
Um relatório da Sociedade Portuguesa para o Estudo das Aves (SPEA) revela uma tendência negativa nas populações de aves associadas aos meios agrícolas. A laverca e a águia-caçadeira estão entre as espécies que apresentam os declínios mais acentuados.
As aves associadas aos meios agrícolas estão em declínio em Portugal há mais de duas décadas. A conclusão resulta do mais recente relatório do Censo de Aves Comuns da Sociedade Portuguesa para o Estudo das Aves (SPEA), que analisa dados recolhidos entre 2004 e 2025 e identifica tendências preocupantes em várias espécies.
O indicador das aves dos meios agrícolas apresenta uma evolução negativa, à semelhança do indicador geral das aves comuns, baseado em 64 espécies. Em sentido contrário, as aves associadas aos meios florestais e urbanos registam uma evolução positiva, embora essa tendência não seja suficiente para compensar a perda de biodiversidade nos espaços agrícolas.
“Os resultados deixam um alerta claro: a biodiversidade dos meios agrícolas continua sob forte pressão”, afirma Hany Alonso, coordenador nacional do Censo de Aves Comuns e Técnico Sénior de Ciência da SPEA. “Manter séries de dados de longo prazo e aumentar a cobertura do censo é essencial para detetar estas mudanças e orientar medidas de conservação eficazes.”
Entre as 23 espécies de meios agrícolas avaliadas regularmente, 10 apresentam um declínio moderado no período analisado. É o caso da andorinha-das-chaminés, do mocho-galego e do abelharuco, mas também do peneireiro, do cartaxo e do pardal.
A situação é particularmente preocupante para a laverca e a águia-caçadeira, que apresentam declínios acentuados. A perdiz-comum, o chasco-ruivo e o rouxinol-grande-dos-caniços apresentam igualmente tendências negativas.
Nos meios florestais, a evolução é globalmente mais favorável, mas também existem sinais de alerta. Das 20 espécies analisadas, cinco apresentam um declínio moderado: o picanço-barreteiro, o cuco, a rola-brava, a cotovia-dos-bosques e o chapim-real.
O relatório mostra ainda que a redução das populações de aves não está limitada a um único grupo alimentar. O fenómeno atravessa diferentes grupos funcionais, incluindo espécies insetívoras, granívoras e carnívoras, e afeta tanto aves residentes como migradoras.
Mais dados para acompanhar as mudanças
O Censo de Aves Comuns é realizado pela SPEA desde 2004 e permite acompanhar a evolução das populações de aves nidificantes, produzindo indicadores sobre o estado dos principais ecossistemas em Portugal.
A edição de 2025 contou com uma participação particularmente elevada. Em Portugal Continental foram monitorizadas 52 quadrículas de 10 por 10 quilómetros, mais 40% do que nos anos anteriores e o valor mais elevado desde 2014. O trabalho envolveu 1040 pontos de escuta e a participação de observadores voluntários.
Nos Açores, o censo chegou às nove ilhas, com 20 quadrículas monitorizadas. Foram calculadas tendências para 17 espécies, destacando-se o aumento acentuado da rola-turca e as tendências negativas da toutinegra-dos-Açores e do milhafre.
Na Madeira, foram abrangidas cinco quadrículas e 86 pontos de escuta. Neste caso, não foram estimadas tendências populacionais, mas os últimos censos identificaram o canário-da-terra, o melro-preto e a toutinegra como as espécies mais abundantes.
Para a SPEA, o aumento da participação e da cobertura do censo representa uma melhoria importante na capacidade de acompanhar as alterações das populações de aves em Portugal. A continuidade destas séries de dados depende, contudo, da participação de voluntários e de financiamento estável para a recolha, análise e divulgação da informação.
Os resultados dos últimos 22 anos deixam, assim, um sinal particularmente claro sobre os meios agrícolas: apesar da evolução positiva observada noutros habitats, estes ecossistemas continuam a perder algumas das espécies que deles dependem.
