Durante este fim de semana, Lousada volta a ser um dos centros do desporto automóvel europeu. E desta vez não se trata apenas do regresso dos melhores especialistas do Ralicross a um circuito que conhece a modalidade como poucos. Os quatro títulos do Campeonato da Europa FIA Euro RX 2026 serão decididos em Portugal, num programa de jornada dupla que inclui um momento inédito: a primeira corrida noturna da história do Europeu.
Quem nunca viu Ralicross ao vivo talvez tenha dificuldade em perceber a intensidade da modalidade. Aqui não há carros a partir isoladamente contra o cronómetro. Vários pilotos alinham lado a lado, enfrentam-se diretamente em corridas curtas, num traçado que mistura asfalto e terra, e chegam quase sempre à primeira curva com muito pouco espaço disponível para tanta ambição. Travagens tardias, derrapagens, saltos, mudanças de aderência e a estratégica joker lap fazem o resto.
Em Lousada, onde o circuito funciona quase como um anfiteatro natural, o público está particularmente próximo da ação. E isso ajuda a perceber por que razão o Ralicross criou aqui uma relação especial com várias gerações de adeptos.

600 cv e cerca de dois segundos até aos 100 km/h
No topo da pirâmide está a Euro RX1. Os carros têm cerca de 600 cv, tração integral e são capazes de passar dos 0 aos 100 km/h em aproximadamente dois segundos. Por baixo das carroçarias que ainda permitem reconhecer modelos como o Hyundai i20, Peugeot 208, Volkswagen Polo ou Ford Fiesta escondem-se autênticas máquinas de competição.
É precisamente na RX1 que encontramos o duelo mais aguardado do fim de semana. Andreas Bakkerud chegou a Portugal na liderança do campeonato, apenas um ponto à frente de Johan Kristoffersson. De um lado, um norueguês com três títulos europeus; do outro, o sueco que já conquistou por oito vezes o Campeonato do Mundo de Ralicross e procura acrescentar a coroa europeia ao currículo. Depois de cinco rondas, tudo ficou guardado para Lousada.
E haverá duas oportunidades para mudar tudo. Pela primeira vez esta temporada, o Europeu disputa uma jornada dupla, com uma ronda completa no sábado e outra no domingo. Cada qualificação, cada partida e cada ponto podem, por isso, mexer nas contas do campeonato.

A noite em que Lousada entra para a história
O momento mais especial chega este sábado, quando as luzes artificiais substituírem definitivamente o sol. Depois de os pilotos terem realizado na sexta-feira uma primeira sessão noturna de adaptação, qualificações, meias-finais e finais levam a competição pela noite dentro. A final de RX1 está prevista para as 21h40, encerrando uma sequência de decisões praticamente sem interrupções.
Será a primeira prova noturna da história do Campeonato da Europa FIA de Ralicross. Num desporto onde fogo dos escapes, pó, terra e carros a correr lado a lado já garantem espetáculo durante o dia, é fácil imaginar o efeito visual quando tudo acontecer debaixo dos holofotes.
Mas sábado será apenas metade da história. No domingo há uma nova ronda completa e só ao final da tarde serão conhecidos definitivamente os campeões de 2026.

Quatro títulos e uma forte armada portuguesa
A decisão não se limita à RX1. Também na RX3 está tudo em aberto, com o lituano Rytis Gurklys a chegar a Lousada perseguido pelo francês Julien Meunier. Já as recém-criadas RX4 e RX5 vão coroar em Portugal os primeiros campeões europeus da história das duas categorias.
A dimensão da prova percebe-se também pela lista de inscritos definitiva: 68 pilotos de 17 nacionalidades nas quatro principais categorias, dos quais 19 portugueses, o maior contingente nacional presente em Lousada.
Sete competem na categoria principal, incluindo João Ribeiro, ao volante de um Hyundai i20 N RX, José Oliveira, com o Peugeot 208 WRX, e Sérgio Dias, recém-coroado Campeão Nacional de 2026, que leva para a pista um Ford Fiesta RX43 anteriormente pilotado por Ken Block. Na RX3, nada menos do que dez dos 17 inscritos são portugueses. Hélder Ferreira representa Portugal na RX4 com o novo Lancia Ypsilon HF, enquanto Tiago Costa compete nos Kartcross da RX5.
Uma história que começou muito antes deste fim de semana
O regresso do Europeu tem também um significado particular para Lousada. Entre 1991 e 2008, o circuito recebeu regularmente a competição continental e tornou-se um dos palcos mais reconhecidos da modalidade. O investimento realizado nos últimos anos permitiu modernizar profundamente o complexo e recuperar o estatuto internacional, primeiro com o regresso do Mundial de Ralicross em 2025 e agora com esta grande final europeia.
Quase quatro décadas depois da fundação do Clube Automóvel de Lousada, a ligação mantém-se. Mudaram os carros, evoluíram as instalações e chegaram novas categorias, mas a fórmula continua essencialmente a mesma: muita potência, muito pouco espaço e vários pilotos convencidos de que aquela curva lhes pertence.
Este fim de semana há ainda quatro títulos europeus para provar quem tem razão.
Artigo por Rui Reis

