A humanidade poderá estar mais perto de encontrar um planeta semelhante à Terra do que alguma vez imaginámos. Pelo menos, essa é a convicção de Pete Worden, antigo diretor do NASA Ames Research Center, que acredita que a descoberta de uma “Terra 2.0” poderá acontecer já na próxima década. Uma perspetiva fascinante, partilhada perante uma plateia que lotou o Convento São Francisco, em Coimbra, durante o GLEX Ignition 2026.
Organizado pela Expanding World Portugal, em parceria com o The Explorers Club, de Nova Iorque, o encontro reuniu astronautas, cientistas e exploradores internacionais nos dias 29 e 30 de outubro. Em comum, a vontade de compreender melhor o Universo, mas também de encontrar respostas para alguns dos grandes desafios que a humanidade enfrenta.
Uma segunda Terra no horizonte
«Acredito que a Terra 2.0 existe algures no Universo e que vamos encontrá-la, espero que na próxima década.» A afirmação de Pete Worden foi uma das mais entusiasmantes do encontro e traduz o otimismo que acompanha os recentes avanços na exploração espacial.
À medida que os instrumentos científicos se tornam mais sofisticados, aumenta também a capacidade de identificar planetas com características semelhantes às do nosso. Naturalmente, encontrar um mundo potencialmente habitável não significa descobrir vida extraterrestre, mas seria um passo importante para responder a uma das perguntas mais antigas da humanidade: estaremos sozinhos no Universo?
Sue Smrekar, geofísica planetária da NASA e responsável pela missão VERITAS, trouxe outra perspetiva. Estudar Vénus, um planeta que apresenta condições radicalmente diferentes das terrestres, poderá ajudar os investigadores a compreender melhor o que torna um mundo habitável.

A Lua ainda tem segredos por revelar
A exploração lunar ocupou igualmente um lugar de destaque. Kelsey Young, cientista da NASA envolvida nos objetivos científicos da missão Artemis II, partilhou algumas das observações realizadas pelos astronautas durante a viagem à Lua, incluindo pequenos clarões luminosos na superfície lunar, possivelmente provocados por impactos de micrometeoritos.
Apesar de discretos, estes fenómenos poderão fornecer informações importantes sobre o ambiente lunar e os riscos que futuras missões terão de enfrentar.
Para Andreas Mogensen, astronauta da Agência Espacial Europeia e antigo comandante da Estação Espacial Internacional, o regresso de seres humanos à superfície da Lua representa uma oportunidade extraordinária de descoberta. O dinamarquês acredita mesmo que esta poderá ser a grande viagem de exploração da nossa geração.
Mas os horizontes estendem-se muito para além da Lua. Cameron Hummels, astrofísico do California Institute of Technology, abordou a aproximação entre a Via Láctea e Andrómeda, duas galáxias cujo futuro poderá passar por uma fusão dentro de milhares de milhões de anos.
A última fronteira pode estar na Terra
Curiosamente, uma das mensagens mais pertinentes do GLEX Ignition não surgiu da procura de novos mundos, mas da necessidade de proteger aquele que habitamos.
Lola Fatoyinbo, ecologista espacial e antiga cientista da NASA, recordou que a tecnologia desenvolvida para observar o espaço tem também um papel fundamental na conservação das florestas e dos ecossistemas costeiros.
«Para mim, o espaço não é a última fronteira. A última fronteira é a Terra», afirmou, lembrando que os satélites são hoje instrumentos essenciais para compreender as transformações ambientais.
A mesma preocupação esteve presente nas intervenções de outros exploradores. Alizé Carrère, cientista da National Geographic, defendeu uma adaptação às alterações climáticas que permita às comunidades prosperar, enquanto o surfista e investigador havaiano Cliff Kapono apresentou a ambição de mapear um milhão de recifes de coral até 2030.
Da Amazónia chegou outro exemplo de como a ciência pode encontrar respostas nos lugares mais inesperados. A bióloga indígena Avita Taricuarima revelou resultados preliminares de investigações com microrganismos cuja capacidade para degradar determinados plásticos está a ser estudada em laboratório.

Houve ainda espaço para abordagens menos convencionais, como a de David Ibbett, compositor do Center for Astrophysics | Harvard & Smithsonian, que transforma dados científicos sobre buracos negros, galáxias e ondas gravitacionais em experiências musicais.
O futuro começa com uma pergunta
Mais do que uma sucessão de conferências, o GLEX Ignition procurou estabelecer pontes entre ciência, tecnologia e investimento. O encontro incluiu ainda o Coimbra Supernova – Frontiers in Action, um fórum destinado a aproximar investigadores, instituições científicas, empresas e investidores.
Para Coimbra, foi também uma oportunidade de reforçar a sua ligação à investigação e à exploração científica internacional.
No final, entre hipóteses de encontrar uma segunda Terra, novas viagens à Lua e soluções para preservar os oceanos e as florestas, ficou uma mensagem particularmente simples.
Richard Wiese, presidente emérito do The Explorers Club e cofundador do GLEX, resumiu-a numa expressão que talvez explique melhor do que qualquer outra a essência da exploração: “Ainda não sabemos”.
Artigo por Rui Reis



