
O capô é comprido, a traseira curta e o V12 continua instalado à frente do condutor. Até aqui, a receita parece seguir uma das tradições mais antigas da Aston Martin. O problema ou, neste caso, a vantagem, é que o novo Valen leva cada um destes ingredientes muito mais longe.
Apresentado durante a Monterey Car Week, o Valen é a mais recente criação da Q by Aston Martin e assume desde logo um estatuto pouco discreto: é o Aston Martin de motor dianteiro mais potente de sempre e, segundo a marca britânica, o automóvel de produção com motor dianteiro mais potente do mundo.
O protagonista continua a ser o conhecido V12 biturbo de 5,2 litros, mas elevado agora aos 850 cv e 1000 Nm, estes últimos disponíveis a partir das 2500 rpm. A potência é enviada exclusivamente às rodas traseiras através de uma caixa automática ZF de oito velocidades, instalada atrás, cuja calibração foi revista com estratégias de passagem inspiradas no programa de competição do Vantage GT4.
O resultado traduz-se numa velocidade máxima limitada eletronicamente a 345 km/h e num valor-alvo de 3,1 segundos dos 0 aos 100 km/h. Números suficientemente sérios para deixar claro que o Valen não é apenas mais uma série limitada criada em torno de uma pintura exclusiva e de alguns emblemas especiais.

Menos 110 kg para começar
Por baixo da carroçaria encontra-se a arquitetura que serve de base aos atuais Aston Martin V12, mas o trabalho realizado pelo recém-criado departamento Special Vehicle Operations foi consideravelmente mais profundo.
A carroçaria é integralmente construída em fibra de carbono e o programa de redução de peso permite retirar até 110 kgrelativamente à versão base da plataforma. Carbono, alumínio, magnésio e titânio aparecem onde podem fazer diferença e há ainda um pacote opcional que leva a dieta mais longe, com braços de suspensão e mangas de eixo maquinados em alumínio maciço e parafusos de chassis em titânio. Só estes componentes permitem poupar mais 16,9 kg.
As jantes de 21 polegadas são igualmente em magnésio, reduzindo massas não suspensas, e recebem pneus Pirelli P Zero R específicos, com 275/35 à frente e uns generosos 325/30 atrás. O Valen estreia ainda a tecnologia Pirelli Cyber Tyre em alguns mercados, permitindo aos pneus transmitir informação em tempo real aos sistemas eletrónicos do automóvel.
O chassis também não ficou entregue apenas à eletrónica. A geometria da suspensão, direção, ESP e travagem receberam calibrações próprias, há amortecedores semiativos Bilstein DTX, subchassis traseiro rigidamente montado e travões carbono-cerâmicos com discos de 410 mm à frente e 360 mm atrás.

Um V12 também se ouve
Se reduzir peso era importante, esconder o V12 nunca fez parte do programa.
O sistema de escape é construído em titânio e termina em quatro ponteiras, duas superiores e duas inferiores, impressas em 3D. As superiores permanecem permanentemente abertas, enquanto as inferiores são comandadas por válvulas e entram em ação de acordo com o modo de condução.
Mais interessante é a forma como o som foi trabalhado. Em vez de simplesmente aumentar o volume, a Aston Martin procurou retirar alguma presença às frequências mais graves e salientar os tons superiores à medida que o V12 sobe de regime. As duas saídas superiores foram mesmo afinadas recorrendo a um princípio semelhante ao de um órgão de tubos, utilizando a ressonância para reforçar o crescendo nas rotações mais elevadas.

Um Aston Martin que não quer passar despercebido
Visualmente, também não existem grandes concessões à discrição. O Valen mantém as proporções clássicas de um Aston Martin com motor central-dianteiro, mas praticamente tudo o resto parece ter sido puxado alguns graus na direção do exagero.
Os faróis são extremamente finos e surgem recuados sob as extremidades do capô. A grelha tornou-se mais geométrica, o splitter dianteiro mais agressivo e as enormes saídas laterais extraem ar das cavas das rodas antes de o conduzirem ao longo dos flancos.
Atrás desaparecem o vidro traseiro convencional e a habitual tampa da bagageira. No seu lugar surge um portão sólido, com uma pequena asa integrada e uma barra luminosa a toda a largura. Mesmo assim, sobra uma bagageira com 170 litros, para a qual a Aston Martin criou, naturalmente, um conjunto de malas específico.
O exemplar apresentado em Monterey mostra também aquilo que a Q by Aston Martin pode fazer quando recebe liberdade quase total. A pintura Satin Andromeda Red mistura vermelho, cobre, dourado e tonalidades azuladas através de pigmentos Chromaflair.

Por dentro, menos ruído visual
O habitáculo segue uma lógica semelhante à do exterior, mas sem cair na tentação de transformar tudo num espetáculo digital.
A nova consola central é mais estreita e orientada para o condutor, recorrendo a componentes impressos em 3D e incorporando alguns dos comandos apresentados no Valhalla. O ecrã central mantém-se, mas assume uma posição mais inclinada para acompanhar as novas formas do habitáculo.
Há dois tipos de bancos: Sports Plus, pensados para conciliar apoio e conforto em viagem, ou estruturas mais leves em fibra de carbono para quem pretenda levar a vertente dinâmica mais a sério.
Depois entra em cena a Q by Aston Martin. Pele semianilina, Alcantara, diferentes padrões de acolchoamento, elementos anodizados, fibra de carbono e inúmeras combinações cromáticas permitem tornar cada um dos 150 carros praticamente único.
As primeiras entregas estão previstas para o segundo trimestre de 2027. O Valen junta-se assim a uma linhagem de Aston Martin muito especiais que inclui nomes como One-77, Victor, Valour e Valiant, mas segue uma receita própria: mais potência, menos peso e uma abordagem consideravelmente mais agressiva à tradicional fórmula GT britânico.
Artigo por Rui Reis
