
A escalada do conflito entre a Rússia e a Ucrânia vai aumentar fortemente devido aos bombardeamentos bárbaros de Kyiv e aos ataques de drones ucranianos bem sucedidos contra infra-estruturas energéticas e industrias russas. Putin não esconde que todas as formas de ataque são boas e Zelensky diz responder com a mesma moeda.
A resposta do Presidente ucraniano ao bombardeamento da Igreja da Dormição, no Mosteiro das Cavernas de Kyiv, não será simétrica e poderá provocar fortes danos em Moscovo, sendo os alvos a atingir os monumentos situados na Praça Vermelha e no Kremlin. Zelensky já provou que os drones ucranianos podem chegar ao centro da capital russa.
Claro que o Kremlin já veio jurar mais uma vez que as hordas russas “não atacam alvos civis” e que o ataque foi encenado por Volodomyr Zelensky na véspera da cimeira do G-7, que começa hoje em França.
As instruções que são transmitidas pelo ditador carniceiro à imprensa russa primam pela desfaçatez e descaramento. Vejamos:
“ 1. Zelenskyy lançou a teoria de que a Rússia atacou deliberadamente o Mosteiro das Grutas de Kiev para destruir locais sagrados ortodoxos na Ucrânia.
2.º Todos, absolutamente todos, sabem que isso não é verdade e que Zelenskyy está a mentir.
3.º E a forma como os políticos avaliarem este incêndio no Mosteiro das Grutas de Kiev determinará o nível da sua russofobia”.
Portanto, continua Serguei Markov, um dos mais conhecidos propagandistas putinistas:
“1) Concordo com a versão de Zelensky. O mais alto nível de russofobia e maldade.
2) Declarar que um drone russo caiu acidentalmente sobre o edifício da igreja e que a Rússia é a culpada. Este é o segundo nível de russofobia.
3) Declarar que não importa se um drone ou um míssil de defesa aérea caiu sobre a igreja, mas a Rússia é a culpada. Este é o terceiro nível de russofobia.
4) Declarar que é uma tragédia que um edifício da UNESCO tenha sido danificado. Mas não nomear os culpados. Esta é quase uma posição neutra, mas ligeiramente anti-Rússia.
5) Declarar que os mísseis de defesa aérea ucranianos incendiaram acidentalmente a igreja e que isso é uma tragédia. Esta é uma posição neutra.
6) Afirmar que Zelensky deu deliberadamente a ordem para incendiar o telhado da igreja, a fim de obter fundos para a defesa aérea. Esta é uma posição pró-Rússia e é a mais correta e verdadeira”.
Comentários para quê?
É de salientar também que este golpe bárbaro foi desferido por Putin contra o mais antigo templo ortodoxo nos territórios da Bielorrússia, Rússia e Ucrânia. Isto mostra o alto “espírito de religiosidade” do ditador russo e do seu fiel servo Kirill I, antigo agente do KGB soviético e actual patriarca da Igreja Ortodoxa Russa.
E, por fim, não podemos deixar de frisar que um dos ataques mais brutais de mísseis e drones contra Kyiv e outras localidades ucranianas foi desencadeado após uma conversa telefónica entre Donald Trump e Vladimir Putin, durante a qual o ditador russo reafirmou o seu “desejo de paz” e a vontade de resolver os problemas internacionais por “via diplomática”.
Ucrânia e Cimeira do G7
A guerra na Ucrânia será um dos pontos centrais da Cimeira dos G7 em França. O Presidente Zelensky irá estar presente como convidado e, juntamente com os representantes dos países da União Europeia tentarão fazer com que Trump se demarque do chamado “Acordo de Ancorage”. Segundo Moscovo, o presidente norte-americano prometeu a Putin exercer influência sobre a Ucrânia para que esta aceite ceder a parte do território do Donbass ainda em mãos ucranianas. Ora Kyiv não se mostra inclinado a ceder e exige o fim dos combates pela “linha da frente”.
Verdade seja dita, trata-se de uma tarefa ingrata para Zelensky e os líderes europeus se tomarmos em conta o nível de relações entre Trump e Putin.
Irão e G7: a evidente degradação da figura de Trump
Se havia dúvidas, elas deviam dissipar-se com o memorando americano-iraniano que irá ou não ser assinado no dia 19 de Junho.
Nos Estados Unidos, a diplomacia deixou de existir, sendo completamente substituída pelas leis da força e da total incompetência. Trump conduz aceleradamente o seu país para o precipício da decadência e da desgraça.
Como é possível gastar muitos milhares de milhões de dólares para depois assinar um memorando onde fica patente que Trump não conseguiu nada melhor do que o conseguido por Barack Obama em relação ao programa nuclear iraniano?
A Casa Branca gastar milhares de milhões de dólares numa operação militar mal preparada, que não permitiu alcançar os objectivos traçados pelo narcisismo de Trump: o regime islâmico iraniano não foi derrubado, o futuro das conversações sobre o sector nuclear iraniano não passa de uma miragem, a questão dos mísseis iranianos ficou de fora do memorando conseguido entre norte-americanos e iranianos.
A população iraniana foi deixada à mercê de fanáticos sanguinários, por obra e graça de Trump, ao prometer, inicialmente, apoio a um levantamento popular e, depois, comprometer-se a não se ingerir nos assuntos internos do Irão.
Trump vai atolar-se uma vez mais no ridículo ao cantar vitória. Por muito que se deteste o regime político iraniano, como é o meu caso, tenho de reconhecer que o Irão obteve uma vitória diplomática e política e que os Estados Unidos saem deste confronto humilhados.
As guerras na Ucrânia e no Afeganistão mostraram que duas super-potências: EUA e Rússia, só têm esse nome porque dispõem de bombas atómicas, as suas vulnerabilidades mostram que os países médios terão um papel importante na edificação da nova ordem internacional.
José Milhazes, historiador e jornalista.
