Num momento em que as tropas ucranianas estavam a equilibrar as forças com os invasores russos, o Presidente Zelensky decidiu mudar o governo no país, processo que pode sair caro à Ucrânia. A luta entre a “guerra passada” e a “guerra moderna” pode provocar perigosas cisões dentro e fora das forças armadas.
A demissão de Yulia Svyrydenko do cargo de primeira-ministra surpreendeu muita gente, mas esta decisão foi acompanhada da promessa de ela se tornar embaixadora da Ucrânia em Washington. Porém, as coisas complicaram-se quando foi revelado que ela não pretende ocupar o novo cargo, ficando-se com a ideia de que foi afastada contra a sua vontade.
A nomeação de Serhiy Koretzk para o cargo de primeiro-ministro decorreu normalmente, pois ele é conhecido por ter gerido bem empresas públicas ligadas aos fornecimentos de gás e petróleo.
Todavia, a mexida na chefia do Ministério da Defesa, que era dirigido pelo jovem Mikhailo Fiodorov, rebentou como uma autêntica bomba não só dentro como fora da Ucrânia. O ministro foi demitido, o que provocou sérias reacções entre civis e políticos. Volodymir Zelensky reagiu propondo-lhe o cargo de conselheiro, que prontamente recusou e veio publicamente apontar as causas dessa decisão: as fortes divergências entre ele e o general Oleksandr Syrsky, comandante-chefe das tropas ucranianas.
Em declarações à imprensa, Fiodorov considerou que as autoridades estão a “vender caos e mentira” e pinta um quadro negro da situação no interior das forças armadas.
Segundo o próprio, o principal problema não reside na falta de armas ou de tecnologia, mas sim no próprio sistema de comando do exército. Afirma que muitas reformas necessárias estão a ser bloqueadas e que a estrutura actual impede a utilização eficaz até dos recursos disponíveis.
De acordo com Fiodorov, as Forças Armadas da Ucrânia continuam a lutar principalmente ao nível táctico, enquanto a Rússia opera na profundidade operacional. O sistema de corpos de exército, que deveria alterar a situação, nunca funcionou em pleno: alguns corpos são bem-sucedidos, enquanto outros mudam constantemente de comandantes, não existe uma estrutura clara e nem sequer se sabe quantas brigadas estão sob o seu comando.
Ele critica particularmente a prática de transferência constante de unidades entre brigadas.
“Há brigadas que nem sequer conseguem reunir o número de batalhões que possuem. Um batalhão desprende-se de uma brigada e é transferido para outra. É impossível estabelecer o comando e o controlo num sistema destes. Ninguém é responsabilizado por nada”, afirmou o ex-ministro.
A constante rotatividade de comandantes é para ele outro problema. “Chega um comandante de brigada, trabalha durante um mês e depois é despedido. Chega outro e também é despedido. É impossível planear o que quer que seja com este tipo de organização.”
Neste contexto, Fiodorov criticou a postura em relação aos comandantes e oficiais no activo. Segundo ele, as pessoas bem-sucedidas não recebem apoio; pelo contrário, são travadas.
O ex-ministro criticou ainda a utilização de drones. “Comprámos mais drones do que em todo o ano passado, e a maioria das unidades nem se apercebeu.” “A distribuição dos recursos é manual: os leais recebem o que é deles, os desleais não”, afirmou Fiodorov.
Ele alega que as decisões no exército não são tomadas com base em análises objetivas, mas sim na lealdade pessoal.
A crítica mais dura é dirigida ao comandante-chefe. “Todas as iniciativas que propusemos começaram a ser bloqueadas. Syrsky não está disposto a falar abertamente sobre os problemas.” “Está preparado para participar em reuniões, tecer intrigas e procurar alguém para culpar”, afirmou Fedorov.
Segundo o próprio, em vez de procurar formas de derrotar a Rússia de forma assimétrica, Syrsky está focado nos conflitos internos.
Ao mesmo tempo, o antigo ministro reconhece especificamente os contributos de Syrsky para a defesa de Kiev e as operações bem-sucedidas de 2022, mas acredita que a actual guerra exige uma abordagem completamente diferente à gestão militar.
Fiodorov relaciona ainda a crise nas forças armadas com a mobilização. Na sua opinião, não é o serviço militar em si que está a desmotivar os ucranianos, mas sim a falta de confiança no sistema militar. “Não estamos a vender novos contratos.”, mas “estamos a vender o caos, a irresponsabilidade e as mentiras”, disse o ex-ministro da Defesa, que, refira-se, apresentou recentemente estes novos contratos.
Acredita também que os problemas com a mobilização decorrem da postura das unidades em relação ao pessoal.
“Ouvimos repetidamente: ‘Tsk! Tsk!'” “Tsk!” (centros de recrutamento) mas quando tereis tomates (sic) e dizer-nos qual é o verdadeiro problema? Sobre as unidades, sobre os ataques, sobre a falta de transferências”, dirigiu-se Fedorov aos deputados.
Segundo Fiodorov, sem uma profunda reforma do sistema de comando e uma alteração nos princípios de nomeação dos comandantes, a Ucrânia não conseguirá vencer a guerra.
No fundo trata-se de um profundo conflito entre a “velha” e a “nova” guerras, entre a aposta nos combates clássicos de tanques e utilização de um grande número de homens e o desafio lançado pelos drones e outros meios tecnológicos modernos. Fiodorov propunha uma guerra menos marcada pelas baixas entre militares.
