
O novo relatório do Programa das Nações Unidas para o Ambiente alerta que as políticas climáticas atuais são insuficientes para travar o aquecimento global. A ZERO defende o abandono progressivo dos combustíveis fósseis, a aceleração das energias renováveis e um maior investimento na adaptação às alterações climáticas, incluindo em Portugal.
O mundo está a perder a corrida contra as alterações climáticas. De acordo com o Emissions Gap Report 2026, divulgado pelo Programa das Nações Unidas para o Ambiente (PNUA), as políticas atualmente em vigor poderão conduzir a um aquecimento global de cerca de 2,8°C até ao final do século, face aos níveis pré-industriais. Mesmo que os compromissos climáticos assumidos pelos países sejam cumpridos, a subida poderá chegar aos 2,6°C.
Os números reforçam a distância entre as medidas anunciadas pelos governos e aquilo que a ciência considera necessário para limitar os impactos das alterações climáticas. Em 2025, as emissões globais mantiveram-se próximas do máximo histórico, atingindo 58,4 mil milhões de toneladas de dióxido de carbono equivalente (CO₂e), sem sinais de uma redução sustentada.
Perante este cenário, a associação ambientalista ZERO alerta que a oportunidade de evitar que o aquecimento ultrapasse 1,5 °C sem uma excedência significativa já foi perdida. Isso não significa, contudo, que o objetivo de limitar o aquecimento global tenha deixado de ser relevante.
“Cada décima de grau evitada, e cada ano a menos acima desse limiar, reduzem riscos para a saúde, a água, a produção alimentar e os ecossistemas”, sublinha a associação.
A distância entre as promessas e a realidade
Para limitar ao mínimo possível a ultrapassagem de 1,5°C, o relatório aponta para a necessidade de reduzir as emissões globais em 18% até 2030, 45% até 2035 e 69% até 2040, tomando como referência os níveis de 2025.
Os compromissos nacionais atualmente assumidos ficam muito aquém destes valores. Segundo a ZERO, as promessas dos países apenas permitiriam reduções entre 5% e 8% até 2030 e entre 11% e 15% até 2035.
A diferença entre o que é necessário e aquilo que está previsto evidencia a dimensão do desafio. Não basta anunciar metas de longo prazo: é preciso transformar os compromissos em reduções efetivas das emissões, com medidas concretas e resultados verificáveis.
O relatório identifica ainda uma trajetória mais ambiciosa, que permitiria limitar o pico do aquecimento a cerca de 1,7 a 1,8°C e regressar a 1,5°C até 2100, com uma probabilidade de aproximadamente 50%. Este cenário exigiria cortes imediatos e profundos nas emissões, além de uma utilização em larga escala de tecnologias de remoção de dióxido de carbono, cuja concretização permanece incerta.
Abandonar os combustíveis fósseis e acelerar as renováveis
A prioridade deverá passar pela definição de um roteiro justo, calendarizado e financiado para abandonar o carvão, o petróleo e o gás fóssil. Em paralelo, será necessário acelerar a expansão da energia solar e eólica, melhorar a eficiência energética e eletrificar progressivamente atividades que continuam dependentes de combustíveis fósseis.
A associação destaca que o próprio relatório reconhece que as energias renováveis avançaram mais rapidamente do que se previa há uma década. Este progresso demonstra que a transição energética é possível, embora seja necessário aumentar a escala e a velocidade da sua implementação.
A União Europeia tem, neste contexto, um papel importante a desempenhar, segundo a ZERO que defende o reforço da execução das políticas climáticas europeias, o apoio aos países mais vulneráveis aos impactos do aquecimento global e a apresentação de resultados concretos na próxima Conferência das Nações Unidas sobre Alterações Climáticas, a COP31, que terá lugar na Turquia, em novembro de 2026.
Entre os compromissos a concretizar estão o triplicar da capacidade de produção de energia renovável e a duplicação do ritmo de melhoria da eficiência energética até 2030.
O que Portugal precisa de fazer
Em Portugal, a resposta às alterações climáticas terá de combinar duas frentes: a mitigação, através da redução das emissões de gases com efeito de estufa, e a adaptação aos impactos que já se fazem sentir ou que se tornarão mais intensos nas próximas décadas.
Na mitigação, a ZERO considera prioritário acelerar a aplicação da Lei de Bases do Clima e do Plano Nacional de Energia e Clima, com metas claras, responsáveis identificados, financiamento adequado e mecanismos que permitam avaliar os resultados.
Os transportes representam um dos principais desafios. Responsáveis por cerca de 35% das emissões nacionais em 2024, os transportes terão de sofrer – sublinha a ZERO – uma mudança estrutural que reduza a dependência do automóvel individual e reforce a ferrovia e os transportes públicos. A associação defende também a eletrificação prioritária das frotas de utilização intensiva e do transporte de mercadorias.
A intervenção deverá estender-se aos edifícios, através da reabilitação energética e do combate à pobreza energética, e à indústria, com medidas que reduzam a dependência dos combustíveis fósseis, prossegue na sua análise a ZERO.
No setor energético, será necessário acelerar a instalação de projetos de energia renovável em localizações adequadas e compatíveis com a conservação da biodiversidade. O reforço das redes elétricas, das interligações e da capacidade de armazenamento, bem como uma melhor gestão da procura, serão igualmente essenciais para integrar mais produção renovável no sistema, complementam os ecologistas.
A ZERO defende ainda que seja avaliado o abandono do gás fóssil na produção de eletricidade até 2035. Para a associação, o Orçamento do Estado para 2027 e o Plano Social para o Clima deverão traduzir estas prioridades em investimento e apoio efetivo às famílias, evitando a perpetuação de atrasos e dependências energéticas.
Adaptar o país a um clima mais extremo
Reduzir as emissões não elimina a necessidade de preparar o território para os efeitos das alterações climáticas. Ondas de calor mais intensas, secas, incêndios rurais, episódios de precipitação extrema e erosão costeira estão entre os riscos para os quais Portugal terá de reforçar a sua capacidade de resposta.
A Estratégia Nacional de Adaptação às Alterações Climáticas 2030 deverá, segundo a ZERO, dispor de financiamento, prazos e metas concretas, com uma integração efetiva no ordenamento do território.
Entre as medidas apontadas estão a proteção das populações mais vulneráveis, a utilização mais eficiente da água e a adaptação de edifícios, escolas e serviços de saúde. Nas cidades, a criação de zonas de sombra e de refúgios climáticos poderá ajudar a reduzir a exposição ao calor extremo.
A associação destaca ainda a importância do restauro dos ecossistemas e das soluções baseadas na natureza, articuladas com os planos municipais e regionais. Estas medidas podem contribuir para aumentar a resiliência dos territórios, reduzir riscos e proteger a biodiversidade.
A mitigação e a adaptação não devem, por isso, ser tratadas como objetivos separados. Evitar emissões reduz a dimensão dos riscos futuros, enquanto investir na resiliência ajuda a proteger vidas, comunidades e atividades económicas perante os impactos que já não podem ser totalmente evitados.
Em suma, o cenário de um mundo 2,8°C mais quente até 2100 não é inevitável, mas evitá-lo exige uma mudança de ritmo nas políticas climáticas e nas decisões de investimento. A margem para agir está a diminuir e as promessas, por si só, não serão suficientes.
Como sublinha a ZERO, a oportunidade de evitar uma ultrapassagem significativa de 1,5°C já foi perdida. O desafio agora é impedir que o mundo se aproxime de cenários ainda mais perigosos. Porque, no combate às alterações climáticas, cada décima de grau conta.
