
Na véspera da viagem de Volodymyr Zelenskyy, Presidente da Ucrânia, a Nova Iorque para se encontrar com Trump, as autoridades ucranianas manifestaram grandes expectativas.
O dirigente ucraniano transportava consigo a proposta de assinatura da Ucrânia e da Rússia de “tréguas sectoriais”, que visam “trocar” a cessação dos ataques às refinarias de petróleo russas (como Trump exige para reduzir os preços do gasóleo) em troca da cessação dos ataques russos ao fornecimento de energia ucraniano.
Além disso, o dirigente ucraniano falou também da necessidade de assinar tréguas no campo dos alimentos (exportação de cereais) e da logística (reabertura dos portos ucranianos e russos no Mar Negro).
Durante uma reunião com o presidente dos EUA, Zelensky voltou a afirmar que a guerra poderia terminar antes do inverno. Reiterou esta ideia várias vezes, acrescentando que muito ainda será necessário fazer para que tal aconteça, principalmente insinuando uma maior pressão norte-americano sobre Moscovo.
Porém, com base nos resultados oficialmente anunciados da reunião, não foram tomadas quaisquer decisões específicas e não foram alcançados progressos, nem mesmo em relação a uma trégua energética, muito menos a um cessar-fogo completo.
Com estas propostas, Kyiv procurou alcançar três objectivos.
Primeiro, ao promoverem a ideia de um cessar-fogo energético (com base nos apelos de Trump para travar os ataques às refinarias), os ucranianos esperavam que a Rússia o rejeitasse, após o que poderiam persuadir Trump a impor “sanções infernais” contra Moscovo como medida coerciva.
Em segundo lugar, esperavam chegar a acordo sobre o fornecimento de mísseis de defesa anti-aérea.
Em terceiro lugar, planeavam obter o consentimento político de Trump para utilizar o sinal Starlink para ataques em território russo.
A julgar pelos comentários e fugas de informação de vários órgãos de informação, Trump não respondeu positivamente a nenhuma das perguntas. Em relação aos mísseis Patriot, a discussão centrava-se na sua produção na Ucrânia. Além disso, com base nas declarações de Zelensky, o prazo específico não é claro. E hoje, a Casa Branca esclareceu que ainda não foi tomada uma decisão final sobre a transferência da licença de produção.
É verdade que há rumores de que prometeram fornecer mísseis Patriot, mas numa escala limitada – cerca de 10, o que claramente não é suficiente para aguentar o inverno.
Em relação ao Starlink, Trump aconselhou Zelensky a falar com Musk, que recusou recentemente o pedido de Kyiv.
Quanto às “sanções infernais”, Trump foi evasivo quanto à possibilidade de as impor, afirmando que o faria “se fosse necessário”, sem mais explicações.
Ao mesmo tempo, como já escrevemos, a questão das “sanções infernais” está apenas indirectamente relacionada com a Ucrânia. O seu principal objectivo é afastar os produtos petrolíferos russos do mercado global para maximizar os lucros das empresas americanas de petróleo e gás e dos aliados dos EUA no Médio Oriente.
No entanto, este plano não pode ser implementado enquanto o Estreito de Ormuz estiver bloqueado e o Estreito de Bab el-Mandeb estiver sob ameaça de bloqueio, o que privou o mercado de enormes volumes de petróleo do Médio Oriente. Nesta situação, mesmo que os EUA imponham tarifas de 100% aos países que compram energia russa, estes não abdicarão dele, pois, caso contrário, não conseguirão satisfazer as suas próprias necessidades de combustível num mercado escasso.
Portanto, a condição primordial e fundamental para a imposição de “sanções infernais” é o desbloqueio do Estreito de Ormuz e a normalização da situação no Médio Oriente. Claro que, mesmo assim, não é garantido que Trump as imponha (poderia usá-las para negociar com o Kremlin), mas sem essa condição, certamente não funcionarão.
Quanto ao cessar-fogo energético, a decisão está essencialmente nas mãos de Trump. O Kremlin já deixou de a rejeitar e declarou, agora, a sua disponibilidade para o aceitar sob duas condições.
Em primeiro lugar, a Ucrânia deve cessar os ataques não só às refinarias, mas também aos portos e navios (e Zelensky já indicou que concordará com isto se a Rússia tomar medidas semelhantes).
Em segundo lugar, o Ocidente deve levantar as sanções às exportações russas de petróleo e gás. Embora seja improvável que os europeus concordem com tal medida, Trump poderia, em princípio, levantar rapidamente as restrições anteriormente impostas pelos americanos, atendendo essencialmente à condição do Kremlin (isto seria suficiente para a Rússia vender petróleo sem problemas em qualquer parte do mundo, excepto na Europa).
Por conseguinte, a disponibilidade de Trump para suspender as sanções contra a Rússia em troca de um cessar-fogo energético é agora uma questão crucial, uma vez que também determinará se Washington está preparado para tomar medidas em relação a Moscovo, o que poderá ter impacto direto no curso das futuras negociações e até mesmo na sua retoma.
No entanto, até à data, existem poucas evidências de que os EUA estejam dispostos a dar este passo. Não há qualquer indicação de que Kyiv e a Rússia estejam preparados para fazer concessões mútuas significativas.
As autoridades ucranianas esperam que os constantes ataques às instalações energéticas e a outras infra-estruturas russas esgotem o orçamento russo, provoquem um descontentamento generalizado entre os russos e desestabilizem a situação na Rússia.
O Kremlin acredita piamente que a campanha de ataques aéreos russos irá devastar a economia e o sector energético ucranianos, forçando Kyiv a fazer concessões nos seus termos para o fim da guerra até à Primavera.
Nestas circunstâncias, parece provável que uma guerra em grande escala, sem cessar-fogo, se mantenha até ao Inverno. A não ser que ocorra algum evento de força maior: uma mudança drástica na situação na frente de batalha ou na retaguarda dos países em guerra, ou uma inversão simultânea da posição dos EUA e da Europa sobre a guerra por razões globais.
União Europeia continua desorientada
O ditador Vladimir Putin pode continuar a brincar e a desafiar a União Europeia, porque esta organização continua a não falar a uma só voz no que diz respeito à Rússia. Se, por um lado, prolonga as sanções contra o Kremlin por mais três anos, por outro, retira da lista dos sancionados oligarcas muito próximos de Putin: o empresário russo-uzbeque Alisher Usmanov e o empresário russo-israelista Mikhail Friedman. .
O serviço de imprensa do Conselho da UE publicou as listas de sanções atualizadas, deixando sem resposta a questão mais importante: sobre os motivos da suspensão das sanções contra esses oligarcas.
Segundo a imprensa internacional, a “reabilitação” de Usmanov deveu-se ao facto de essa ter sido uma exigência do Azerbaijão (país turcomano como o Uzbequistão) em troca de espiões franceses a cumprir penas em Baku.
Um procedimento que pode abrir graves precedentes e por isso foi duramente criticado pelos ucranianos.
Um texto de José Milhazes
