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Há figuras que parecem imunes ao passar do tempo, imortais na sua própria humanidade. Jorge Palma era uma delas. O músico e compositor português faleceu aos 76 anos, vítima de uma paragem cardiorrespiratória, silenciando uma das vozes mais autênticas, livres e consensuais do panorama cultural nacional.
A notícia mobilizou o país num abraço coletivo de condolências. Do Presidente da República aos jovens músicos que nele encontravam uma bússola, a reação foi unânime: Portugal despediu-se de um dos seus maiores contadores de histórias, um homem que soube transformar as fragilidades da vida na matéria-prima das suas canções.
Do Conservatório às Ruas da Europa
Nascido em Lisboa em 1950, a relação de Jorge Palma com o piano começou cedo, ainda na infância, culminando no Conservatório de Música de Lisboa. Mas a solenidade das salas eruditas nunca foi suficiente para conter o seu espírito inquieto. Entre a aventura de tocar nas ruas e métros de cidades europeias como Paris ou Copenhaga e o regresso a Portugal após a revolução de 1974, Palma construiu um percurso único no qual a formação clássica se cruza harmoniosamente com o folclore urbano, a atitude rock e a sensibilidade lírica.
Jorge Palma recusava rótulos. Era o virtuoso capaz de composições complexas ao piano, mas também o bardo simples que entregava hinos de guitarra ao ombro com uma honestidade desarmante.
A Banda Sonora das Nossas Vidas
Falar de Jorge Palma é percorrer o mapa afetivo de um país inteiro. Discos de originais e clássicos incontornáveis como Frágil, Deixa-me Rir, Bairro do Amor, Dá-me Lume ou Encosta-te a Mim não pertencem apenas à sua discografia; pertencem ao património emocional coletivo. São temas cantarolados em viagens de estrada, confessados em noites de boémia ou murmurados nos momentos em que a vida exige vulnerabilidade.
Nos últimos anos, o reconhecimento institucional acompanhou o amor do público: foi condecorado como Comendador da Ordem do Infante D. Henrique em 2020, lançou o aclamado álbum Vida em 2023 e recebeu recentemente o Prémio Carreira nos Prémios PLAY. No entanto, a sua maior conquista manteve-se intocada até ao fim: a proximidade genuína com as pessoas.
Artigo por Rui Reis
