
Num tempo em que o automóvel parece cada vez mais interessado em disputar a atenção do condutor, a Hispano Suiza escolheu uma direção diferente. Em vez de transformar o habitáculo numa montra de ecrãs, aplicações e notificações, colocou a tecnologia a trabalhar longe dos olhares, concentrada naquilo que realmente importa: executar com rigor aquilo que é pedido por quem segura o volante.
É esta a filosofia da chamada Tecnologia Invisível, uma abordagem que encontra no Carmen Sagrera a sua expressão mais evoluída. A eletrónica está presente em praticamente todos os momentos da condução, mas procura nunca se tornar protagonista. Atua para tornar cada aceleração, travagem e mudança de direção mais precisa, previsível e natural, sem criar uma barreira artificial entre o homem e a máquina.
No centro desta arquitetura encontra-se o Hispano Suiza Driver Dynamics, ou HSDD, o sistema próprio de controlo dinâmico da marca espanhola. A sua função é coordenar a estabilidade, a tração, a travagem regenerativa, a gestão do binário, a distribuição da potência e os diferentes modos de condução.
Não se trata de ensinar o automóvel a conduzir pelo proprietário, mas de dar ao condutor as ferramentas necessárias para explorar um hypercar elétrico com 820 kW, equivalentes a 1115 cv, 1160 Nm e capacidade para cumprir os 0 aos 100 km/h em 2,6 segundos.
Quatro motores, apenas duas rodas motrizes
Mais do que a potência absoluta, é a configuração mecânica do Carmen Sagrera que ajuda a compreender a importância do HSDD.
O sistema de propulsão utiliza quatro motores elétricos de fluxo axial e ímanes permanentes, cada um com 205 kW. Estão instalados em pares: dois associados à roda traseira esquerda e os restantes à roda traseira direita. Apesar dos quatro motores, toda a potência é enviada exclusivamente ao eixo traseiro.
A Hispano Suiza prescindiu de uma ligação mecânica convencional entre as duas rodas motrizes. Em seu lugar encontra-se um diferencial autoblocante virtual, controlado por software, que ajusta continuamente o binário enviado a cada lado do eixo traseiro. A solução permite adaptar a resposta do automóvel durante a aceleração e à saída das curvas, sem acrescentar o peso e a inércia de um diferencial tradicional.
Num automóvel com mais de 1100 cv, binário instantâneo e tração traseira, esta capacidade de controlo não é um detalhe. É aquilo que separa uma demonstração de força difícil de dominar de uma experiência que pode ser progressivamente explorada.
O desafio não está apenas em colocar toda a potência no asfalto. Está em permitir que o condutor perceba o limite de aderência, module o acelerador e sinta as reações do chassis sem que um corte brusco de potência interrompa a ligação com o automóvel.

O cérebro por detrás da força
O HSDD reúne os diferentes sistemas de software responsáveis pelo comportamento dinâmico do Carmen Sagrera. Entre os parâmetros analisados encontram-se a posição e a velocidade de rotação do volante, o curso do acelerador, a pressão exercida sobre o pedal do travão, a velocidade individual das rodas, o movimento de guinada do chassis, o curso dos amortecedores e a aceleração nos três eixos.
A eletrónica monitoriza ainda o estado de carga da bateria, a corrente, a tensão e as temperaturas do sistema elétrico, além da pressão atmosférica e da altitude. A conjugação destes dados permite adaptar o funcionamento do automóvel às condições reais de utilização, em vez de depender apenas de programas pré-definidos.
Entre as funções coordenadas pelo HSDD está o Grip Enhancement System, dedicado à gestão da tração, e o Active Yaw Modulation, responsável por controlar os movimentos de rotação do automóvel em torno do seu eixo vertical.
Existe ainda o Electronic Torque Stabiliser, que utiliza a capacidade regenerativa dos motores para aplicar binário negativo de forma independente às rodas traseiras. A regeneração deixa, assim, de servir apenas para recuperar energia: passa também a ser utilizada como ferramenta de estabilização do chassis.
Ao desacelerar seletivamente uma das rodas traseiras, o sistema pode ajudar a controlar a trajetória sem recorrer imediatamente aos travões de fricção. A intervenção contribui simultaneamente para a estabilidade, para a eficiência energética e para uma resposta mais fluida.

Uma bateria desenvolvida em Barcelona
O Carmen Sagrera utiliza a segunda geração de baterias da Hispano Suiza, desenvolvida e produzida nas instalações da marca em Montmeló, nos arredores de Barcelona.
O conjunto tem 103 kWh de capacidade e é composto por 360 células de iões de lítio, distribuídas por 15 módulos de 24 células. Pesa 612 kg e trabalha com uma tensão máxima superior a 750 volts. A marca anuncia até 480 quilómetros de autonomia no ciclo WLTP, cerca de 100 quilómetros mais do que nos anteriores modelos da gama Carmen.
A bateria encontra-se numa estrutura central em forma de T. Esta disposição permite concentrar uma parte considerável da massa no centro do automóvel, contribuindo para uma distribuição de pesos mais equilibrada e para uma resposta mais previsível nas mudanças de direção.
De acordo com dados divulgados pela Hispano Suiza no Goodwood Festival of Speed, o Sagrera apresenta um peso em ordem de marcha de aproximadamente 1875 kg, embora o valor possa variar consoante a configuração escolhida pelo proprietário. Mede 4,77 metros de comprimento, 2,38 metros de largura e apenas 1,24 metros de altura.
São números que ajudam a colocar em perspetiva o trabalho do HSDD. A eletrónica não gere apenas uma enorme reserva de potência, mas também um veículo largo, baixo e pesado, capaz de gerar acelerações longitudinais e laterais muito elevadas.
A gestão térmica assume, por isso, particular importância. A potência máxima de um hypercar elétrico só pode ser repetida de forma consistente quando a temperatura da bateria, dos inversores e dos motores permanece dentro dos valores ideais.

