Nem no pior dos pesadelos se poderia imaginar uma situação internacional como aquela em que vivemos actualmente. À desordem crescente vem juntar-se a presença de loucos à frente dos destinos de grandes potências.
Putin merece boas prendas
O ditador russo não poderia pedir mais e viu o dirigente norte-americano aceitar o seu jogo político sem qualquer tipo de concessão ou cedência. Trata-se de loucura da parte do inclino da Casa Branca em Washington ou Donald Trump é mesmo um agente completamente controlado pelo Kremlin?
Na sexta-feira, a delegação ucraniana às conversações com os norte-americanos a fim de, juntamente com os europeus, elaborarem uma proposta conjunta de cessar-fogo nas hostilidades entre a Rússia e a Ucrânia, não queria acreditar na informação revelada por Steve Witkoff : Trump e Putin teriam chegado a um acordo sobre a suspensão das sanções norte-americanas à venda de gasóleo russo.
Mais surpreendente ainda foi constatar que os norte-americanos separaram a questão da suspensão das sanções contra a Rússia da questão do fim dos ataques ao sector energético e marítimo da Ucrânia.Ou seja, a Rússia receberá um alívio das sanções sem qualquer compromisso de reduzir os ataques à Ucrânia. Isto significa que o Kremlin não terá qualquer incentivo para os reduzir, a não ser que Kiev faça concessões muito significativas.
Como não podia deixar de ser, a reacção de Zelensky foi extremamente negativa, uma vez que vai contra a principal estratégia: conseguir uma trégua energética e marítima “em espelho” (“vocês não nos atacam, nós não vos atacamos”) e, se Moscovo recusar, usar isso para levar Trump a impor “sanções infernais”.
Na realidade, aconteceu exactamente o contrário: Washington suspendeu algumas sanções contra a Rússia sem pedir nada em troca para a Ucrânia, como se tudo se limitasse a acordos exclusivamente bilaterais russo-americanos. Trump não considerou inicialmente qualquer medida “espelho” que implicasse concessões de Moscovo, mas simplesmente exigiu que Kiev cessasse unilateralmente os ataques às refinarias para, alegadamente, reduzir a pressão sobre os preços dos combustíveis nos EUA antes das eleições. E quando Zelensky se recusou a fazê-lo seis vezes, fechou um acordo diretamente com Putin.
A chantagem de Trump sobre a Ucrânia pode aumentar se se concretizar a ameaça de Washington de interromper a partilha de informações secretas caso os ataques às refinarias continuem. Esta é uma alavanca de pressão muito poderosa, dado que, a julgar por inúmeras fugas para a imprensa, são os EUA que estão a ajudar as Forças Armadas da Ucrânia a lançar ataques contra áreas de retaguarda russas e a prevenir ataques contra a Ucrânia.
É de salientar que, depois do “acordo do gasóleo” com Putin, a probabilidade de Trump impor “sanções infernais” parece mínima.
Em síntese, a situação em relação às próximas ações de Trump é ainda incerta.
Ainda este texto não estava terminado e chegava a notícia de que Trump anunciou a conclusão de um acordo de não agressão energética entre a Ucrânia e a Rússia. Zelensky mostrou-se surpreendido, mas acrescentou que está de acordo em realizar essa proposta, enquanto em Moscovo afirmam não saber de nada. O mais provável é que se trata de mais um “tiro no escuro” da diplomacia de um dirigente alucinado que vivem já viver no pesadelo de ser derrotado nas próximas eleições intercalares.
Quanto às implicações práticas do “acordo do gasóleo” para os EUA e a Rússia, é pouco provável que sejam particularmente significativas. Para os Estados Unidos, os fornecimentos previstos da Rússia nos próximos meses não são suficientes para influenciar seriamente o mercado. É claro que, se a Rússia retomar as exportações de gasóleo aos níveis pré-guerra, isso terá um impacto significativo no mercado global e os preços irão baixar. Mas isso exigiria que a Ucrânia deixasse de atacar as suas refinarias, algo que Kiev, por enquanto, se recusa a fazer.
Para o orçamento e a economia russos, travar os ataques às duas refinarias seria certamente um grande benefício. Mas, se não pararem, a suspensão das sanções americanas proporcionará apenas um pequeno aumento das receitas devido à redução dos custos durante as exportações. E os russos já teriam começado a exportar gasóleo de qualquer forma, uma vez que a queda da procura após o fim da época agrícola criou um excedente no mercado interno.
Mas, para Moscovo, neste caso, o aspecto simbólico, e não o prático, é mais importante. Ao levantar as sanções e oferecer uma nova ronda de elogios a Putin, Trump demonstrou mais uma vez que uma frente ocidental unida contra a Rússia já não existe e que as tentativas de Kiev e da Europa para a restabelecer, pressionando os EUA a exercerem forte pressão sobre Moscovo, estão a falhar. Este é um sinal que pode exercer de forma importante os desenvolvimentos geopolíticos, incluindo na União Europeia, onde se intensificam os apelos à normalização das relações com a Rússia e ao incentivo a Kiev para que esta chegue a acordo com Moscovo. As ações de Trump fornecem argumentos adicionais para estes apelos.
E é precisamente por isso que as autoridades ucranianas, os europeus e parte dos políticos americanos farão todos os possíveis para minar este sinal e obrigar Trump a abandonar os seus “acordos” com Putin. Resta saber se terão o efeito desejado junto de um presidente que quer obrigar Zelensky a abandonar o cargo de líder da Ucrânia, correndo-se o risco de vermos transformar um dos maiores países europeus numa “república das bananas”.
