
O crescimento da população, a expansão das cidades e a corrida à inteligência artificial vão aumentar as necessidades energéticas globais. A OPEP alerta para a urgência de investir nas infraestruturas, enquanto o FMI identifica a crise energética como um dos principais riscos para a economia mundial.
O mundo vai precisar de mais 23% de energia primária até 2050. A previsão foi avançada por Haitham al Ghais, secretário-geral da Organização dos Países Exportadores de Petróleo (OPEP), num momento em que a expansão da Inteligência Artificial (IA), o crescimento da população e a instabilidade geopolítica estão a transformar o debate sobre o futuro energético.
Durante a 25.ª edição do Congresso de Energia do Conselho Mundial do Petróleo, realizado na Arábia Saudita, Al Ghais defendeu que é necessário investir desde já nas infraestruturas que permitirão responder às necessidades das próximas décadas. A produção de petróleo e gás continuará a fazer parte dessa estratégia, a par do investimento noutras fontes de energia, indica a OPEP, sublinhando que a indústria energética não consegue responder de imediato a um aumento inesperado da procura. Entre a decisão de investir e o início da produção podem passar cinco, seis ou sete anos, tanto nos projetos de exploração e produção como na refinação e distribuição.
A falta de investimento, argumentou, ajuda a explicar a atual escassez de combustíveis como o Diesel, a gasolina e o combustível para a aviação.
No mercado petrolífero, a OPEP reviu, de resto, em baixa as previsões de crescimento da procura para 2026, passando de 1,4 milhões para 400 mil barris por dia, num contexto marcado pelos efeitos da guerra. A organização espera que parte da procura adiada se materialize em 2027, ano para o qual prevê um crescimento de 1,7 milhões de barris diários.
Mais população, mais cidades, mais centros de dados
As projeções da OPEP relativas à necessidade de mais energia assentam em várias tendências globais. A população mundial deverá aumentar em quase dois mil milhões de pessoas até 2050 e mais de 1,8 mil milhões deverão mudar-se para novas cidades durante o mesmo período. A organização estima também que a economia mundial poderá duplicar de dimensão se mantiver um crescimento anual do produto interno bruto de 3%.
A inteligência artificial acrescenta uma nova variável a este cenário. Os centros de dados que permitem treinar e executar modelos de IA exigem infraestruturas informáticas de grande escala e quantidades significativas de energia, colocando a capacidade de abastecimento sob pressão.
A tecnologia que promete aumentar a produtividade e transformar setores inteiros da economia depende, assim, de uma infraestrutura física que nem sempre acompanha a velocidade da inovação digital.
O desafio não se limita à produção de energia. É necessário garantir capacidade de transporte, armazenamento e distribuição, bem como antecipar onde e quando a procura irá crescer. Na perspetiva da OPEP, adiar o investimento pode agravar desequilíbrios que se tornam particularmente visíveis quando surgem crises internacionais.
A energia volta a ser um risco económico
O alerta da OPEP surge num contexto de forte pressão sobre os mercados energéticos. Kristalina Georgieva, diretora do Fundo Monetário Internacional (FMI), afirmou recentemente que a inteligência artificial e a crise de abastecimento energético estão a empurrar a economia mundial em sentidos opostos.
Enquanto a IA representa um impulso positivo para a procura e para o crescimento, a guerra no Médio Oriente está a limitar a oferta de energia e a manter os preços elevados. O petróleo ronda os 100 dólares por barril e poderá continuar caro mesmo que o conflito termine em breve, segundo a responsável.
Os efeitos estendem-se para além dos custos dos combustíveis. A energia mais cara pressiona a inflação, influencia as taxas de juro e aumenta os custos de financiamento das empresas e dos Estados. Para as economias que dependem fortemente de importações energéticas, o impacto pode ser especialmente difícil de absorver.
Georgieva identificou ainda a dívida pública como um dos grandes desafios económicos dos próximos anos. A dívida mundial aproxima-se dos níveis mais elevados desde o final da Segunda Guerra Mundial e poderá ultrapassar 100% do PIB global.
Uma corrida tecnológica que exige energia
Apesar dos riscos, o FMI considera que a inteligência artificial poderá contribuir de forma significativa para o crescimento económico. Estudos da instituição apontam para um potencial acréscimo de até meio ponto percentual no crescimento mundial anual, desde que a tecnologia seja bem utilizada.
A Ásia ocupa uma posição central nesta transformação, com sete dos dez principais exportadores de hardware para IA, incluindo semicondutores avançados, chips de memória e equipamentos para o fabrico de microprocessadores.
Mas a expansão tecnológica também levanta questões sobre o emprego, a concentração de riqueza e o controlo dos sistemas de IA. Para Georgieva, os ganhos económicos poderão coexistir com o agravamento das desigualdades, caso a perda de postos de trabalho e a concentração dos lucros nas grandes empresas tecnológicas não sejam devidamente geridas.
