
A Comissão Eleitoral Central da Rússia, a mando do ditador russo, Vladimir Putin, tentou surpreender o mundo ao autorizar a participação da única força política do país que exige o fim da guerra na Ucrânia e o restabelecimento dos direitos democráticos, o Partido democrático e liberal “Yabloko” (Maçã), a participar nas eleições parlamentares de 20 de Setembro. Mas o Supremo Tribunal da Federação da Rússia tomou a decisão contrária e o Yabloko fica de fora. Ou seja, foi reposta a ditadura putinista.
Não duvido que a maioria esmagadora dos russos já esperava essa última decisão. A primeira fugia à lógica do regime autoritário e por isso foi simplesmente emendada.
A decisão foi tomada após uma acção judicial interposta por outro candidato, o partido nacionalista Rodina, e foi apoiada pela Procuradoria-Geral da República. O Serviço Federal de Monitorização da Liberdade (Rosfinmonitoring) afirmou ainda que alguns membros da lista do partido receberam financiamento do estrangeiro, o que é proibido por lei.
E aqui começa a farsa de todo este processo. A Comissão Eleitoral Central não deu conta de que o Yabloko recebeu dinheiro do estrangeiro, porque autorizou o partido anti-guerra participar no escrutínio, mas, durante a sessão no tribunal, entregou “documentos reservados” que provavam o contrário. E a reacção do Tribunal também não surpreendeu: aceitou os documentos, mas revelou que “não os irá tornar público”.
De nada valeram os argumentos dos dirigentes do Yabloko. Nikolai Rybakov pediu que o processo interposto pelo Rodina fosse rejeitado na íntegra. Salientou que o Yabloko não violou a lei e continuará a defender a sua posição política. Segundo o mesmo, o processo demonstra uma falta de confiança nas agências governamentais e no sistema, bem como na sua capacidade de realizar eleições competitivas.
“Operamos em condições difíceis na Rússia, dada a nossa posição política. No entanto, não escondemos essa posição. Esta é a nossa visão dos interesses do país e do seu futuro. É essencial para nós permanecermos e trabalharmos no país, mantendo o contacto com as pessoas que aqui vivem e para quem fazemos o nosso trabalho. Faremos tudo para garantir que a Rússia se torne um Estado democrático próspero”, disse esse líder do partido.
O partido Yabloko, liderado pelo veterano político russo Grigory Yavlinsky (que os eleitores mais velhos talvez ainda se recordem do seu programa “500 Dias”, de 1990, um plano de reformas de mercado para a União Soviética, exige o fim imediato da guerra. Além disso, o partido condena vários bloqueios e proibições, restrições à liberdade de expressão e aos direitos civis.
O que levou o Kremlin a afastar das eleições um partido pequeno, politicamente perseguido?
“O medo do poder” – respondeu Yavlinsky.
O facto é que, no país, um número cada vez maior de pessoas defende um fim rápido da guerra. Não protestam por medo de perder o emprego ou de ir para a prisão, mas Putin receia que elas possam comparecer nas eleições para votar por um partido que pretendia trazer para a discussão política o tema premente do fim da guerra na Crimeia. A participação no escrutínio poderia trazer resultados indesejáveis para o ditador.
Além disso, a própria campanha eleitoral do Yabloko ameaçava desequilibrar seriamente a agenda de informação do Kremlin, que actualmente não visa preparar a sociedade para a paz, mas mobilizá-la para continuar a guerra sob as palavras de ordem “patrióticas” “vingaremos o regime de Kyiv pelas mortes e destruição nas cidades russas, pelo apagão na Crimeia, pelos armazéns da Wildberries incendiados, pela escassez de combustível” e “provaremos que não nos ajoelharemos perante o Ocidente”.
Também não se pode excluir a possibilidade de a discussão aberta poder provocar uma forte dissonância e desencadear processos imprevisíveis na sociedade. Isto independentemente da percentagem final de votos ou mesmo se o partido conseguisse entrar na Duma Estatal (Câmara Baixa do Parlamento). Por conseguinte, se surpresa houve neste processo, ela não consistiu na proibição, mas sim na admissão do Yabloko.
Portanto, a principal surpresa não foi o afastamento do partido das eleições, mas sim a sua admissão.
Surpreende também o número de manifestantes que protestaram contra a decisão do Supremo Tribunal. Não obstante o forte aparato policial, muitas centenas de pessoas, maioritariamente jovens, estiveram do lado do Yabloko.
Centenário do nascimento de Fidel Castro
A “experiência socialista” cubana está a chegar ao fim. Para uns trata-se de uma tragédia universal, mas para outros o fim de um pesadelo repressivo.
Fidel Castro não se destaca muito de outros ditadores comunistas como Lénine, Trotsky, Estaline ou Mao, que fizeram os seus países mergulhar em regimes de terror, fome e violação dos mais elementares direitos humanos.
Para muitos uma revolução da esperança, rapidamente se constatou que não passava de um regime cuja acção pouco ou nada tinha a ver com as palavras e ideias proclamadas.
Os apoiantes da política de Fidel Castro culpam o bloqueio norte-americano de ser o culpado de todas as desgraças de Cuba, mas esta causa está longe de ser a única. Até à eleição de Donald Trump para a Casa Branca, o bloqueio não era total e Havana teve durante muitos anos o apoio económico, político e militar da União Soviética, e depois da Rússia, bem como dos chamados “países do campo socialista”.
Aliás, se os norte-americanos não tivessem apostado tanto no bloqueio a Cuba, há muito que a ditadura dos irmãos Castro poderia ser passado.
A verdadeira causa das desgraças de Cuba reside no facto de o modelo económico e político ter falhado, como sempre falhou, em todos os países que se lançaram na “construção do socialismo”. Por isso, após a longa aposta no sistema de nacionalização quase total dos meios de produção, de planificação forçada da produção, o presidente cubano Miguel Diáz-Canel viu-se obrigado a anunciar um programa com 176 medidas com vista a liberalizar a economia do regime, prevendo, nomeadamente, a existência de propriedade privada e o aumento dos investimentos estrangeiros.
Alguns poderão ver nestas medidas uma espécie de Nova Política Económica (NEP), programa realizado por Lénine com vista a salvar o poder bolchevique da falência total a que o “comunismo de guerra” conduziu a Rússia Soviética. Como é sabido, esse programa terminou quando os comunistas soviéticos constataram que a sua continuação levaria ao regresso do capitalismo.
Os apoiantes de Cuba podem ter esperanças em modelos como o chinês ou o vietnamita, em que o monopólio do poder dos partidos comunistas é acompanhado do capitalismo mais desenfreado e da falta de respeito dos mais elementares direitos do indivíduo. Porém, desta vez, os norte-americanos não pretendem aceitar esse desenrolar dos acontecimentos, recorrendo a formas cruéis e até desumanas de alcançar o seu objectivo.
As sanções e bloqueios, neste caso concreto, não atingem tanto as elites como a população cubana, mas Trump parece não ter cabeça para compreender isso. Veja-se o exemplo da Venezuela, onde “o melhor presidente da história” simplesmente comprou a direcção política corrupta. O mesmo poderá acontecer em Cuba. A fama de que os comunistas não são corruptos é um mito, o segredo está nas quantias a receber…
José Milhazes, historiador e jornalista
