
A primeira grande surpresa dá-se mesmo antes de nos sentarmos à mesa. É que, visto da rua, o Hygge Kaffe de Picoas não deixa adivinhar tudo o que se esconde no interior. O espaço é muito maior do que parece e está dividido em diferentes ambientes, com mesas amplas, zonas mais abertas, recantos resguardados e uma esplanada agradável, utilizável durante boa parte do ano.
A decoração contribui para a sensação de conforto. Os tons quentes, a madeira e os apontamentos de vegetação criam um ambiente cuidado, mas sem aquela rigidez que, por vezes, transforma um café bonito num cenário para o instagram, mas onde temos receio de mexer no que quer que seja. Aqui apetece sentar, conversar e ficar. Mesmo quando a sala está composta, a disposição das mesas permite alguma privacidade e evita que o movimento se torne incómodo.
Esta organização torna o Hygge Kaffe particularmente versátil. Tanto pode receber uma família com crianças como um casal à procura de alguma tranquilidade. Quem aparece sozinho também não se sente deslocado. Durante a tarde, é habitual encontrar pessoas de computador aberto, a trabalhar com calma e sem a pressão de terem de abandonar a mesa assim que terminam o café.
Num tempo em que tanta gente trabalha a partir de casa, espaços como este acabam por oferecer uma alternativa ao isolamento. Podemos estar sozinhos, mas continuamos rodeados de vida. Há vozes, pratos a chegar às mesas e pessoas a entrar e sair. Parece um detalhe, mas pode fazer diferença depois de muitas horas passadas entre quatro paredes.

O conceito nasceu depois de uma viagem de Joana Ribeiro a Copenhaga. A palavra hygge é dinamarquesa e está associada ao conforto, à serenidade, à partilha e ao prazer das coisas simples. A marca, essa, é bem portuguesa. O projeto começou na área do alojamento, através de guest houses, e chegou mais tarde à restauração. O primeiro Hygge Kaffe abriu em 2019, em Picoas, seguindo-se um segundo espaço na Baixa lisboeta.
Ao longo destes anos foi sendo criada uma clientela bastante fiel. Há pessoas que ali almoçam praticamente todos os dias. De manhã, chegam muitos turistas que preferem tomar o pequeno-almoço fora do hotel. À hora de almoço juntam-se profissionais dos escritórios das redondezas e moradores da zona. Mais tarde aparecem estudantes, trabalhadores remotos e quem procura apenas um local confortável para lanchar.
O espaço vai mudando de personalidade ao longo do dia sem perder a identidade. De manhã, domina o pequeno-almoço. Ao almoço, o ritmo acelera um pouco. Depois, tudo volta a abrandar e as mesas passam a ser ocupadas por conversas demoradas, livros e computadores.
A experiência de Joana Ribeiro na gestão de equipas de apoio ao cliente ajuda a explicar a atenção dada ao serviço. A equipa é próxima, disponível e sabe receber sem cair numa simpatia intrusiva. Parece simples, mas este é um daqueles pormenores que fazem (toda) a diferença, sobretudo num local onde muitas pessoas permanecem durante bastante tempo.
Uma carta para diferentes apetites
A carta foi pensada para públicos com gostos e hábitos alimentares distintos. Existem opções vegetarianas, veganas e sem glúten, a par de propostas muito menos preocupadas com a balança. “Não somos fundamentalistas de saudável. Somos, isso sim, da qualidade”, explicou-nos Joana Ribeiro. Ainda bem. A possibilidade de escolher um iogurte de matcha e, logo a seguir, saborear uma mini panqueca coberta de chocolate quente parece-nos uma forma bastante sensata de procurar o equilíbrio.
Quem prefere começar o dia com uma opção salgada encontra uma secção dedicada aos ovos. A escolha passa pelos mexidos simples, acompanhados por pão torrado, ou por uma versão mais composta, com salmão fumado, abacate e cebola roxa. Há ainda ovos estrelados, ovos turcos e propostas Benedict com salmão ou bacon. Estas últimas juntam ovo escalfado, pão brioche e molho holandês, uma combinação clássica que continua a justificar a sua presença em qualquer carta que se preze.
