
Era suposto ser um dia para deixar o carro em casa. Mas os dados mais recentes mostram uma realidade diferente: em Portugal, a circulação rodoviária aumentou 3% no primeiro semestre de 2026 e o consumo de combustíveis cresceu 1,7%. No Dia Europeu Sem Carros, a ZERO alerta para uma dependência do automóvel que continua difícil de travar.
O Dia Europeu Sem Carros assinala-se esta terça-feira, 22 de setembro, mas os números mostram que Portugal ainda está longe de reduzir de forma significativa a dependência do automóvel. Uma análise da ZERO aos dados mais recentes do Instituto da Mobilidade e dos Transportes (IMT) e da Direção-Geral de Energia e Geologia (DGEG) revela que a circulação rodoviária aumentou 3% no primeiro semestre de 2026.
Segundo os dados disponíveis, foram percorridos 13,2 mil milhões de veículos-quilómetro nas principais estradas analisadas pelo IMT, mais 388 milhões do que no mesmo período do ano passado. E mais quilómetros significam também mais combustível. No ano móvel terminado em julho, Portugal consumiu 5,986 milhões de toneladas de combustíveis rodoviários, mais 1,7% do que um ano antes. O consumo do gasóleo aumentou 0,7%, o da gasolina 4,7% e o do GPL 14,3%.
A evolução acontece apesar do crescimento das vendas de veículos elétricos. Segundo uma estimativa da ZERO baseada nos dados da DGEG, IMT e MOBI.e, os veículos de combustão continuam responsáveis por cerca de 97% dos quilómetros percorridos anualmente em Portugal.
Apesar de haver mais veículos elétricos e dos novos veículos a combustão serem mais eficientes, o facto é que também há mais circulação. Logo, a ZERO considera que estes ganhos ainda não são suficientes para compensar o aumento dos quilómetros percorridos. Segundo os ambientalistas, o crescimento do turismo contribui igualmente para a pressão sobre a rede rodoviária, já que nos primeiros seis meses do ano, Portugal recebeu 15,1 milhões de hóspedes e registou 36,8 milhões de dormidas. A maior atividade turística significa também mais utilização de rent-a-car, táxis, TVDE e autocarros turísticos.
Há ainda outros fatores que podem aumentar a utilização do automóvel, como o congestionamento, o envelhecimento do parque automóvel e a dispersão residencial associada ao preço da habitação. A ZERO salienta, contudo, que a falta de dados recentes e detalhados impede medir o peso de cada um destes fatores.
A evolução da circulação rodoviária também dificulta o cumprimento dos objetivos climáticos nacionais. Em 2024, o conjunto dos transportes — incluindo aviação, navegação, rodovia e ferrovia — emitiu 18,1 milhões de toneladas de CO2 equivalente, apenas 9% abaixo de 2005.
O objetivo definido pelo Plano Nacional de Energia e Clima para 2030 é uma redução de 40%.
Para a ZERO, as emissões rodoviárias estimadas para o período anual terminado em julho de 2026 continuam muito acima da trajetória necessária. A associação calcula cerca de 17,4 milhões de toneladas de CO2 equivalente, face a um valor de referência próximo dos 12 milhões de toneladas.
Mais transporte público, menos combustível
Perante este cenário, a ZERO defende que a resposta não deve passar por reduções generalizadas dos impostos sobre os combustíveis, isto num momento em que os combustíveis continuam mais caros: segundo dados do Eurostat citados pela associação, os preços dos combustíveis e lubrificantes para transporte pessoal na União Europeia estavam, em julho, 16,9% acima do valor registado um ano antes. A associação propõe antes concentrar os apoios nas pessoas mais expostas à chamada pobreza de mobilidade, tendo em conta fatores como rendimento, distância até ao emprego, existência de transporte público ou dependência inevitável do automóvel.
Ao mesmo tempo, defende mais investimento em transportes públicos, corredores reservados para autocarros, melhores ligações e interfaces, transporte a pedido e passes adaptados a quem se desloca apenas alguns dias por semana, nomeadamente trabalhadores em regime híbrido.
A eletrificação deverá também, segundo a ZERO, privilegiar veículos que percorrem muitos quilómetros, como táxis, TVDE, rent-a-car e autocarros turísticos.
