exemplos mais flagrantes.
Em Novembro, Putin planeia visitar a China para o fórum da APEC, onde um possível encontro trilateral com Xi Jinping e Trump poderá potencialmente colocar a Rússia em pé de igualdade com as duas superpotências mundiais. Se o dirigente americano parece aceitar essa proposta, o chinês não está muito inclinado para aceitar isso. Em dezembro, poderá viajar para Miami para a cimeira do G20, caso aceite o convite de Trump, para descontentamento de alguns aliados dos EUA.
A favor do ditador russo está também a situação no interior da União Europeia. A contestação política e social aumenta e ganham terreno as forças que se manifestam contra o apoio militar e outro dos seus países à Ucrânia. E para complicar ainda mais o estado geral da EU, os dirigentes políticos desencadeiam uma crise perigosa em redor do controlo do Tribunal Constitucional. É de recordar que, além de ser um dos maiores países europeus, a Polónia é um ponto nevrálgico da logística do fornecimento de armamento à Ucrânia.
Enquanto Putin ultrapassa gradualmente o isolamento ocidental, as relações entre os EUA e a Ucrânia continuam a deteriorar-se, realçando a vulnerabilidade de Kyiv com o aproximar do inverno.
Nesta situação, está disposto a esperar pelo fim da resistência dos apoiantes americanos e europeus da Ucrânia. Agora que Trump virou as costas a Kyiv e está a considerar novos acordos com Moscovo, e com a crise galopante na União Europeia, Putin pode acreditar que a sua abordagem de esperar para ver está prestes a dar frutos.
É de salientar que o Kremlin não tem tanto êxito nas frentes de combate, mas os generais russos convencem o ditador do contrário. Putin considera que o tempo lhe dá razão, que precisa apenas de esperar e, no final, pode conseguir mais de Trump do que alguma vez imaginou.
Aqui falta a realização de um dos seus maiores sonhos: obrigar Volodomyr Zelensky a ir ao Kremlin pedir misericórdia…
José Milhazes, historiador e jornalista
