
No Hotel Rural Horta da Moura, a poucos minutos de Monsaraz, o sábado tem agora um novo pretexto gastronómico. Entre as 12h00 e as 15h00, a sala do restaurante onde é servido, todas as manhãs, o pequeno-almoço, recebe um buffet de sabores alentejanos que não pretende reinventar a cozinha da região. E ainda bem. O que faz é algo mais difícil: respeitá-la.
O cenário ajuda. Paredes caiadas, uma lareira que promete aquecer os dias mais frios, arcos, madeiras antigas, cerâmica nas paredes, talhas com flores secas e aquela luz quente que parece ter sido inventada para o Alentejo. Do lado de fora, a paisagem faz o resto: sol, cheiro a campo, oliveiras, silêncio, um horizonte aberto e uma piscina infinita que quase obriga a prolongar a visita para lá da refeição.
Para terminar, ou antes, como ponto de partida, temos um serviço irrepreensível e de uma amabilidade extrema. Acredite que a Lídia e o João tudo farão para que se sinta em casa. Sem bajulação ou interrupções permanentes, mas sempre atentos, prestáveis e com um sorriso rasgado que faz dos alentejanos mestres na arte de bem receber…
Mesa de frios, mas com alma quente
O buffet começa com as chamadas “saladinhas frias”, embora a expressão seja demasiado modesta para o que ali se encontra. Há salada de orelha, de grão com bacalhau e de pimentos, cenouras temperadas à boa maneira da zona, couve-roxa, favinhas, cogumelos, salada de tomate e alface, queijos, salpicão, tomate com queijo fresco, torresmos e bom pão. Tudo disposto sem dramatismos, em travessas de barro e numa lógica de mesa farta, mais próxima de uma casa alentejana em dia de visita do que de um brunch de hotel convencional.
As pataniscas merecem destaque próprio. Finas, leves, secas e muito saborosas, são daquelas pequenas tentações que começam por parecer acompanhamento e acabam por justificar uma segunda (ou terceira) passagem pelo buffet. Crocantes q.b., bem temperadas e com aquele toque caseiro que não se fabrica em série.
Também os queijos, os torresmos e os pães cumprem o seu papel com distinção. Aqui, o pão não é elemento decorativo. É ferramenta. Serve para acompanhar, para molhar, para rematar o prato e, sobretudo, para lembrar que estamos numa região onde este alimento continua a ter um estatuto quase sagrado.
Do lado da tradição
Nos pratos quentes, a proposta mantém a mesma coerência regional. No dia da nossa visita, destacavam-se o bacalhau à Brás, o entrecosto frito com migas de batata e uma sopa de beldroegas com queijo e ovo que foi, sem exagero, um dos momentos altos da refeição.
A sopa de beldroegas é um daqueles pratos que explicam o Alentejo melhor do que muitas brochuras turísticas. Simples na aparência, rica no sabor, reconfortante sem ser pesada, combina a frescura das ervas com a untuosidade do ovo e do queijo. Estava divinal. Daquelas sopas que não se provam por curiosidade: comem-se com respeito e repetem-se com gula..
O entrecosto frito surge como se espera: saboroso, direto, sem pretensões cosméticas. O bacalhau à Brás, presença mais consensual, funciona como porto seguro para quem procura uma opção mais familiar, mas sem quebrar o espírito do conjunto. Este é, afinal, um brunch pensado para agradar a diferentes apetites, mas sempre com os pés bem assentes na cozinha tradicional.
Doces pecados alentejanos
Chegados às sobremesas, qualquer intenção de moderação fica em sério risco. Havia sericaia, pudim de ovos, arroz doce e torta de laranja. Quatro nomes que dispensam grandes apresentações e que, juntos, formam uma espécie de mapa sentimental da doçaria portuguesa.
A sericaia traz a leveza aromática e a memória conventual. O pudim de ovos cumpre a promessa de riqueza e doçura. O arroz doce regressa ao território da infância, e a torta de laranja acrescenta frescura cítrica ao final da refeição. Não há aqui sobremesas de assinatura nem desconstruções desnecessárias. Há sobremesas como devem ser: reconhecíveis, generosas e perigosamente repetíveis.
Um brunch para saborear devagar
Por 22 euros por adulto e 10 euros para crianças até aos 12 anos, a proposta é difícil de contestar. Sobretudo tendo em conta a variedade, a localização e o facto de a refeição se poder transformar facilmente num programa de meio dia inteiro. Chegar, comer, conversar, repetir, sair para olhar o Alqueva ou passear por Monsaraz. Há planos piores.
Informação útil
Onde: Hotel Rural Horta da Moura, zona de Monsaraz/Reguengos de Monsaraz
Quando: todos os sábados, das 12h00 às 15h00
Preço: 22€ por adulto; 10€ para crianças até aos 12 anos
Reservas: 962 287 093
Conceito: buffet de sabores alentejanos, com pratos frios, quentes e sobremesas tradicionais
A não perder: as pataniscas, a sopa de beldroegas com queijo e ovo, o entrecosto com migas de batata e as sobremesas tradicionais.
Artigo por Rui Reis