Volodymyr Zelensky foi obrigado a optar entre Fiodorov e Syrsky e decidiu-se pelo primeiro, o que fez com que milhares de manifestantes saíssem à rua em apoio ao ex-ministro da Defesa. Entre os militares, a decisão também não foi bem recebida por todos, o que pode causar sérios problemas no que diz respeito à continuação da guerra.
É de sublinhar que Fiodorov foi o primeiro alto funcionário ucraniano a não aceitar a sua demissão.
O Presidente da Ucrânia propôs a Ihor Klimenko, ex-ministro do Interior, para ocupar o cargo de chefia na Defesa, mas este recusou aceitar. Mais tarde, a Kilimenko foi oferecida a direcção do Serviço de Segurança da Ucrânia.
A fim de travar a onda de protestos, Zelensky nomeou Yevhen Khmara ministro interino da Defesa. Este político chefiou o Serviço de Segurança Interna da Ucrânia, tendo adquirido uma vasta experiência, em muitos aspetos sem precedentes, na condução de operações de ataque tecnológico. “É exatamente nisso que a nossa defesa se deve focar nesta guerra”, declarou Zelenskyy.
Estratego, profissional, líder centrado nas pessoas e militar respeitado — assim o descreveram aqueles que serviram e trabalharam com Khmara. No início da invasão russa em grande escala da Ucrânia, participou na libertação da região de Kiev e, posteriormente, segundo combateu nas batalhas por Severodonetsk e Lysychansk.
Khmara participou também na operação para libertar a Ilha das Serpentes no verão de 2022 e classificou-a como “uma das vitórias mais significativas sobre o inimigo” em termos militares, económicos e psicológicos.
Na última crise política na Ucrânia, Zelensky, que pretendia limitar as acções dos departamentos governamentais que combatem a corrupção, foi obrigado a recuar, devido aos protestos nacionais e internacionais e a demitir o chefe da Administração Presidencial, Andryi Yermark.
Se agora recuar na questão do ministro da Defesa, arrisca-se a enfraquecer o seu próprio poder. Mas o mesmo vai acontecer se não der ouvidos aos protestos. Entretanto, o Kremlin regozija com a luta política no campo do seu inimigo.
China e Rússia desentendidas
Segundo fontes diplomáticas, o Ministério dos Negócios Estrangeiros da China apresentou ao Departamento de Estado dos EUA uma lista de condições em que, na sua opinião, a guerra russo-ucraniana deveria terminar. São oito pontos.
1.º A linha de demarcação deve ser estabelecida ao longo da linha de contacto no momento do cessar-fogo e não pode ser alterada pela força. Este deve ser juridicamente vinculativo para as partes, ao abrigo das garantias internacionais.
2.As sanções impostas após 24 de fevereiro de 2022 serão gradualmente levantadas contra a Rússia e as empresas estrangeiras que sofreram pressões de sanções da “Coligação em Apoio à Ucrânia”, à medida que a desescalada avançar.
3.º O procedimento para indemnizar a Ucrânia pelos danos resultantes das hostilidades, bem como o montante da indemnização, deve ser determinado por uma comissão intergovernamental estabelecida sob os auspícios da ONU.
4.º A Ucrânia deve apresentar propostas para aprovação dos “Estados detentores de armas nucleares” sobre a redução do número de militares das Forças Armadas Ucranianas e dos sistemas de armas que possuem atualmente e que possam vir a possuir no futuro.
5.º A Ucrânia deve reafirmar o seu compromisso com a estrita observância dos princípios e da legislação europeia em matéria de política religiosa e linguística.
6.º A Rússia e a Ucrânia são obrigadas a resolver todas as disputas territoriais através de novas negociações, que devem ter início imediatamente após o estabelecimento do cessar-fogo.
7.º A Ucrânia não pode aderir à NATO, o que deve ser consagrado na Constituição ucraniana ou através de compromissos legislativos da NATO ou dos seus membros individuais.
8.º A Ucrânia tem o direito de seguir a sua própria política de segurança e de aderir a novas alianças de segurança com o consentimento dos “países nucleares” como garantes do não retomar das hostilidades.
De notar que estas cláusulas não exigem a retirada das Forças Armadas da Ucrânia do Donbas. Além disso, se houver uma redução, não poderá haver qualquer coordenação na adesão a novas alianças de segurança. A China acredita que este é um direito soberano da Ucrânia e dos países que formam tais alianças. Ademais, os Estados Unidos já estão preparados para discutir a possível inclusão da Ucrânia em novos acordos de segurança.
As mesmas fontes revelaram que esta proposta foi apresentada ao ditador russo, Vladimir Putin, que a recusou. Isto faz com que os chineses trava a cooperação económica. Apesar de todos os esforços do Kremlin e de Putin pessoalmente para fazer avançar o projecto Força da Sibéria 2, a China está a ignorar Moscovo.
Uma das razões para este “flagrante desrespeito pelos interesses russos” é a intransigência de Moscovo em relação à crise ucraniana.
Para a China será uma grande vitória internacional se conseguir mediar este conflito, muito mais se conseguir ser mais rápida do que Donald Trump, que fala, fala, mas o resultado não aparece.
José Milhazes, jornalista e historiador
