Muito antes do Urus, antes da febre dos SUV de luxo e de alguém achar normal juntar o desempenho de um superdesportivo com a atitude de um todo-o-terreno, houve um Lamborghini com motor V12, pneus de deserto e presença de veículo militar. Chamava-se LM002 e acaba de fazer 40 anos.
Hoje, um SUV com 600, 700 ou 800 cv já não espanta ninguém. Há versões desportivas de praticamente tudo, do familiar premium ao elétrico de grandes dimensões, e o mercado aprendeu a aceitar como natural a ideia de um carro alto, pesado, luxuoso e absurdamente rápido. Em 1986, porém, essa receita parecia saída de uma reunião onde alguém se esqueceu de dizer “não”.
Foi nesse contexto que a Lamborghini apresentou, no Salão de Bruxelas, o LM002. Um todo-o-terreno com motor V12 derivado do Countach Quattrovalvole, caixa manual, tração integral selecionável, pneus Pirelli feitos à medida e capacidade para passar dos 200 km/h. Ou seja, um automóvel que não encaixava em categoria nenhuma e que, precisamente por isso, acabaria por criar uma.

O antepassado selvagem do Urus
A Lamborghini gosta de chamar ao LM002 o primeiro Super SUV da história. A expressão é moderna, muito associada ao Urus, mas neste caso não parece exagero retrospectivo. O LM002 tinha a base filosófica do conceito: desempenho de superdesportivo, imagem teatral, luxo artesanal e aptidão para sair do alcatrão sem pedir licença.
O próprio Stephan Winkelmann, Chairman e CEO da Automobili Lamborghini, descreve o modelo como uma das raízes da visão contemporânea da marca. E percebe-se porquê. O Urus pode ser infinitamente mais refinado, tecnológico e utilizável no quotidiano, mas a ideia de que um Lamborghini também podia ter quatro portas, posição de condução alta e capacidade para atravessar areia, pedra e lama nasceu muito antes dele.
O LM002 não foi um desvio inocente na história de Sant’Agata Bolognese. Foi uma provocação técnica e estética. Um Lamborghini que trocou a silhueta baixa e afiada por uma carroçaria angular, quase brutalista, mas manteve aquilo que sempre definiu a marca: excesso, carácter e uma certa recusa em seguir o caminho óbvio.

Tudo começou com o Cheetah
A história começa no final dos anos 70, com o Cheetah, apresentado no Salão de Genebra de 1977. Desenvolvido em colaboração com a norte-americana Mobility Technology International, o protótipo tinha ambições militares e procurava despertar interesse junto das forças armadas dos Estados Unidos e de mercados do Médio Oriente.
Tecnicamente, era uma experiência radical para a Lamborghini. Tinha chassis tubular em aço, carroçaria aberta em alumínio e um motor Chrysler V8 de 5,9 litros montado em posição central-traseira. A potência, de 183 cv, não impressiona hoje, mas o Cheetah já anunciava uma obsessão que viria a marcar todo o programa: velocidade em terrenos onde, à partida, a velocidade não fazia grande sentido.
O protótipo nunca passou disso mesmo, mas deixou uma pergunta em cima da mesa: e se a Lamborghini conseguisse levar a sua identidade para fora da estrada?

O erro necessário: LM001
A resposta começou a ganhar forma com o LM001, apresentado em 1981. Já não era apenas um buggy experimental com ambições militares. Tinha carroçaria fechada de quatro portas, linhas angulosas e uma imagem muito mais próxima daquilo que viria a ser o LM002.
Só que havia um problema: o motor continuava atrás. E num todo-o-terreno pesado, pensado para atacar dunas e subidas acentuadas, essa solução depressa revelou limites. Em aceleração forte ou em inclinações exigentes, o eixo dianteiro ficava demasiado leve, prejudicando a direção e a estabilidade. A ausência de assistência de direção também não ajudava.
Foi aqui que Giulio Alfieri, então responsável técnico da Lamborghini, tomou a decisão fundamental: trazer o motor para a frente. Parece simples, mas foi essa mudança que transformou uma experiência desequilibrada numa arquitetura viável.

