A revisão intensa da História da Rússia, levada a cabo pelo regime ditatorial de Putin, não para de nos surpreender. A Igreja Ortodoxa Russa contribui com todas as suas forças para que os russos acreditem nas afirmações paradoxais e falsas que a ditadura impõe. Ficamos a saber que a criação da mais destruidora de todas as bombas se deve também a Deus e aos santos. Claro que isso só acontece se essas armas forem produzidas na Rússia.
Recentemente, o Patriarca ortodoxo Kirill visitou a vila de Diveyevo, na região de Nizhninovgorod, e “revelou” que “a criação de uma arma formidável no nosso país, neste local específico, não foi um acidente; tudo aconteceu, em parte, através das orações do nosso venerável e piedoso pai, Serafim de Sarov”.
“Assim, através da sua santidade e das suas orações, este humilde ancião contribuiu para a continuidade da existência do nosso povo e do nosso país”, acrescentou o chefe máximo da Igreja Ortodoxa Russa, antes agente do KGB soviético.
Na era soviética, Sarov era uma cidade secreta onde foi criada a primeira bomba atómica da URSS. Quando estudei na Universidade aprendi que a arma atómica soviética foi fabricada em 1949 por cientistas soviéticos, sob a orientação do carrasco estalinista Lavrenti Beria, e com alguma ajuda dos serviços secretos soviéticos que tiveram acesso a estudos já realizados por cientistas norte-americanos em Los Álamos.
A teoria da chamada “ortodoxia atómica” não é nova. Segundo a jornalista Ksénia Lutchenko escreve no seu livro “De Boas Intenções. A Igreja Ortodoxa de Gorbatchov a Putin”, essa tese soou pela primeiro vez em 2005, cinco anos depois de Putin entrar no Kremlin de Moscovo.
“…Pouco depois das comemorações de Sarov – escreve Ksénia Lutchenko -, o publicista nacionalista Yegor Kholmogorov cunhou o termo “Ortodoxia Atómica” e apresentou-o na Conferência Teológica Internacional “O Ensino Escatológico da Igreja”, no Mosteiro Danilov, em Moscovo, em 2005. O seu conceito é formulado, em termos gerais, da seguinte forma: “Temos o direito de defender o nosso país, precisamente como o centro da Ortodoxia, com a arma absoluta que pode destruir o resto do mundo, porque o que preservamos é mais valioso do que tudo o que existe no mundo.” E embora Kholmogorov tenha sido ridicularizado como uma figura marginal, as justificações teológicas para a escolha da Rússia, manifestadas nas armas nucleares como garantias da sua soberania, migraram gradualmente de relatos em conferências menores, onde físicos e cristãos ortodoxos tentavam unir forças para atrair a atenção do governo para textos com motivações políticas”.
Como se pode ler na citada obra, o hino de louvor a São Serafim de Sarov, composto no início do século XX, contém o verso “Alegra-te, escudo e protecção da…” “Nossa Pátria…” No folheto “Nas Asas de Serafim”, preparado para as celebrações de Sarov, estas palavras são interpretadas como uma profecia sobre um escudo nuclear: “A partir destas palavras, conclui-se que o Pai Serafim permitiu a criação de uma bomba nuclear aqui, uma vez que naqueles anos era um verdadeiro escudo e protecção para a Rússia.”
Em 2007, o próprio Presidente Putin reiterou este conceito: “Os dois temas estão intimamente relacionados, porque tanto a confissão tradicional da Federação da Rússia como o escudo nuclear da Rússia são componentes que fortalecem a soberania russa e criam as condições necessárias para garantir a segurança interna e externa do país.”
E como não podia deixar de ser, no conceito de “Ortodoxia Atómica”, o Estado russo é apresentado como um freio do Apocalipse, salvando o mundo do Anticristo vindo do Ocidente.
A jornalista russa defende também que a “Ortodoxia Atómica” é também convenientemente utilizada para justificar a ideia da ligação da União Soviética com o Império Russo. Acontece que, historicamente, o objectivo da URSS era equipar a civilização russa com uma bomba nuclear com a ajuda dos “ascetas do…” “Século XX” — dos físicos. Retroactivamente, a União Soviética ateia e comunista foi “santificada” e incorporada no plano divino da história russa. Da simples escolha pragmática de um mosteiro vazio, cujos monges foram expulsos pelo regime soviético, por Jiulli Khariton, dirigente do programa nuclear da URSS, que, muito provavelmente, nada sabia sobre Serafim de Sarov, desenvolveu-se uma vasta mitologia política. Em janeiro de 2023, o Patriarca Kirill proclamou explicitamente esta tese: os físicos “criaram armas sob a proteção de São Serafim de Sarov, porque, pela inefável providência de Deus, essas armas foram criadas no mosteiro de São Serafim. Graças a este poder, a Rússia manteve-se independente e livre.”
