É muito difícil suportar quase cinco anos de guerra. Os ucranianos surpreendem pela sua capacidade de resistência. No entanto, os políticos em Kyiv podem tomar medidas que tenham como consequência uma derrota na guerra contra Rússia ou mesmo a perda de independência
O antigo ministro da Defesa ucraniano, Mykhailo Fedorov, num comunicado em vídeo, pediu que as eleições não sejam adiadas até ao final da guerra, levantando também a questão da corrupção e das nomeações de pessoal.
“Precisamos de responder a uma questão fundamental: como deve funcionar o Estado se a guerra continuar durante anos? E a seguinte: se a guerra continuar por mais um, dois, três anos, a Rússia poderá efetivamente obter o direito de determinar quando é que os ucranianos poderão voltar a eleger o seu governo? Estou convencido de que não. A democracia não pode ser feita refém da Rússia. Lutamos precisamente porque queremos continuar a ser um Estado europeu livre. Por isso, precisamos de encontrar um mecanismo legal, seguro e realista que permita à Ucrânia restaurar um processo democrático pleno, mesmo no contexto de uma guerra prolongada”, declarou ex-ministro da Defesa ucraniano, Mykhailo Fedorov, num discurso de 9 minutos publicado no seu canal de YouTube, criado a 18 de agosto.
No entanto, ele reconhece que a organização das eleições seria difícil, pois “precisamos de garantir o direito de voto dos militares, dos milhões de ucranianos no estrangeiro e das pessoas das regiões da linha da frente”, bem como “a segurança do processo eleitoral, a independência das instituições e a confiança no resultado”.
É necessário assinalar que, para que se realizem eleições presidenciais, a Rada Suprema (Parlamento) deve anular o seu decreto que proíbe a realização de plebiscitos durante a guerra.
Fiodorov, na sua intervenção, pôs a mão nas feridas da corrupção e da dificuldade de superar a “crise sistémica de governação: “As pessoas não podem viver indefinidamente num estado onde não compreendem porque é que certas decisões são tomadas, porque é que algumas reformas avançam enquanto outras são bloqueadas. Porque é que as decisões necessárias na linha da frente hoje em dia demoram meses a serem aprovadas de gabinete para gabinete. E é especialmente perigoso quando a sociedade sente que o principal critério para nomear uma pessoa não é o seu profissionalismo, os seus resultados ou a sua capacidade de mudar o país, mas sim a sua lealdade pessoal ao sistema. Um Estado moderno não pode funcionar assim. E especialmente não um país que está a travar uma guerra pela sua existência. Também precisamos falar sobre corrupção. Não porque seja uma palavra popular, mas porque, durante a guerra, a corrupção assume um significado completamente diferente. Em tempos de paz, dinheiro roubado significa uma estrada, um hospital ou uma escola piores. Durante a guerra, dinheiro roubado pode significar um drone que não foi comprado, munições que nunca chegaram, um sistema de guerra eletrónica que não existia, um veículo que não evacuou um ferido, tecnologia que poderia ter sido produzida, mas não foi. sobreviver e vencer”.
Fedorov afirmou que a Ucrânia está a passar por uma “crise sistémica de governação”, com o antigo sistema a “viver segundo as suas próprias regras” e a “temer a mudança”.
“A Ucrânia precisa de um princípio muito simples: poder deve significar responsabilidade. Se recebeu autoridade, seja responsável pelos resultados. Se recebeu um orçamento, mostre o que realizou. Se recebeu um cargo, explique que resultados alcançou. As pessoas podem sobreviver a tempos extremamente difíceis; os ucranianos já o provaram. Mas há uma coisa que é muito difícil de suportar indefinidamente: a sensação de injustiça. Quando alguém arrisca a vida na linha da frente e alguém na retaguarda rouba durante a guerra.” “Quando as empresas pagam impostos e enfrentam ações arbitrárias por parte das autoridades. Quando uma pessoa talentosa não consegue mudar o sistema porque simplesmente ‘está fora da linha’. Quando as decisões são comunicadas ao público, mas ninguém explica porque foram tomadas. É assim que o mais importante — a confiança entre os cidadãos e o Estado — é gradualmente corroída.” “E essa confiança precisa de ser restaurada”, disse.
“Rei por uma hora…”
O discurso de Fiodorov ocorreu pouco depois de o presidente ucraniano, Volodymyr Zelensky, ter nomeado Yevhen Khmara para o cargo de Ministro da Defesa na Rada Suprema, a 18 de agosto.
Por isso, esta intervenção de Fiodorov visou, principalmente, pressionar Zelensky a aceitar o seu regresso ao cargo de Ministro da Defesa.
Como seria expectável, o gabinete de Zelensky rejeitou o apelo de Fiodorov para a realização de eleições enquanto a guerra ainda estiver em curso: “É impossível garantir a segurança das eleições. Os obstáculos à campanha eleitoral aumentaram. A proibição legal continua em vigor”, disse Mikhailo Podolyak, conselheiro da Administração Presidencial.
Durante toda esta crise, um pouco por todo o país realizaram-se manifestações a favor da reintegração de Mykhailo Fiodorov no cargo de Ministro da Defesa, mas o número de apoiantes começou a diminuir depois de ele ter apresentado o ultimato ao Presidente.
Dmytro Kozyatinsky, um dos principais organizadores dos protestos de julho e agosto em apoio do ex-ministro da Defesa ucraniano Mykhailo Fiodorov, anunciou o fim dos protestos e manifestou-se contra a realização de eleições durante uma guerra. Foi Kozyatinsky quem anteriormente convocou os ucranianos para sair à rua após a demissão de Fedorov e exigiu o seu regresso ao Ministério da Defesa e a demissão do general Oleksandr Syrsky. Agora, afirma que os protestos não se devem transformar numa luta eleitoral e que as eleições nas circunstâncias actuais representam sérios riscos para o país.
Parece contribuir também para a queda da sua popularidade a revelação do facto de Fiodorov tencionar, na próxima semana, visitar os Estados Unidos para ganhar o apoio de Donald Trump. Recordamos que o presidente norte-americano exigiu que Zelensky realize eleições mesmo em período de guerra, acusando-o de ser um “ditador”.
Segundo um analista político ucraniano, Fiodorov “perdeu imediatamente um dos seus dois trunfos: o apoio popular. Resta-lhe apenas um: a sua elevada taxa de apoio nas sondagens para o cargo presidencial. Mas mantê-lo sem o apoio de um partido político ou movimento socio-político será muito difícil para Fiodorov. Por isso, muito em breve ele enfrentará um teste: é um actor sistémico que permanecerá na elite da política ucraniana durante muito tempo, ou revelar-se-á que o antigo ministro da Defesa foi apenas um “rei por uma hora”…
Nesta situação, Zelensky terá de ter muito cuidado e não considerar que Fiodorov está afastado da corrida. Os órgãos ucranianos de combate à corrupção tornaram públicos novos materiais que já levaram à demissão de altos funcionários próximos do Presidente. Isto torna ainda mais premente a aprovação de novas leis, defendidas pela União Europeia, com vista a retirar esses órgãos de sob o controlo de Zelensky e a tornar a vida económica e política mais transparente.
Entretanto o ditador russo esfrega as mãos de contente face a esta crise e aumenta os ataques brutais contra as cidades ucranianas a fim de levar os ucranianos a aceitar as “condições de paz” ditadas pelo Kremlin.
José Milhazes, historiador e jornalista
