
Dormir mal durante as noites quentes não é apenas uma sensação desagradável. Um estudo internacional mostra que o aumento das temperaturas está a reduzir o tempo de sono e alerta para consequências na saúde cardiovascular, no desempenho cognitivo e na qualidade de vida.
Se tem sentido mais dificuldade em dormir nas noites de verão, não é apenas impressão. Um estudo da organização Climate Central conclui que as temperaturas noturnas cada vez mais elevadas estão a reduzir significativamente o tempo de sono das pessoas em todo o mundo, com consequências que vão muito além do cansaço no dia seguinte.
A investigação analisou 1.338 cidades e concluiu que, nos últimos cinco anos, cada pessoa perdeu, em média, quase 56 horas de sono por ano devido ao calor. Em Lisboa, essa perda ronda as 40 horas anuais.
Segundo os investigadores, as noites demasiado quentes impedem o organismo de baixar a temperatura corporal de forma adequada, um processo essencial para um sono profundo e reparador.
Quando essa recuperação não acontece, aumentam os riscos para a saúde. O estudo associa a falta de descanso provocada pelo calor a uma maior probabilidade de acidente vascular cerebral, doenças cardiovasculares e mortalidade.
As consequências fazem-se sentir também no cérebro. A privação de sono reduz a capacidade de concentração, afeta a memória, diminui o desempenho cognitivo e prejudica a tomada de decisões, fatores que podem refletir-se diretamente na produtividade profissional e aumentar o risco de acidentes.
Os investigadores sublinham igualmente que uma má qualidade do sono afeta a saúde mental, interfere com o desenvolvimento das crianças e pode contribuir para uma redução da esperança de vida.
Embora os impactos sejam mais graves em idosos, crianças e mulheres grávidas, qualquer pessoa pode sentir os efeitos de noites sucessivas com temperaturas elevadas.
A situação tende a agravar-se nos grandes centros urbanos, onde o chamado efeito de ilha de calor mantém as temperaturas noturnas acima das registadas nas zonas circundantes, dificultando ainda mais o descanso.
De acordo com Courtney Howard, presidente da Associação Médica do Canadá, os adultos necessitam de sete a nove horas de sono por noite para preservar uma boa saúde física e mental, um objetivo que se torna mais difícil à medida que as noites tropicais se tornam mais frequentes.
Os autores do estudo atribuem parte deste fenómeno ao aumento das temperaturas provocado pelas alterações climáticas, estimando que mais de 10% das horas de sono perdidas resultem diretamente do aquecimento global.
As conclusões surgem na sequência de outro relatório recente, da organização Adelphi Global, que alerta para o impacto crescente do calor extremo na saúde e na produtividade, estimando que, em situações extremas, possam perder-se até 20 dias de trabalho por ano em atividades como a agricultura e a construção. Isso traduz-se não apenas em menor rendimento económico, mas também num aumento dos custos associados aos problemas de saúde relacionados com o calor.