Convém lembrar mais umas tantas teses deste “pensador ortodoxo” para que fique bem clara a forma retrógrada, militarista e desumana com que ele aborda a questão da guerra, incluindo a invasão da Ucrânia pelas hordas de Putin.
Muito recentemente, Kirill I publicou um livro intitulado “Guerra: Para além das Causas e Efeitos Visíveis”, no qual afirma que o resultado das guerras é “determinado por Deus” e que o vencedor é “aquele que está do lado da luz”. Segundo a assessoria de imprensa da Igreja Ortodoxa Russa, o livro, publicado pela Editora do Patriarcado de Moscovo, é dedicado à “metafísica da guerra”.
Para o Patriarca, a guerra tem um “significado redentor”, aborda “os limites metafísicos e a definição de objetivos da Rússia”: “Como tudo no mundo deriva do conflito entre o bem e o mal, o resultado da guerra é determinado por Deus, e o vencedor é aquele que está do lado da luz. A nossa vocação terrena é sermos guerreiros do Senhor, resistir ao mal e defender elevados ideais morais”. Ele defende ainda que o povo russo “tem o poder de vencer” e não deve “fugir ao seu dever histórico de ser vitorioso”. Além disso, segundo o patriarca, conceitos como sacrifício, heroísmo, patriotismo e vitória devem ser encarados “numa perspectiva espiritual especial”.
O Patriarca Kirill tem apoiado consistentemente a agressão russa desde os primeiros dias da invasão em grande escala da Ucrânia pela Rússia. Já declarou que os militares russos que participam na guerra não violam o mandamento “não matarás”. O chefe da Igreja Ortodoxa Russa pediu ainda aos russos que agradecessem a Deus os “tempos prósperos” que, segundo ele, Vladimir Putin proporcionou ao país. Chamou ao presidente russo, que desencadeou a guerra, “um exemplo de bom cristão” e exortou os envolvidos na guerra a recordarem a vida eterna, prometendo-lhes a salvação caso tombem no campo de batalha.
Pelo seu apoio à invasão russa, alguns países da UE propuseram a inclusão do Patriarca Kirill nas listas de sanções, nomeadamente no que diz respeito à proibição de viajar para os países europeus, mas essa sanção da UE não foi aprovada por alguns estados-membros.
A União Europeia não aprovou sanções contra este monstro, porque algumas igrejas ortodoxas europeias: a grega e a búlgara, não querem estragar as suas relações com Kirill.
Outro importante defensor da manutenção de boas relações com este patriarca é o Vaticano, através de Itália. A Santa Sé não quer romper as relações com o antigo agente do KGB Kirill na esperança de haver uma maior aproximação entre católicos e ortodoxos russos.
Mas será que o Vaticano ainda não entendeu que está a tentar dialogar com uma igreja culpada pela morte de milhões de ucranianos e russos na guerra, com uma igreja que vê nesta guerra a luta entre a ortodoxia e os católicos papistas e heréticos? Com um servo obediente de Vladimir Putin?
Nos seus discursos, o Papa Leão XIV, ao contrário de Kirill, defende a paz e a tolerância.
Dou, não dou; dou, não dou…
Não vou revelar nenhum segredo se afirmar que a política externa de Donald Trump é uma catástrofe não só para os Estados Unidos, mas também para todo mundo.
Num momento em que a Ucrânia e os ucranianos sofrem com os bárbaros bombardeamentos russos, o presidente norte-americano diz o dito por não dito no que respeita ao fornecimentos de mísseis de defesa anti-aérea. Inicialmente, começou por admitir que iria autorizar a transmissão à Ucrânia de licenças de fabrico de mísseis “Patriot”, mas, alguns dias depois, mudou radicalmente de ideias.
“Precisamos de ter muito cuidado ao permitir que alguém produza as nossas armas avançadas. É muito difícil transferir tecnologia deste nível. Aqueles para quem transferes a tecnologia também podem virar-se contra ti. É possível. Precisamos de ter muito cuidado”, disse.
A continuar assim, a pressão de Trump sobre o seu amigo Putin continua a ser praticamente inexistente, não o levará certamente à mesa das conversações com o líder ucraniano Volodomyr Zelensky, a não ser que Kyiv aceite as condições do Kremlin: a rendição.
José Milhazes, historiador e jornalista
