O mercado de trabalho em Portugal está a mudar rapidamente — e a retenção de talento já não depende apenas de aumentos salariais. De acordo com o Workmonitor 2026, da Randstad, o equilíbrio entre vida pessoal e profissional tornou-se o fator mais decisivo para manter os portugueses no emprego, ultrapassando remuneração e estabilidade.
O equilíbrio passou a ser o principal motivo para ficar
O estudo mostra que 51% dos profissionais em Portugal considera o equilíbrio entre vida pessoal e trabalho como o principal motivo para permanecer na função atual. Este valor é mais do dobro do peso atribuído ao salário e benefícios (23%) e superior também à segurança no emprego (22%).
Apesar de o salário continuar a ser importante no momento de mudar de emprego (com 87% do talento a dizer que é um fator de atração), há limites claros: 42% não aceitaria uma nova função sem flexibilidade de local e 41% rejeitaria um cargo sem flexibilidade de horário.
Falta de autonomia está a empurrar talento para fora das empresas
Mais do que trabalhar menos, muitos profissionais querem trabalhar com mais liberdade. O relatório revela que 50% dos talentos já abandonou um emprego por falta de independência dada pelas chefias. Este dado reforça que a autonomia é vista como parte essencial do bem-estar e do desempenho.
Curiosamente, há alinhamento no diagnóstico: 80% dos empregadores concorda que a autonomia aumenta compromisso e produtividade, o que sugere que o desafio está menos na intenção e mais na execução dentro das organizações.
Carreiras menos lineares e mais personalizadas
A ideia de “subir na hierarquia” já não é a única definição de sucesso. Em Portugal, 39% do talento quer uma carreira tradicional, mas 27% prefere uma carreira de portfólio, com mudanças de setor e funções. Entre a Geração Z, esta tendência é ainda mais evidente: 67% prefere traçar o seu próprio percurso em vez de seguir uma hierarquia fixa.
Colaboração entre gerações: mais valorizada, mas mais difícil
O estudo aponta sinais positivos nas relações de trabalho: 65% dos profissionais diz ter uma relação forte com o gestor direto e 73% confia nos colegas. Além disso, 84% acredita ser mais produtivo ao colaborar com perspetivas diferentes e 78% valoriza trabalhar com pessoas de outras gerações para ampliar visão e aprendizagem.
No entanto, existe um obstáculo crescente: 90% dos empregadores refere que o trabalho remoto ou híbrido tornou a colaboração mais desafiante. Ao mesmo tempo, 70% dos profissionais procura mais pontos de contacto com os empregadores, reflexo da incerteza no mercado.
O “gap” da Inteligência Artificial está a aumentar
A tecnologia é outra frente de pressão e transformação. Em Portugal, 89% das empresas planeiam reforçar o uso de IA nos próximos 12 meses, mas apenas 50% dos profissionais acredita ter as competências necessárias para acompanhar esta evolução.
A perceção sobre benefícios também é desigual: 60% do talento e 70% dos empregadores sente que a IA melhora o desempenho, mas 44% dos profissionais acredita que a adoção da IA beneficiará sobretudo as empresas, e não os trabalhadores.
Perante este cenário, 72% dos profissionais afirma precisar de adaptar as suas competências para manter relevância, num momento em que muitas pessoas receiam que funções de entrada possam desaparecer devido à automação.
O que as empresas precisam de fazer para reter talento
Os dados do Workmonitor 2026 deixam uma mensagem clara: a retenção já não se compra apenas com salário. Para segurar profissionais, as empresas precisam de oferecer flexibilidade real, autonomia, e condições que permitam equilíbrio sustentável — sem perder o foco na colaboração e na capacitação tecnológica.
Num mercado em “Grande Adaptação”, a vantagem competitiva está cada vez mais em criar ambientes onde as pessoas conseguem ser produtivas sem abdicar da vida pessoal — e onde conseguem evoluir, mesmo num contexto acelerado pela Inteligência Artificial.
