
Luís Represas morreu esta quarta-feira, 22 de julho, aos 69 anos, na sequência de uma doença prolongada. A música portuguesa perde, assim, uma das suas vozes mais reconhecíveis e um autor cujo percurso acompanhou o país durante meio século, primeiro como vocalista dos Trovante e depois numa carreira a solo construída com uma identidade própria.
Nascido em Lisboa, a 24 de novembro de 1956, Luís Represas aproximou-se cedo da música e tinha apenas 19 anos quando, em 1976, participou na fundação dos Trovante, ao lado de João Gil, João Nuno Represas, Manuel Faria e Artur Costa. O grupo nasceu no ambiente cultural e político que se seguiu ao 25 de Abril, mas rapidamente ultrapassou o território mais restrito da música de intervenção, aproximando a tradição portuguesa de uma linguagem pop capaz de chegar a públicos muito diferentes.
A voz dos Trovante
Luís Represas tornou-se o rosto mais visível e, sobretudo, a voz imediatamente reconhecível dos Trovante. A força do grupo não estava apenas nas palavras ou nas melodias, mas na forma como ambas pareciam encontrar o momento certo para entrar na vida das pessoas.
“Perdidamente”, “Saudade” e “125 Azul” deixaram de pertencer apenas aos discos e passaram para os concertos, para as viagens de automóvel, para as reuniões de amigos e para aquela memória coletiva de todos os portugueses.
Quando os Trovante terminaram, em 1992, Represas teve de encontrar um caminho fora da banda que ajudara a criar. Procurou outros ambientes musicais, aproximou-se de Cuba e iniciou uma relação artística particularmente importante com Pablo Milanés. Dessa fase nasceu “Feiticeira”, tema que se tornou um dos maiores sucessos da sua carreira e ajudou a afirmar definitivamente o seu nome enquanto artista a solo.
Seguiram-se canções como “Da Próxima Vez”, “Ao Canto da Noite”, “A Hora do Lobo”, “Neva Sobre a Marginal” e “Timor”. A voz continuava a ser a mesma, mas o universo musical tornara-se mais pessoal, aberto a novas geografias e a diferentes formas de escrever sobre o amor, a ausência, o tempo e o mundo.
Uma carreira feita de encontros
Ao longo de cinco décadas, cruzou-se em palco e em estúdio com várias gerações de músicos portugueses e estrangeiros. Trabalhou com nomes como José Afonso, Fausto Bordalo Dias, Carlos do Carmo, Jorge Palma, Bernardo Sassetti, Pablo Milanés, Ivan Lins, Gilberto Gil, Martinho da Vila, Compay Segundo e Carlinhos Brown.
A música esteve igualmente ligada à sua dimensão cívica. A defesa da causa timorense marcou uma parte importante do seu percurso pessoal e profissional, levando-o a visitar Timor-Leste em 2000, integrado numa deslocação oficial do então Presidente da República, Jorge Sampaio.
Viria a ser distinguido com a Ordem de Timor-Leste e, em 2005, recebeu o grau de Comendador da Ordem do Mérito. Em 2019, foi distinguido com o Prémio Pedro Osório pelo álbum “Boa Hora”.
Luís Represas continuava ativo, entre gravações, concertos e televisão. Em 2024 editou “Miragem”, um disco gravado entre Portugal e o Brasil, e apresentava o programa “Língua Mãe”. Os Trovante voltaram ainda a reunir-se para concertos em Lisboa e no Porto, enquanto estavam previstos para 2027 novos espetáculos nos dois Coliseus, integrados nas celebrações dos seus 50 anos de carreira.
A voz calou-se, mas as canções continuarão a fazer aquilo que sempre fizeram: regressar quando menos se espera e recordar-nos as pessoas, os lugares e muitos momentos que julgávamos esquecidos.
Artigo por Rui Reis