Afinado por um antigo piloto de Fórmula 1
A calibração do Carmen Sagrera foi desenvolvida através de simulações e de testes realizados em estrada e em circuito. Uma parte importante desse trabalho ficou a cargo de Luis Pérez-Sala, piloto de desenvolvimento e embaixador da Hispano Suiza.
O espanhol disputou duas temporadas de Fórmula 1, em 1988 e 1989, antes de construir uma longa carreira nas competições de turismos. Essa experiência foi aplicada à afinação dos sistemas eletrónicos, com o objetivo de encontrar um ponto de equilíbrio entre segurança, liberdade e naturalidade de resposta.
Pérez-Sala conduziu o Sagrera na sua primeira apresentação dinâmica pública, durante o Goodwood Festival of Speed de 2024. O automóvel percorreu a tradicional subida britânica apenas um mês depois de ter sido apresentado em Barcelona.
O papel de um piloto de testes neste processo não é apenas determinar a velocidade a que o automóvel consegue passar numa curva. É perceber como o sistema reage quando o condutor se aproxima do limite, qual a progressividade do controlo de tração e até que ponto a eletrónica permite corrigir uma trajetória através do acelerador e do volante.
Num automóvel exclusivamente elétrico, a ausência de ruído mecânico e de passagens de caixa torna a comunicação através da direção, dos pedais e do chassis ainda mais importante. O HSDD procura compensar essa menor riqueza sonora com uma resposta física clara e previsível.
Travar e curvar à altura dos números
O controlo dinâmico não teria o mesmo efeito sem uma base mecânica capaz de responder às ordens do software.
O Carmen Sagrera utiliza uma estrutura monocoque e painéis de carroçaria em fibra de carbono. A suspensão recorre a duplos triângulos nos dois eixos, amortecedores reguláveis em compressão e extensão, molas ajustáveis em altura e rigidez e barras estabilizadoras.
A Hispano Suiza afirma ter utilizado nos braços da suspensão e nos semieixos um material de especificação militar até oito vezes mais resistente do que o aço convencional. A escolha procura combinar elevada resistência estrutural com redução das massas não suspensas.
A travagem fica a cargo de discos carbocerâmicos de 400 mm nos dois eixos, acompanhados por pinças monobloco. Segundo a marca, esta solução permitiu reduzir 500 gramas de peso e aumentar em cerca de 5% a capacidade de travagem face à configuração anterior. Os discos foram concebidos para suportar temperaturas próximas dos 1000 graus Celsius durante uma utilização intensiva em circuito.
O contacto com o asfalto é assegurado por pneus Michelin Pilot Sport 4S desenvolvidos especificamente para o modelo. Têm medidas 265/30 ZR19 à frente e 305/30 ZR20 atrás, com desenhos nas paredes laterais inspirados na cegonha do símbolo da Hispano Suiza e nos mosaicos de Antoni Gaudí.
Mais do que uma personalização estética, os pneus fazem parte da cadeia de controlo do HSDD. É através deles que cada cálculo de distribuição de binário, regeneração ou controlo de estabilidade acaba por ser transformado numa força física sobre o asfalto.

Aerodinâmica com asas de cegonha
A enorme asa traseira dividida é o elemento visual mais evidente do Carmen Sagrera. A forma procura evocar as asas de uma cegonha, símbolo histórico da Hispano Suiza e referência aos motores de aviação produzidos pela empresa no início do século XX.
A aerodinâmica e a eletrónica trabalham em conjunto. Quanto maior for a velocidade, maior será a influência da carga aerodinâmica sobre a aderência disponível. O HSDD pode utilizar essa informação para permitir respostas diferentes em curvas rápidas e lentas, adaptando a entrega de potência à capacidade real do chassis e dos pneus.
O Carmen Sagrera é o terceiro modelo da atual família Carmen, depois do Carmen de 2019 e do Carmen Boulogne de 2020. A gama está limitada a um total de 24 unidades, construídas artesanalmente e personalizadas de acordo com as preferências de cada proprietário.
Quando o Sagrera foi apresentado, o preço base indicado rondava os 2,5 milhões de euros antes de impostos e personalização. Mais do que competir através de volumes, a Hispano Suiza posiciona o automóvel como objeto de coleção e expressão de individualidade.
Em 2024, a marca assinou um acordo com a C Santos VP para a distribuição dos seus modelos no mercado português, aproximando a gama Carmen de potenciais clientes e colecionadores nacionais.
É neste contexto que a Hispano Suiza recupera o conceito de Gentleman Driver. Historicamente, a expressão descrevia o proprietário abastado que, sem ser piloto profissional, competia e explorava automóveis de elevadas prestações.
Artigo por Rui Reis