Um V12 do Countach para atravessar o deserto
O passo seguinte foi o LMA, de Lamborghini Militare Anteriore, já com motor dianteiro e uma configuração muito mais equilibrada. Testado de forma intensa nos desertos da Arábia Saudita, este protótipo mostrou que a Lamborghini estava perto de encontrar a fórmula certa.
Pelo caminho ainda houve experiências paralelas. O LM003 tentou explorar uma variante Diesel, com motor VM Motori de cinco cilindros e 150 cv, mas a potência era claramente insuficiente para um veículo a aproximar-se das três toneladas. O LM004 foi para o extremo oposto: recebeu um V12 de sete litros derivado da competição náutica, com mais de 420 cv, mas o peso e as questões de fiabilidade acabaram por condenar o projeto.
A solução definitiva foi mais Lamborghini do que qualquer outra: o V12 de 5,2 litros do Countach Quattrovalvole.
No LM002, esse motor de 5167 cc, com 12 cilindros a 60 graus e quatro válvulas por cilindro, debitava cerca de 450 cv nas versões com carburadores Weber. Mais tarde, a partir de 1989, surgiria uma versão com injeção eletrónica, homologada também para o mercado norte-americano, com 420 cv na especificação SAE NET.
Para um todo-o-terreno com mais de 2700 kg, eram números quase absurdos. A velocidade máxima chegava aos 210 km/h, com uma presença em estrada que devia ter tanto de fascinante como de intimidante.

Não era só músculo. Era engenharia a sério
O LM002 podia parecer uma caricatura, mas estava longe de ser um exercício superficial. A caixa manual ZF de cinco velocidades tinha relações curtas para todo-o-terreno, a tração integral era selecionável e o sistema incluía três diferenciais autoblocantes. O diferencial central podia mesmo ser bloqueado mecanicamente a 100%.
A suspensão era independente, com triângulos sobrepostos, e foi desenhada para suportar utilização extrema. A Lamborghini falava num chassis tubular reforçado capaz de resistir a forças elevadíssimas, enquanto a capacidade de vau chegava aos 82 cm sem preparação especial.
Depois havia os pneus. Os Pirelli Scorpion BK foram desenvolvidos especificamente para o LM002 e tornaram-se parte essencial da lenda. Tinham uma construção reforçada com materiais anti-corte em aramida e um desenho pensado para a areia, incluindo flancos característicos que ajudavam o veículo a “flutuar” melhor nas dunas. Eram pneus criados para aguentar velocidade, peso, calor e abuso. Poucos componentes explicam tão bem a natureza contraditória deste Lamborghini: superdesportivo, todo-o-terreno e objeto de luxo, tudo ao mesmo tempo.

Luxo de outro tempo
Por dentro, o LM002 também não seguia a cartilha militar que a sua aparência exterior podia sugerir. O habitáculo tinha pele, madeira, ar condicionado, vidros escurecidos azulados, sistema de som integrado no tejadilho e, mediante pedido, até televisão. Havia quatro lugares na cabine e uma ampla zona de carga traseira, reforçando a ideia de versatilidade num modelo que, em 1987, custava cerca de 169 milhões de liras italianas.
Era caro, raro e praticamente sem concorrência direta. A produção terminou em 1992, com um total de 301 unidades, incluindo versões destinadas ao mercado norte-americano e um exemplar único com volante à direita, atualmente exposto no Museu Lamborghini, em Sant’Agata Bolognese.
Entre as versões mais interessantes está o LM/American, produzido em apenas 60 unidades. Criado para cumprir as normas de emissões dos Estados Unidos e da Califórnia, recebeu injeção eletrónica multiponto Lamborghini LIE 52/12 e catalisadores, sacrificando parte da capacidade de depósito: dos enormes 280 litros das versões carburadas passou para 180 litros.
Ainda assim, continuava a ser um Lamborghini capaz de beber combustível com o mesmo entusiasmo com que atravessava desertos.
O legado que chegou ao Urus
Durante anos, o LM002 pareceu uma extravagância isolada. Um daqueles capítulos que só a Lamborghini poderia escrever e que mais ninguém teria coragem de repetir. Mas o tempo acabou por lhe dar razão.
Quando o conceito Urus foi apresentado em 2012, a ligação ao LM002 era evidente: proporções musculadas, postura dominante e a ideia de que um Lamborghini podia ser simultaneamente familiar, luxuoso e brutalmente rápido. Em 2017, com a chegada do Urus de produção, a marca voltou a entrar num território que, de certa forma, tinha descoberto sozinha três décadas antes.
Hoje, o LM002 é preservado pelo Lamborghini Polo Storico, responsável por restauros, certificações de autenticidade e recuperação de componentes originais. A colaboração com a Pirelli permitiu ainda trazer de volta os históricos Scorpion BK, novamente disponíveis através da rede oficial da Lamborghini e do catálogo Pirelli Collezione.
Artigo por Rui Reis