Para os mais indecisos, ou para quem chega com vontade de provar um pouco de tudo, existem várias fórmulas de brunch. As combinações incluem opções como tosta de abacate com ovos escalfados, sanduíche de ovo, croissant, pão com compotas caseiras, iogurte com granola, cinnamon roll e sumo fresco. A alternativa vegan troca os ingredientes de origem animal por uma sanduíche de beringela assada, muhammara e tapenade de azeitona, acrescentando iogurte de soja e panquecas vegan. Há também uma versão para crianças e outra mais generosa, concebida para partilhar.
A oferta não fica pelos pequenos-almoços e obrunch. As tostas, as saladas, as bowls e os wraps permitem montar um almoço completo sem cair numa refeição demasiado pesada. Depois há os bolos, as panquecas e os cinnamon rolls, estrategicamente expostos para colocar à prova as melhores intenções.
A carta recebe ainda ajustes sazonais e edições especiais em algumas épocas do ano. Natal, Dia dos Namorados e Dia da Mãe são algumas das datas aproveitadas para apresentar propostas diferentes. É uma forma de renovar a oferta sem afastar os clientes dos pratos que já conhecem e procuram.
A nossa prova
Na nossa experiência começámos pela French Toast, servida com pão brioche dourado em manteiga, pera confitada em cardamomo e anis estrelado, compota de morango, crème anglaise, gelado de nata, sementes de papoila e amêndoas. Custa 8 euros e chega à mesa com uma apresentação tão tentadora quanto a descrição deixa antever.
Com tantos componentes, existia o risco de o resultado se tornar excessivamente doce ou confuso. Não aconteceu. A pera e as especiarias equilibram a riqueza do brioche, do creme e do gelado. As amêndoas acrescentam textura e a compota introduz alguma acidez. Não é propriamente uma escolha modesta, mas também não era essa a intenção. Rapámos o prato e não ficou uma migalha de pão, o melhor indicador possível de que o conjunto agradou.
As mini panquecas acompanhadas por chocolate quente também desapareceram rapidamente. Fofas, leves e perigosamente fáceis de comer, agradam às crianças e aos adultos, mesmo àqueles que juram ter pedido apenas para provar. Não julgamos nenhuma das opções.
Para aliviar a consciência, passámos ao Iogurte de Matcha, que combina iogurte grego, banana, morangos, mirtilos, pistácios e mel. O matcha está presente, mas não domina. A sua presença ajuda a equilibrar a fruta e o mel, tornando o conjunto muito mais interessante do que um simples iogurte.
O Pudim de Iogurte e Chia junta manga, sementes de chia, sementes de abóbora, amêndoas e mel. Tem frescura, diferentes texturas e revelou-se bastante saciante. A manga dá-lhe um lado mais tropical, enquanto as sementes e os frutos secos evitam que a consistência se torne monótona. Custam 6 euros e 5,50 euros, respetivamente.
Sumos naturais
Nos sumos, provámos o Ironic e o Tan /10, ambos a 4,50 euros. O primeiro tem por base a beterraba, que lhe dá uma cor intensa e um sabor com personalidade. Gostámos muito, embora seja fácil perceber que possa dividir opiniões. A beterraba não é consensual e aqui sente-se, sem ser escondida por uma quantidade exagerada de fruta mais doce.
O Tan /10 segue um caminho diferente. É mais fresco, leve e fácil de beber, com um perfil capaz de agradar a um leque bastante mais alargado de palatos. Funciona bem com as propostas doces, mas também pode acompanhar uma refeição salgada. Dois sumos distintos e igualmente bem conseguidos.
No final, percebe-se por que motivo tantos clientes regressam. Come-se bem, o serviço é simpático e eficiente, a carta tem variedade e ninguém parece preocupado em contar o tempo que passámos à mesa. Talvez seja essa a explicação mais simples para o hygge: sentirmo-nos bem no lugar onde decidimos passar um (bom) momento.
Artigo por Rui Reis






