
Durante dois dias, Coimbra vai receber pessoas habituadas a trabalhar onde acabam muitas das nossas referências. Umas já viveram a centenas de quilómetros da Terra, outras procuram compreender o que aconteceu a Vénus, há quem observe florestas a partir do Espaço, quem estude os oceanos cruzando ciência com conhecimento ancestral e quem prepare médicos para atuar quando o hospital mais próximo simplesmente não existe. Percursos muito diferentes. Uma curiosidade em comum: perceber melhor o mundo — e aquilo que existe para lá dele.
É esse o ponto de partida da GLEX Ignition, que se realiza nos dias 29 e 30 de outubro, em Coimbra, reunindo astronautas, cientistas, exploradores, investigadores e criadores num programa onde cabem o Espaço, a Terra, os oceanos, o clima, a medicina, a tecnologia e a cultura. A ambição passa precisamente por contrariar a ideia de que explorar significa apenas partir para longe. Muitas vezes, basta aprender a olhar de outra maneira para aquilo que temos à nossa frente.

Da Estação Espacial Internacional a Vénus
Entre os primeiros nomes confirmados está Andreas Mogensen, astronauta da Agência Espacial Europeia e antigo comandante da Estação Espacial Internacional. Foi o primeiro europeu a pilotar uma Crew Dragon e o sexto astronauta europeu a assumir o comando da ISS, uma experiência que lhe permite falar de algo que continua reservado a um grupo muito pequeno de seres humanos: o de viver e trabalhar em órbita.
Em Coimbra, Mogensen deverá transportar o público precisamente para esse quotidiano tão extraordinário quanto, para quem o vive, inevitavelmente feito de rotinas. Como se lidera uma equipa dentro de uma estação espacial? Como se trabalha, descansa e convive quando se está permanentemente à volta da Terra? E o que muda na forma de olhar para o nosso planeta depois de o observar, durante meses, através de uma janela no Espaço?
Com Sue Smrekar, a viagem prossegue bastante mais longe. A cientista planetária lidera a missão VERITAS, da NASA, criada para estudar a superfície e a evolução geológica de Vénus, um planeta que, apesar de apresentar algumas semelhanças com a Terra em dimensão e composição, acabou por seguir um caminho radicalmente diferente.
É precisamente esse contraste que o torna tão fascinante. Perceber o que aconteceu a Vénus poderá ajudar os cientistas a compreender melhor não só o passado daquele planeta, mas também alguns dos mecanismos que moldaram o nosso.
Olhar do Espaço para proteger a Terra
Essa relação entre o Espaço e a Terra surge de forma ainda mais direta no trabalho de Lola Fatoyinbo, ecologista espacial e antiga cientista da NASA, que combina informação recolhida por satélites, observações aéreas e investigação no terreno para estudar florestas tropicais e ecossistemas costeiros vulneráveis.
A tecnologia está lá, naturalmente, mas não como fim. O verdadeiro objetivo é transformar dados recolhidos a centenas de quilómetros de altitude em conhecimento capaz de produzir resultados cá em baixo, seja acompanhando a evolução de uma floresta, identificando alterações num ecossistema ou ajudando a perceber onde é mais urgente intervir. É a exploração espacial colocada ao serviço do planeta.
Também Alizé Carrère, cientista, realizadora e National Geographic Explorer, parte de uma Terra em transformação, embora se concentre sobretudo na forma como as pessoas respondem a essas mudanças. O seu trabalho acompanha comunidades confrontadas com profundas alterações ambientais e procura perceber o que acontece quando aquilo que durante gerações pareceu permanente deixa, subitamente, de o ser.
Como se adapta uma comunidade? O que muda na forma de construir, trabalhar ou habitar um território? E que soluções aparecem quando a necessidade obriga a abandonar velhos hábitos? Carrère interessa-se menos pelo discurso abstrato e mais pelas respostas concretas encontradas por quem já está a viver essas mudanças.

Dos oceanos aos limites do corpo humano
Dos territórios ameaçados pelo clima, a GLEX Ignition desce até aos oceanos através de Cliff Kapono, uma figura difícil de encaixar numa única definição. É surfista profissional, doutorado em Química e explorador nativo havaiano, cruzando investigação científica, conhecimento indígena e uma ligação ao mar que não começou num laboratório.
Kapono estuda os ecossistemas marinhos a partir dessa mistura pouco convencional de perspetivas, aproximando a ciência moderna de conhecimentos acumulados durante gerações por comunidades profundamente ligadas ao oceano. São linguagens diferentes para tentar compreender a mesma realidade. E talvez seja precisamente aí que esteja o interesse.
Num registo completamente diferente surge Mark Hannaford, fundador da World Extreme Medicine, com mais de três décadas de experiência em exploração, expedições, medicina remota e resposta humanitária. Esteve também envolvido, juntamente com a Universidade de Exeter, na criação do primeiro mestrado em Medicina Extrema do mundo.
A pergunta é muito concreta: como se salva uma vida quando quase tudo aquilo que normalmente associamos a uma emergência médica fica para trás? Sem hospital, sem uma equipa completa, sem acesso imediato a exames e, por vezes, sem possibilidade de evacuação rápida, a medicina tem de adaptar-se ao território. Pode ser numa montanha, numa região polar ou numa missão de exploração. Um dia, poderá ser fora da Terra.

Quando o Universo se transforma em música
E depois há David Ibbett, que escolheu explorar o Universo de outra forma.
Compositor residente no Center for Astrophysics | Harvard & Smithsonian, Ibbett trabalha na fronteira entre ciência e música, transformando conceitos da física e da astrofísica em experiências sonoras e visuais. Em Coimbra apresentará “Multiverse Symphonies”, uma performance que procura dar som a estruturas e fenómenos que, à partida, parecem pertencer apenas ao domínio das equações e das imagens científicas.
Coimbra no centro da exploração global
O programa principal da GLEX Ignition decorrerá a 29 de outubro, concentrando as principais conferências e intervenções, enquanto no dia seguinte o evento se estende à região através de um programa descentralizado, desenvolvido em articulação com instituições académicas, científicas, empresariais e culturais. Novos participantes serão ainda anunciados.
Depois de Ottawa ter recebido a mais recente edição internacional da GLEX Summit, Coimbra torna-se agora o ponto de encontro desta comunidade ligada às novas fronteiras da exploração. Mas talvez seja precisamente essa expressão “novas fronteiras” que melhor resuma o que estará em discussão.
Porque uma fronteira não tem necessariamente de ficar a milhões de quilómetros de distância. Pode estar numa floresta que ainda não compreendemos completamente, no fundo do oceano, numa comunidade obrigada a reinventar-se ou nos limites do próprio corpo humano. Pode estar em Vénus. Ou numa estação espacial.
Artigo por Rui Reis

